sábado, 5 de fevereiro de 2011

Eu prometo !

O lingüista suíço Ferdinand de Saussure distinguiu os conceitos de língua e fala. A língua seria um sistema de mecanismos e unidades abstratas que se atualizaria em atos concretos de fala.
Notamos, entretanto, que um grupo de pessoas que costumam falar habitualmente juntas desenvolve certas maneiras típicas de falar, comuns a todos os membros do grupo. Se eles repetirem freqüentemente certos temas de conversa, os traços comuns serão ainda mais notáveis. Com base nessa observação, o lingüista romeno Eugenio Coseriu distingue, além da língua e da fala, a norma, concebida como o conjunto de hábitos lingüísticos comuns a um grupo social.
A análise dos textos deve levar em consideração estes conceitos e tentar perceber qual é a norma subjacente a uma série de textos.
Um conjunto formado por textos que tratem todos do mesmo tema e tenham características formais semelhantes constitui um universo de discurso. Numa sociedade moderna, podemos perceber vários universos de discurso, como o religioso, o moral, o econômico, o estético e o político, dentre outros. Para cada universo corresponde uma norma específica, com suas unidades e sua sintaxe específica.
O universo de discurso político
O universo de discurso político é o conjunto de textos cujo tema é a política. O estudo desse universo deve busca a norma lingüística subjacente aos vários textos, bem como os desvios que cada texto particular apresenta em relação a essa norma.
Para empreender esse estudo é preciso alguma idéia sobre o que seja a política. Isso, para o analista de textos, é um grande problema. Todas as disciplinas científicas têm divisões internas, fruto da existência de várias escolas e visões diferentes sobre o objeto de estudo. A Ciência Política não é uma exceção. Diferentes cientistas políticos podem apresentar diferentes concepções sobre política, o que levaria a entender determinados textos como políticos ou não, em conformidade com o referencial teórico adotado.
A solução é adotar uma definição relativamente ampla e consensual e evitar os pontos mais polêmicos.
Segundo o Dicionário de Política de um dos mais citados cientistas políticos contemporâneos, Norberto Bobbio, o termo política, na época moderna, é “usado para indicar a atividade ou conjunto de atividades que, de alguma maneira, têm como termo de referência o Estado”. O Estado, por sua vez, segundo a definição do sociólogo alemão Max Weber, é entendido como “uma empresa institucional de caráter político onde o aparelho administrativo leva avante, em certa medida e com êxito, a pretensão do monopólio da legítima coerção física, com vistas ao cumprimento das leis”. Essa definição se complementa com a constatação de Marx e Engels de que, “numa sociedade dividida em classes antagônicas, as instituições políticas têm a função primordial de permitir à classe dominante manter seu domínio” sobre a classe trabalhadora.
Isso posto, devemos reunir um conjunto de textos políticos, para compará-los e assim determinar as variantes e invariantes do discurso político, ou seja, traços comuns a todos os textos e traços específicos de cada texto. Para este artigo, foram analisados textos publicados em veículos da grande imprensa (principalmente os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, mas também as revistas Veja e Esquerda 21) ou divulgados por partidos políticos em época eleitoral.
O léxico dos textos políticos
Todos os idiomas possuem um léxico, compreendido como o conjunto de palavras e expressões típicas do idioma. O léxico seria o dicionário da língua. Cada norma lingüística e cada texto em  particular lança mão de um léxico próprio, que caracteriza aspectos importantes de seu conteúdo.
Um dos procedimentos de análise lexical é o levantamento da freqüência relativa dos vocábulos empregados em um ato de fala. Essas freqüências são comparadas com outras, recolhidas em amostras de textos diferentes.
Se  comparamos vários textos sobre o mesmo tema, notamos que certos vocábulos apresentam freqüência relativamente alta em todos os textos. Estes vocábulos caracterizam o universo de discurso em que o texto está inserido. De acordo com a terminologia do Laboratório Lexicométrico de Saint-Cloud (França), inspirada no lingüista Charles Muller, estes vocábulos muito freqüentes são denominados de palavras-tema e compõem a norma lexical do universo de discurso considerado. A especificidade de cada texto é caracterizada pelos vocábulos freqüentes no texto, mas não na norma. São as chamadas palavras-chave.
Em 1990, fiz um levantamento deste tipo para analisar o discurso político da eleição presidencial de 1989. Na época interessava, principalmente, contrastar os dois candidatos que chegaram ao segundo turno, Luís Inácio Lula da Silva, do PT, e Fernando Collor de Mello, do PRN. Comparei uma publicação de Lula vendida em bancas de jornal (chamada “Democracia”) ao pronunciamento de Collor na convenção do PRN que oficializou sua candidatura. Eram textos de tamanho muito semelhante, perto de 2.500 substantivos cada um. Nos dois casos, os quatro substantivos mais freqüentes eram exatamente os mesmos: país, Estado, governo e sociedade. Tais palavras não definem a ideologia dos candidatos. Definem o próprio universo de discurso político. É impossível falar de política sem mencionar o país, o Estado, a sociedade, o governo. Por outro lado, a especificidade de cada candidato fica evidente se compararmos as palavras mais freqüentes em um texto, mas pouco freqüentes no outro. Com esse critério, o discurso de Lula foi caracterizado por palavras como democracia, autoritarismo, participação, história e outras semelhantes. Já Collor caracterizou-se por termos como vida, setor, área, campo, recurso. Como vemos,  o texto de Lula apresentou um conteúdo mais claramente político, ao passo que o de Collor era mais administrativista.
A escolha lexical Outro aspecto da ideologia do texto está associado à escolha entre vocábulos ou expressões sinônimas. Em geral, uma idéia pode ser expressa de mais de um modo. Ocorre, porém, que não existem sinônimos perfeitos. Duas palavras podem denotar o mesmo objeto, mas sempre o fazem de modo a transmitir impressões diferentes sobre o objeto Por exemplo, no dia 17 de abril deste ano noticiou-se a morte de 19 pessoas em Eldorado de Carajás (PA), em episódio envolvendo a Polícia Militar e o Movimento dos Sem-Terra (MST).
Nenhum dos mortos era policial. O fato foi inicialmente designado de conflito ou confronto. Em sua primeira declaração, Fernando Henrique Cardoso usou conflito. No mesmo dia 17, porém, quando surgiram novas informações sobre o fato, o presidente usou outro termo: “É inaceitável que tenha havido um massacre” (Folha de S. Paulo de 18/4/96). Massacre e chacina tornaram-se então os termos comuns, mas não unânimes. Em texto publicado em vários jornais na semana seguinte, a organização  conservadora .
Tradição,  Família e Propriedade falava apenas em triste episódio.
Outros também falaram em tragédia. Estes dois últimos vocábulos são mais neutros que os dois anteriores. Tragédia é um termo normalmente usado em referência a eventos naturais ou eventos não desejados, como incêndios e inundações. Já massacre pressupõe um agente agressor poderoso e uma vítima indefesa. Conflito tem um valor intermediário: não é um evento natural, mas sugere igualdade entre os envolvidos.
O discurso político brasileiro atual
Desde a eleição de Fernando Collor, o discurso político brasileiro tem-se articulado, em grande parte, com base na oposição entre moderno e arcaico, em substituição à oposição esquerda e direita, comum nos textos anteriores a 1989. O presidente Fernando Henrique sempre utiliza a dicotomia. O próprio episódio de Eldorado de Carajás foi caracterizado como “um conflito entre o Brasil moderno e o arcaico”.
Socialmente, o que mais chama a atenção na elaboração do discurso político atual é a participação cada vez maior de profissionais de marketing político em campanhas eleitorais. Baseados em pesquisas e outros instrumentos, esses profissionais orientam a imagem e a fala do candidato em direção às expectativas do eleitorado. A conseqüência dessa atuação é a incorporação ao discurso político de traços típicos do discurso publicitário.
Boletim Mundo Ano 4 n° 5

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