Lucília Maria Sousa Romão
Pois eu garanto que é um livro falso (...) O livro de Euclides da Cunha é de uma boniteza genial porém de uma falsidade hedionda. Repugnante.”
Mário de Andrade
(Diário Nacional de São Paulo - 01.mar.29)
Para entender criticamente Os Sertões , é preciso distanciamento entre forma e conteúdo. Há apelo estético, vigor nas imagens, descritivização minuciosa da natureza. Entretanto a visão deformada da história e de seus protagonistas põe na esfera da dúvida a obra toda.
A terra, etapa um da estrutura tripartida, cumpre seu totalitário determinismo de moldar os sertanejos, asfixiando secamente qualquer perspectiva de transformação. “O martírio do homem, ali, é o reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da vida. Nasce do martírio secular da Terra...” : mostra clara de que a ditadura do meio priva o homem da fartura e do pensamento. Não há como escapar da seca.
Num vôo cheio de preconceitos e deformações, o autor inaugura a segunda parte de sua obra: o homem. Jorram definições pesadas para definir povoamento, população e formação do habitante sertão mundo. O mulato é “subcategoria étnica” ao lado do “indígena inapto para o trabalho e rebelde sempre”. Sobre o mestiço, diz que “ a mistura de raças mui diversas é , na maioria dos casos, prejudicial(...)
A mestiçagem extremada é um retrocesso(...) o mestiço é, quase sempre, um desequilibrado”. Nem ao menos o sertanejo, tema do qual Euclides da Cunha era “conhecedor”, escapou da predisposição biológica como vetor do comportamento e do caráter: “ ele reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, (...) na tendência constante à imobilidade e à quietude”.
E por aí vai, até chegar à figura de Antônio Conselheiro. Pinta um retrato conservador, para destruir o líder popular, mentor da experiência igualitária e religiosa de Canudos: “Espécie de grande homem pelo avesso, ele reunia no misticismo doentio todos os erros e superstições que formam o coeficiente de redução da nossa nacionalidade”.
A luta é constituída de quatro expedições militares, algumas discussões políticas diante da resistência dos “rebeldes”, além do medo crescente de que Canudos - “uma tapera miserável, fora dos nossos mapas, perdida no deserto”- não se renda diante da força oficial. A visão é de um governo pronto para agir com soldados armados, que aos poucos vão se entregando diante da “natureza selvagem e pobre”.
A violência constante banaliza a vida, deixando escombros fumegantes pelas veredas-dias: “o espetáculo diário da morte dera-lhe
a despreocupação da vida”. Nesse sentido, Euclides da Cunha permanece vivo como relator do cotidiano atual. Única ponte possível : nosso vasto sertão coberto de espinho e sangue e muita gente sofrida. É só.
Boletim Mundo Ano 4 n° 4
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