A participação dos jovens na política é fundamental para a construção do futuro do Brasil, diz a brasileira - palestina Lâmia Maruf Hassan, 32 anos, em entrevista exclusiva. Sua própria vida é marcada pela política. Lâmia passou onze anos presa em Israel, por ter participado de um seqüestro que resultou na morte do soldado israelense David Manus. O seqüestro foi praticado em março de 1984, com a participação de Tufi Ibrahim Mohamed, marido de Lâmia, ainda preso em Israel.
Lâmia foi atraída para a política em 1980, quando ainda era uma jovem estudante no Liceu Acadêmico São Paulo, escola que já não existe. Estimulada pelos professores a ler e a formar suas próprias opiniões, Lâmia participou de movimentos contra a ditadura.
Lâmia recebeu Mundo em sua casa, em São Paulo, visivelmente cansada após uma maratona de duas semanas de entrevistas e palestras diárias, iniciada desde sua volta ao Brasil, em 15 de fevereiro. Simpática, Lâmia conta como foi atraída para a causa palestina, faz um balanço de sua vida e afirma que a paz é a única solução realista para o Oriente Médio.
Como começou teu interesse pela política?
Lâmia - No colégio, meus professores eram progressistas, inteligentes, e se importavam com a nossa formação. Eles nos diziam que tínhamos que aprender a pensar. Eles nos conscientizaram muito sobre temas terceiro-mundistas, ainda que eu não goste deste termo: ‘‘terceiro mundo’’ é muito discriminador. Mas a maioria de meus amigos se interessava pelas discussões sobre problemas causados pelo subdesenvolvimento.
Naquela época, o Brasil ainda era uma ditadura. Você não tinha medo?
Lâmia - Naqueles anos, 1980 - 81, já havia uma certa liberdade de expressão. Após a lei de anistia, em 1979, as coisas estavam mudando. Depois de tantos anos de repressão, havia uma grande vontade de falar, uma fome de liberdade. Todo mundo queria participar de movimentos políticos, partidários, estudantis. Foi uma época linda. Eu fazia questão de participar dos debates políticos, que se multiplicavam, em particular na USP.
Mas, o que é que fez com que você se preocupasse, em particular, com a questão palestina?
Lâmia - Sem dúvida, foi o massacre de refugiados palestinos que viviam nos campos de Sabra e Chatila, no Líbano, em 1982 O massacre, praticado por tropas libanesas, foi apoiado logística e militarmente por Israel.
Em algumas horas, milhares de pessoas foram chacinadas, não escapando nem mulheres grávidas . Aquilo não tinha explicação.
Não se justifica a morte de crianças, mulheres, jovens e velhos. Eles estavam indefesos.
A partir daquele episódio, quis aprender tudo o que podia sobre o Oriente Médio. Quis até aprender o árabe e o hebraico para tentar entender melhor a mentalidade de todos os envolvidos naquele conflito.
E como você se relacionava com os seus colegas de escola? Eles também queriam se aprofundar nestes temas, ou você era uma ‘‘estranha no ninho’’?
Lâmia - Em geral, meus colegas entendiam minhas preocupações, iam comigo às manifestações, como a que houve contra a guerra do Líbano, por exemplo.
Então, os temas de política externa eram tão importantes como a luta contra a ditadura?
Lâmia - Claro. Por exemplo, quando o presidente Ronald Reagan visitou o Brasil, fizemos passeata contra ele, especialmente depois que ele, com sua arrogância, confundiu o Brasil com a Bolívia...
E como foi a decisão de ir para a Palestina?
Lâmia - Quando eu tinha 17 anos, fiquei noiva de Tufi, agora meu marido. Eu o conheci por lá, quando fui visitar a terra de meus pais, a aldeia de Der Balut. Depois disso, voltei ao Brasil, e ele foi para a Líbia, ensinar Geografia. Ficamos dois anos longe.
A gente se correspondia em inglês, porque eu ainda não sabia escrever em árabe.
Em 1983, já tendo terminado o colegial, resolvi voltar para lá, para me casar. Ele pretendia completar o seu doutorado nos Estados Unidos, mas a embaixada americana não deu o visto, por achar que ele queria trabalhar, e não apenas estudar. E foi assim que passei a viver na Palestina.
E seus pais?
Lâmia - Eles respeitaram minha decisão.
Tufi já era envolvido em política?
Lâmia - Sim, ele era membro da Fatah, uma ala da OLP.
E hoje, depois de tudo, que balanço você faz? Você se arrepende de ter sido militante?
Lâmia - Não. Para você ser cidadão, você precisa ser politizado, conhecer os seus direitos e deveres. Isso é fundamental. Todos, especialmente os jovens, deveriam ter em mente o fato de que a politização é necessária para construir um futuro melhor. Temos que ter consciência dos problemas que o Brasil enfrenta, para construir esta nação.
É preciso haver um trabalho coletivo.
Mas e os anos perdidos na prisão?
Lâmia - Eu não consigo me imaginar vivendo num lugar em que haja injustiça.
Minha auto-estima não me permitiria. Por isso, não me arrependo. Não consigo aceitar que milhares de pessoas morram de fome. Não dá. Então, é preciso lutar, organizar.
Além do mais, as coisas estão mudando na Palestina. E quando você vê o resultado de sua luta, então você diz: ‘‘puxa, valeu a pena’’.
Você tem sido atacada como ‘‘terrorista’’, através da imprensa, por certos setores da sociedade brasileira. O que você tem a dizer sobre isso?
Lâmia - Os que me acusam ainda estão presos à antiga idéia da guerra. Os interessados na paz não mantêm essa posição. A paz se faz entre inimigos, e todos reconhecem, hoje, que havia uma guerra na Palestina.
A luta armada foi inevitável. Israel não aceitou as resoluções da ONU, que exigiam a sua retirada dos territórios ocupados.
A comunidade das nações nunca adotou qualquer medida para impor, na prática, as resoluções da ONU. Ninguém ouvia os palestinos. Enquanto isso, as terras palestinas eram confiscadas, os mananciais de água eram tomados, milhares de palestinos estavam sendo presos e suas casas demolidas por Israel, que multiplicava a implantação de colônias de judeus em terras palestinas.
Tornou-se comum, por exemplo, você ver casas de judeus na Cisjordânia com grandes piscinas, ao lado de aldeias palestinas sem água. Era um absurdo! Havia muitas restrições nas escolas. Geografia e História eram ensinadas de forma totalmente deturpada.
Se, por exemplo, algum estudante palestino fosse encontrado com um mapa mostrando as delimitações do Estado palestino, mesmo que fosse um mapa dos tempos da colonização britânica, ele poderia ser preso. As prisões israelenses estavam repletas de garotos palestinos com 10, 12 anos de idade.
Qual o impacto disso tudo para a juventude palestina, hoje?
Lâmia - Os jovens palestinos são indignados, politizados. Crianças sabem discutir, perfeitamente, as resoluções da ONU. Sabem quem é o Partido Trabalhista israelense, quem é o Likud, quem é a esquerda progressista de Israel, quais as forças políticas que atuam na Palestina.
E o que mudou com a paz de 1993?
Lâmia - Antes da paz, à época da Intifada, os jovens palestinos não ouviam música.
Ouviam o noticiário, estavam muito atentos ao jogo político. Crianças eram estrategistas, jogavam pedras nos soldados israelenses e desapareciam com extrema agilidade.
Mas pagaram um preço: amadureceram depressa demais. O acordo mudou um pouco isso tudo, no sentido de que criou a convicção de que a paz é necessária e possível.
E em Israel?
Lâmia - A sociedade israelense é muito estratificada, dividida. Num extremo, existe a esquerda progressista, favorável à paz. Em outro, a extrema-direita, que quer continuar com a matança de palestinos e a implantação de novas colônias judaicas. As últimas eleições em Israel mostraram as profundas divisões naquela sociedade.
Mas o acordo de paz melhorou as relações?
Lâmia - Em certos aspectos, piorou, porque Israel passou a exercer um grau de controle ainda maior sobre a população palestina.
Isso vale, por exemplo, para a legislação que regulamenta vínculos empregatícios, o trânsito de pessoas entre Israel e os territórios palestinos, as normas para o acolhimento de pacientes palestinos em hospitais israelenses, o comércio entre a Autoridade Palestina e o resto do mundo etc.
Em certas áreas da AP, o nível de desemprego chega à cifra absurda de 70%.
Vamos supor que um jovem palestino se apaixone por uma israelense. Há chance de um casamento desse tipo?
Lâmia - Há muitos casos assim. Mas esses casais sofrem discriminação, represálias da sociedade. Em Israel, há comitês de grupos religiosos judeus que visitam todas as mulheres judias casadas com árabes, com o objetivo de acabar o casamento. A TV israelense fez vários programas para denunciar a atividade desses comitês.
Há chances de mudar essa mentalidade?
Lâmia - Serão necessárias muitas gerações.
Mas a luta pela paz começa já e é permanente.
Lutar pela paz não é ficar falando ‘‘queremos paz’’, mas sim adotar medidas práticas. Tentar atrair um ao outro por vias culturais, por intercâmbios. Isso é muito importante.
Boletim Mundo Ano 5 n° 1
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