A Geografia classifica as cidades a partir das relações que elas estabelecem com o espaço nacional.
A globalização começa a desafiar os conceitos geográficos tradicionais, selecionando um conjunto de cidades cuja dinâmica sócio-econômica define-se cada vez mais pelas relações com o espaço internacional. São as “cidades globais”, ou “cidades mundiais”, que funcionam como nexos entre países e continentes integrados por fluxos de mercadorias, capitais e informações.
No passado, quando o comércio internacional começou a interligar espaços distantes, desenhando a moldura da economia-mundo, algumas cidades desempenharam funções similares. Gênova, no mar Tirreno, e Veneza, no mar Adriático, foram as pioneiras do movimento de expansão comercial da Europa, nos séculos XIV e XV. A primeira controlou as rotas do Mediterrâneo ocidental, que abrangiam os portos do Magreb, de Ceuta e da península ibérica. A segunda dominou as rotas do Mediterrâneo oriental, interligando os portos do mar Egeu, da Ásia Menor e do Egito. Dois séculos mais tarde, Amsterdã, na Holanda, tornou-se a mais importante “cidade mundial”, funcionando como vértice do comércio holandês no Oriente e no Ocidente. A Companhia das Índias Orientais estabeleceu a hegemonia holandesa sobre as rotas do Índico, agindo nos mercados asiáticos a partir da sua base de Batávia, na Indonésia. A menos poderosa Companhia das Índias Ocidentais chegou a controlar o comércio açucareiro do Caribe e, por algum tempo, as áreas de plantations nordestinas na América Portuguesa.
Essas “cidades globais” do passado eram cidades-Estado. Elas puderam desenvolver funções internacionais predominantes porque não estavam limitadas pelas fronteiras territoriais dos Estados modernos. Isso as distingue da Lisboa dos séculos XVI e XVII, da Londres dos séculos XVIII e XIX ou da Nova Iorque do século XIX, que funcionaram como nexos do intercâmbio transoceânico, mas cujas relações predominantes estabeleceram-se com o espaço geográfico delimitado pelas fronteiras de Portugal, da Inglaterra e dos Estados Unidos.
Na era da globalização, os Estados não perdem a sua importância, e as fronteiras políticas não se dissolvem. Mesmo assim, a intensidade dos fluxos que integram a economia mundo promove o reaparecimento de cidades cuja dinâmica externa sobrepuja os laços que as conectam ao espaço interno. Entretanto, ao contrário das “cidades globais” do passado, as contemporâneas não são, essencialmente, elos de fluxos materiais, mas de fluxos imateriais. Elas abrigam os principais mercados financeiros do planeta e as sedes das corporações transnacionais.
Nova Iorque, Tóquio e Londres são as clássicas “cidades mundiais” da globalização.
Wall Street é o endereço do maior mercado financeiro do mundo. Tóquio é o centro das finanças da Ásia e do Pacífico. A City londrina abriga o euro mercado de capitais. A posição de Londres encontra-se ameaçada pelas reticências britânicas a adotar o Euro, a moeda única européia prevista pelo Tratado de Maastricht. Caso a Grã-Bretanha fique de fora, o euro mercado tenderá a se transferir para Frankfurt, na Alemanha, sede do futuro Banco Central europeu.
Cingapura e Hong Kong consolidaram as suas funções internacionais por serem, na prática, cidades-Estado. Nesse sentido, assemelham-se às antigas Gênova, Veneza e Amsterdã.
Desempenham papéis cruciais como nexos do intercâmbio de mercadorias. Porém, mais importante ainda, funcionam como sedes macro-regionais das corporações transnacionais que atuam na Bacia do Pacífico.
Essa função é disputada por outras cidades que, em diferentes macro-regiões, aspiram à condição de endereços continentais das mega empresas: Seul, Taipé, Bangcoc e Kuala Lumpur, na Ásia, Cidade do México, São Paulo e Buenos Aires, na América Latina, Cidade do Cabo, na África sub-saariana. Cada uma delas é um espelho da riqueza e da miséria da economia mundo.
Boletim Mundo Ano 4 n° 6
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