Newton Carlos
A “determinação de ferro” de Madeleine Albright, descendente de tchecos com agressiva pontuação anticomunista e nova condutora da diplomacia dos Estados Unidos, tem entre suas prioridades desfazer resistências da Rússia à expansão da Otan, com a incorporação de Estados do antigo bloco soviético . O ministro do Exterior russo, Yevgueny Primakov, repete a todo momento que “atenta” contra os interesses nacionais da Rússia o projeto de avanço da Otan na direção “das nossas fronteiras”.
Warren Cristopher, antecessor de Albright, garantiu que a decisão americana é seguir em frente, mesmo com os riscos de a Rússia tornar-se “menos cooperativa”.
Por que essa atitude dos Estados Unidos, se a Guerra Fria acabou e deixou de existir a “ameaça soviética”, a mãe de todas as justificativas? No projeto de expansão há um outro embutido: o de transformação da Otan - cujo raio de ação, por força de cláusula do próprio tratado, deveria limitar-se à Europa Ocidental e Atlântico norte em tropa de choque a cargo da defesa dos interesses do Ocidente em qualquer parte do mundo. A Otan já ultrapassou a sua esfera formal de atuação mandando tropas à Bósnia.
Estudos determinados por Clinton concluíram que os interesses globais americanos exigem gastos de mais de 1,3 trilhão de dólares (cerca de duas vezes o PIB brasileiro!) no qüinqüênio à frente e a manutenção de 200 mil soldados na Europa e Ásia de leste e sudeste, como se o mundo não tivesse mudado.
Não só evitar o desmonte de alianças e mecanismos militares herdados da Guerra Fria, como se possível ampliá-los, a partir do projeto prioritário de expansão da Otan, o principal instrumento multinacional da hegemonia militar americana. Uma nova versão de “Pax Americana” surge em pareceres do Conselho de Segurança Nacional, Departamento de Estado e analistas independentes. É imperativa a continuidade da liderança dos Estados Unidos para “forjar um ambiente internacional favorável aos interesses ocidentais”.
Um ex-Secretário de Estado, James Baker, foi mais claro. O objetivo fundamental é chegar a um regime econômico “global e liberal”, a uma “ordem mundial capitalista”.
Para alcançá-la e preservá-la não basta a determinação de uma elite globalizada.
Só o poder dos Estados Unidos, exercido inclusive por meio da Otan, conseguirá isso. A estratégia pós- Guerra Fria do governo Clinton fala da criação de “zonas de paz e prosperidade, amplamente democráticas, voltadas para o mercado, abrangendo mais de dois terços da economia mundial”. A Otan seria a tropa de choque dessa estratégia. Além disso, o próprio Clinton fala que “os grandes desafios do mundo ainda são muitos”terrorismo, disseminação das armas de destruição maciça, tráfico de drogas, degradação do meio ambiente, conflitos religiosos e um vasto oceano de mudanças traumáticas por todas as partes. Visão apocalíptica em boa parte extraída de textos de Robert D. Kaplan, autor de artigo sobre a “anarquia que vem vindo” e de livro que pretende ser jornada de terror e angústias nos primórdios do terceiro milênio.
Na anarquia a caminho, segundo Kaplan, nações se esfacelam sob ondas de refugiados, desastres sociais e ecológicos. As fronteiras convencionais desabam e surgem outras, as muralhas de doenças. Recursos naturais escassos, sobretudo água, produzem confrontos armados e as guerras se tornam contínuas, com bandos de sem-pátria enfrentando militarmente forças de segurança privadas, das elites. Num mesmo rumo, o da antevisão de um futuro global devastador, o professor Samuel Huntington na revista Foreign Affairs aborda tema que é hoje debate acalorado na academia: a possibilidade de “choques de civilizações”, asiáticos contra ocidentais, islâmicos contra cristãos, etc.
Huntington escreveu que acabam as guerras ideológicas e o mundo assiste ao advento das guerras entre civilizações, como a da Bósnia, onde está metida a Otan, já de fato em expansão. A Rússia não se opõe simplesmente à expansão. Ela não aceitaria a própria sobrevivência da aliança militar ocidental, vista como a continuidade da hostilidade da Guerra Fria. Assessores de Primakov dizem que “nada mais une os diversos componentes da Otan, a não ser a hostilidade à Rússia”. Também contam fatores de instabilidade nas fronteiras com as antigas repúblicas soviéticas, onde estão pregados os olhos de Moscou, que se juntou a Pequim para emitir comunicado conjunto denunciando a permanência de “hegemonismos e pressões sobre outros países”.
Um contraponto à expansão da Otan seria uma “aliança estratégica” entre China e Rússia, fortemente desejada pelos russos, o que também entra na contabilidade de segurança de Clinton. John Le Carré, que está de novo nas livrarias com O Alfaiate do Panamá, trama em torno do canal que os Estados Unidos devem e já não querem devolver até dezembro de 1999, garante que a espionagem e as intrigas internacionais não ficaram sem espaço com o fim da Guerra Fria. “O simples fato de que o comunismo não funcionou não significa que o capitalismo funcionará. O capitalismo é força terrivelmente desagregadora, produzindo refugiados aos milhões, arruinando estilos de vida e meio ambiente com a mesma energia negativa do comunismo”, diz Le Carré. Mais razões para transformar a Otan em tropa de choque e ampliá-la.
Boletim Mundo Ano 5 n° 1
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