Paulo César de Carvalho
“Grande Sertão: Veredas é também um exemplo da ‘arte de copiar livros’, entendida como a arte de dialogar com a tradição literária. O romance de Guimarães Rosa é uma releitura intensa e um ‘reescrever’ da obra do grande precursor, Os Sertões, de Euclides da Cunha. (...) Rosa compartilha com Euclides o fascínio e a inquietação diante do sertão, que, para ambos, é ‘o inexplicável’.” (Willi Bolle, professor de Literatura da USP
As afinidades entre Grande Sertão: Veredas e Os Sertões vão além das aparências. Em ensaio publicado na Revista USP (nº 24), Willi Bolle propõe que Rosa faz na verdade uma recuperação minuciosa, um resgate criterioso, de seu antecessor. Essa é, aliás, a idéia de que um artista, na busca de sua linguagem, estabelece um “diálogo” com o passado, cujo acervo de obras chamamos “tradição literária”. É daí que nasce o “novo”, como fruto de reflexões sobre o que já existe: o artista, nesse diálogo, rejeita elementos estéticos viciados, ultrapassados, incorpora o que há de positivo no “velho” e cria a sua própria obra. Nada de estranho se lembrarmos que a história da Arte é a história da “tradição” e da “ruptura”, do permanente encontro do “velho” com o “novo”: o duro parto da novidade apenas tem vez quando o passado foi deglutido e digerido, quando a “lição” foi aprendida (só é possível “criticar” o que se conhece).
É assim que procede Guimarães na elaboração de seu romance: adota a criação de Euclides como referência, como autêntico “cânone”, para transcendê-la. Não se trata aqui de colocarmos a questão em tom de competitividade, de disputa, como se um texto pretendesse ser “melhor” que o outro: cada um deve ser olhado em sua época, de acordo com as exigências do momento que não são as mesmas!- em que foi produzido. O primeiro é um exemplar da literatura brasileira “pré-modernista”. Data de 1902.
Trata-se da primeira obra a apresentar o Brasil como um país miserável, subdesenvolvido, cheio de contrastes (o Brasil do litoral e o do sertão), tomando por pretexto o episódio histórico do massacre no arraial de Canudos. Apresenta um caráter documental, jornalístico (Euclides foi enviado pelo jornal O Estado de S. Paulo para cobrir os fatos). É um texto realista, objetivo, direto. O segundo já é representante da literatura “modernista” de 1945 (“terceira geração” do modernismo). Data de 1956. Trata-se de uma obra que abriga mais “sertões” que Os Sertões, como o “sertão sertão” e o “sertão-mundo”, o “sertão exterior” e o “sertão interior”, o espaço físico e o místico. É ficcional, subjetivo. Relato de memórias de Riobaldo: fatos e feitos não historicizados, sem a monumentalidade de Canudos. Mais que a força do momento histórico, importa a força das grandes “miudezas” da vida.
Isso quer dizer que o sertão de Rosa, além da realidade geográfica, social e política, apresenta uma dimensão folclórica, psicológica e metafisica, como lembra seu amigo e jornalista Franklin de Oliveira. É aí, por exemplo, que o escritor deseja surpreender, transcendendo o antecessor. Quando falamos em “transcender” é pensando que nenhum artista sério, consciente, deseja reproduzir o que já foi feito: procura, a partir do que já foi “canonizado”, do que já virou “tradição”, criar uma nova proposta, um efeito de “estranhamento” (o tal “susto” provocado pelo desconhecido) com a sua própria linguagem, com outros meios que encontrou para lidar com seu objeto artístico. Caso contrário, toda obra não passaria de mera cópia, de simples plágio, e o tédio estaria instaurado (a história da Arte seria, então, a história de uma única obra-matriz reproduzida em série pelos tempos afora).
Para apresentar as relações de “intertextualidade” entre as duas obras, Bolle faz iluminado uso de um escrito do pensador alemão Walter Benjamin. Nesse, o filósofo começa por comparar o texto a uma estrada, dizendo que sua força é diferente para “quem anda por ela” ou a “sobrevoa de avião”, bem como a força de um texto não é a mesma para “quem o lê ou copia”. O mero leitor, continua, jamais conhece a profundidade do texto, os segredos dos interiores da “estrada”, a densidade da “selva”: “somente quem anda pela estrada experimenta algo do seu domínio”. Assim, somente a quem “copia” é dado conhecer “distâncias, belvederes, clareiras e perspectivas” da “estrada-texto”, na procura de novas alternativas para a criação literária: o imperativo é “caminhar-escrever” para reconhecer o relevo, o clima, a “geografia” da escritura.
Quando Benjamin fala no “copista”, refere-se àquele que refaz a antiga “trilha” para descobrir, contudo, “perspectivas novas de seu interior” não se trata, portanto, de “cópia” como plágio.
Rosa mergulha nos “sertões” de Euclides, como desbravador do “espaço-texto”, à procura de outras passagens, ou melhor, à caça de veredas (designação para os cursos d’água no meio do cerrado semi-árido). Quer trazer algo de novo à Literatura com isso, a sua contribuição pessoal, fugindo da sombra do predecessor e deixando a própria marca na cultura brasileira: a palavra “veredas”, por si só, serve de eficiente metáfora para a busca de novos cursos para a vida, novos horizontes para a literatura. É possível perceber as notas de intertextualidade, de diálogo entre os autores, já no título: ambos se referem ao sertão. Para Bolle, a escolha do título por Guimarães sugere uma “razão de Estado” do escritor: “Rosa não poderia realizar seu projeto literário sem refazer minuciosamente o caminho de quem o precedeu”.
As veredas é que levam ao “sertão”, espaço real ou da criação literária, espaço físico ou “espaço-texto”. E o autor principia por superar o “cânone”, exatamente, fazendo uso dessa palavra: as “veredas” nos permitem enxergar mais do que uma visão idealizada do país e de sua gente; possibilitam uma viagem pelos feitos pequenos do dia-a-dia, pelas histórias singelas do cotidiano (“micro-histórias”), pela realidade descarnada do sertanejo, em contraposição aos “feitos da historiografia monumental”. Se é verdade que os dois “sertões” têm um aspecto épico, grandiloqüente, apenas o de Rosa se digna a revelar as “pequenezas” dos humildes, os caminhos e descaminhos da gente pobre, suas dúvidas e inquietações, nas “veredas” de sua “estrada-texto”. É o que falou Franklin de Oliveira, sobre os aspectos geográficos, sociais e políticos do sertão e seus aspectos folclóricos, psicológicos e metafísicos. A palavra “veredas” faz, assim, um contraponto ao título, permitindo nos descortinar outros “sertões” além das fronteiras euclidianas.
Outro contraponto, segundo Bolle, pode ser destacado na análise da perspectiva narrativa das obras. Recorrendo novamente à imagem de Benjamin da leitura como um “sobrevoar”, o professor diz que Euclides inicia seu texto com um sobrevôo pelo sertão de Canudos, pela terra do conflito (a primeira parte de Os Sertões é “A Terra”). Trata-se, aqui, de um “olhar de cima” para as coisas, apreendendo-as verticalmente. É o que observamos em alguns trechos selecionados no seu ensaio: “O planalto central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas.
(...) Mas ao derivar para as terras setentrionais diminui consideravelmente de altitude, ao mesmo tempo que descamba para a costa oriental em andares (...) De sorte que quem os contorna, seguindo para o norte, observa notáveis mudanças de relevos (...)”. Na terceira e última parte do livro - “A Luta”-, o narrador leva o leitor a “caminhar pelas estradas” que desembocam em Canudos (existe até um mapa anexo ao livro!), nas investidas das expedições do Governo Federal ao Arraial.
E é por esse caminho que prossegue Rosa: trata-se de um “olhar de frente” para as coisas do sertão, apreendendo-as horizontalmente.
A perspectiva narrativa se encontra situada no nível da “estrada”, é o olhar de quem anda por ela, “perspectiva rasteira”.
Parece até que o narrador-personagem Riobaldo sequer admite a hipótese de uma visão “de cima”: “Sei o grande sertão? Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão ver sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas...”. Esse contraponto sugere, na verdade, que o narrador de Os Sertões (às vezes ao lado das tropas do governo, às vezes ao lado dos homens de Antônio Conselheiro, o narrador nem sempre é o autor) apresenta maior distanciamento e menor envolvimento em relação à vida e à matéria narrada (o “olhar de cima” é de certa forma o olhar de quem conta sem participar). O de Grande Sertão, Riobaldo, a começar pelo nome, é um “homem-rio”, que navega em si mesmo, em seus revoltos mares interiores, nas curvas e descaminhos da existência.
Está situado no nível do sertão. Está situado no nível da vida. O sertão é a própria vida: atravessá-lo é atravessá-la.
As duas obras também abrigam uma forte religiosidade.
Em Os Sertões, o sertanejo parece caminhar sobre espinhos de cactos em sua saga errante, numa autêntica “Via Crucis” por terras áridas.
É a própria noção do martírio cristão. É como se cada um fosse um mini-Jesus em sua provação. É a idéia da condenação dos homens por algum pecado originário. O sertanejo, por sua própria profissão e também pelas intempéries climáticas, é nômade.
Antônio Conselheiro, em permanentes peregrinações, o mesmo.
A busca da sobrevivência os irmana em fé. E os fiéis passam a segui-lo em andanças errantes até a construção do vilarejo de Canudos, que funciona como “estrada para o céu”, como afirma Euclides: “Os ingênuos contos sertanejos desde cedo muito lhes haviam revelado as estradas fascinadoramente traiçoeiras que levam ao inferno. Canudos, imunda ante-sala do Paraíso, pobre, peristilo dos céus, devia ser assim mesmo: repugnante, aterrador, horrendo...”.
Longe de ser uma “cidade” como ponto de chegada, como porto seguro, como ponto final, trata-se de um núcleo provisório, necessário como passaporte para o “Reino dos Céus”. A cidade, normalmente fim da civilização, funciona aqui como “meio” para a verdadeira civilização a fundada em Deus.
De acordo com Bolle, há situações semelhantes no Grande Sertão: o narrador-personagem Riobaldo também assinala o caráter nômade da vida cotidiana do sertanejo, que se põe de sol a lua, dia após dia, a viajar a boiada. Nômade é também a vida dos jagunços do bando do “homem-rio”, em seus combates com a jagunçada inimiga. Mais uma vez, os homens se encontram diante da “maldição” de errar sem rumo pelo sertão, reeditando o martírio. Fazendo seu um desejo do religioso Antônio Conselheiro, Riobaldo idealiza um porto seguro em que todos sofreriam juntos, de uma só vez, até a vitória final, até a redenção. Como está registrado no romance, trata-se da vontade de “formar uma cidade da religião”, uma espécie de Canudos (mais uma vez, a cidade é “meio”, é “estrada para o céu”). Outro exemplo da forte presença da religiosidade nos sertanejos está no fato de os jagunços inimigos serem tratados por “Judas”, o traidor de Cristo. Apesar da procura de Deus, quem parece reger o dia-a-dia desgraçado do sertanejo é Satã. Sabendo que seu pedido seria negado se endereçado a Deus, é ao Demo que Riobaldo dirige suas intenções, como a de liderar, por exemplo, o bando de jagunços em suas ações criminosas pelo sertão afora. Para tanto, à maneira de um ritual, celebra um pacto à meia-noite com Lúcifer (como Fausto, de Goethe). Depois disso, passa a ter uma preocupação central em torno da real existência desse “ser sem luz”, torcendo para que não exista de fato (ou sua alma estará perdida). Como ensina um ditado latino, “si vim pacem, parabellum” (“se queres a paz, prepara-te para a guerra”). Será que, para preparar a paz em Deus, Conselheiro não pactuou com o Demo, primeiro, a guerra?
O cineasta Glauber Rocha, admirador de Euclides e Rosa, faz a síntese da questão -e do sertão- por meio do título de um filme seu: Deus e o Diabo na Terra do Sol. Está dito!
Boletim Mundo Ano 4 n° 4
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