É um inegável privilégio de cada homem comprovar que está certo na tese de que o mundo é seu inimigo, pois se ele a reitera com suficiente freqüência e a torna o fundamento da sua conduta, está destinado inevitavelmente a acertar.
(George Frost Kennan, As Fontes da Conduta Soviética, 1946)
“Creio que a política dos Estados Unidos deve ser a de apoiar os povos livres que resistem a tentativas de subjugação por minorias armadas ou por pressões de fora” - com essas palavras, o presidente Harry Truman enunciou, perante o Capitólio, há 50 anos, em março de 1947, o núcleo da estratégia de contenção da União Soviética que se fixaria como dogma da política externa de Washington até o fim da Guerra Fria. A Doutrina Truman, como passou para a história, assinalava uma reviravolta estrutural na visão de mundo da superpotência.
A Europa tornava-se o cenário focal de confrontação global e a União Soviética, a ameaça a ser combatida. A Doutrina Monroe, de 1823 - que fazia das Américas o teatro central da diplomacia dos Estados Unidos e do hegemonismo europeu o rival a enfrentar - apagava-se no passado.
A Doutrina Truman foi elaborada nos dois anos anteriores ao célebre discurso.
A configuração de uma esfera de influência soviética no leste europeu, a partir dos acordos firmados pelas superpotências nas conferências de Yalta e Potsdam, em 1945, acendeu as luzes de alerta entre os estrategistas das potências ocidentais. O britânico Winston Churchill lançou o primeiro brado num outro discurso famoso, no qual acusava os soviéticos de dividir a Europa por uma “cortina de ferro”. Mas o evento decisivo foi um longo telegrama enviado a Truman, assinado cripticamente por “Mr.X”, codinome usado pelo conselheiro na Embaixada americana em Moscou, George Frost Kennan, que identificava uma tendência expansionista secular como fonte da conduta soviética e propunha a “vigilante aplicação de uma contra força em uma série de pontos geográficos e políticos em constante mudança, correlacionados às mudanças e manobras da política soviética”.
Dito e feito. A Doutrina Truman foi o alicerce geopolítico para a deflagração do Plano Marshall (1948-52), a constituição da Otan (1949) e o congelamento do teatro europeu da Guerra Fria .
O espaço definido pela Otan funcionou como moldura para a edificação institucional da Comunidade Européia e a invenção ideológica de uma Europa Ocidental.
Na Ásia, ela embasou o guarda-chuva nuclear de proteção do Japão, o isolamento da China Popular e as intervenções americanas nas guerras da Coréia (1950-53) e do Vietnã (1960-73). Na América, orientou a política de embargo contra a Cuba de Fidel.
O cinqüentenário da Doutrina Truman, vários anos depois da queda do Muro de Berlim (1989) e da implosão da União Soviética (1991), coincide com as decisões finais para a expansão da Otan. A cúpula da Otan marcada para julho, em Madrid, deve convidar a Polônia, a Hungria e a República Tcheca a se incorporarem às estruturas político-militares da aliança ocidental em 1999. Em vez de terminar junto com a Guerra Fria, a Doutrina Truman se desdobra em novo patamar, ampliando os objetivos e a esfera de atuação do principal instrumento estratégico dos Estados Unidos .
O velho telegrama de “Mr. X” atribuía o expansionismo soviético não ao comunismo, mas às imagens que o nacionalismo russo construía a respeito do mundo exterior. Os russos, segundo Kennan, sentiam-se cercados e ameaçados pela hostilidade agressiva do Ocidente, e reagiam estabelecendo esferas de influência cada vez mais largas. Agindo com base na ilusão de que o mundo exterior era seu inimigo, a União Soviética transformava-o realmente em inimigo. “Mr. X” alertava-nos para o poder que as imagens ilusórias têm de determinar a política real dos Estados.
Ao longo da Guerra Fria, Washington construiu a sua própria imagem de Moscou - o “império do mal”, na frase quase infantil do ex-presidente Ronald Reagan.
As imagens têm vida duradoura: costumam sobreviver às circunstâncias que as criaram.
A expansão atual da Otan, por mais que a nova Secretária de Estado americana, Madeleine Albright, o negue, é motivada pela vontade de conservar a linha de separação geopolítica entre a Europa e a Rússia, e de empurrá-la mais para o leste, encapsulando toda a Europa centro-oriental no Ocidente.
Não é segredo que essa atualização da fronteira estratégica européia tem profunda repercussão na política interna russa.
Os setores nacionalistas, que se agitam no vácuo de poder aberto pela doença de Yeltsin, encontram audiência para os seus projetos de centralização da Comunidade de Estados Independentes. Uma Rússia insegura e temerosa enxerga, cada vez mais, o limite geográfico da CEI como a sua fronteira de segurança - o embrião de uma nova “cortina de ferro”.
O desenho geopolítico da Europa que se esboça com a ampliação da Otan não tem a simetria ou a estabilidade conferidas pelo duopólio de poder da Guerra Fria. Nele, se destaca uma vasta zona de instabilidade, localizada no sudeste europeu e formada por Estados que se encontram, ao mesmo tempo, fora da fronteira ampliada da Otan e fora da área de influência da Rússia . Essa zona, traumatizada pela guerra na Bósnia, ameaçada pelas inumeráveis tensões étnicas e culturais dos Bálcãs, não conhece regimes democráticos enraizados e não desfruta de horizontes de crescimento econômico.
A “terra de ninguém” balcânica evidencia os desequilíbrios de uma Europa incapaz de enterrar os seus mortos.
Boletim Mundo Ano 5 n° 1
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