José Arbex Jr.
Os debates e comícios eleitorais partem de uma premissa ilusória: o candidato que argumenta melhor será o mais indicado a ocupar determinado cargo. No caso de um debate transmitido pela TV, é o show, é o desempenho que tem importância, muito mais do que a a plataforma política, as idéias, as propostas de governo. Estamos, aqui, no império das aparências. O candidato terá votos caso consiga apresentar-se de forma adequada ao público a quem dirige sua mensagem. O corte de cabelo, a roupa, o modo de sentar-se, a pausa entre as palavras, o olhar lançado ao interlocutor ou à câmera de TV - tudo conta. Isso vale para o candidato que queira passar a imagem de alguém jovem e dinâmico, ou para aquele que se apresente como alguém cauteloso e maduro, ou ainda para quem se mostre preocupado com o Evangelho.
Milhares de votos podem ser perdidos por uma frase mal construída, por uma hesitação momentânea, por um ato falho.
Muitos estudiosos chegam a afirmar que certos debates transmitidos pela TV podem decidir o resultado de uma eleição muito disputada. Foi o caso do histórico embate, em 1960, entre John Kennedy (do Partido Democrata) e Richard Nixon (do Partido Republicano), então candidatos à Presidência dos Estados Unidos. Kennedy venceu por uma margem pouco superior a 100 mil votos, num universo de mais de 70 milhões. Há um certo consenso de que as eleições foram decididas em um debate entre eles, transmitido pela TV, durante o qual Nixon cometeu erros primários: sua barba estava mal feita, ele suava muito, passava constantemente o lenço pelo rosto, não cuidou adequadamente da maquilagem. Passou, enfim, uma imagem nervosa, ansiosa e desagradável, em franco contraste com um Kennedy bonitão, ousado, agressivo, jovem e bem-vestido.
No Brasil, ficou para a história um debate eleitoral televisivo, em 1985, durante o qual o apresentador do programa, o jornalista Boris Casoy, perguntou a Fernando Henrique Cardoso, então candidato do PMDB à Prefeitura de SP, se ele acreditava em Deus. FHC vacilou, porque se viu preso em uma contradição: sua trajetória de intelectual de esquerda, um dado importante de sua imagem naquela ocasião, o impelia a negar a existência de Deus; mas proclamar-se ateu, ou agnóstico, em um país católico como o Brasil, significava perder votos. FHC deu uma resposta ambígua, e perdeu muito com isso. No mesmo debate, Casoy causou embaraços a Eduardo Matarazzo Suplicy, candidato do PT, ao perguntar-lhe o preço do pão francês. Suplicy não sabia, coisa que abalava a imagem de um sujeito preocupado com as causas populares. O debate foi vantajoso para Jânio Quadros (vencedor das eleições), que manteve seu estilo tradicional, identificando-se com um público eleitor cativo.
Outro debate histórico no Brasil foi aquele em que se apresentaram os candidatos Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Collor do Mello, no segundo turno das presidenciais de 1989. Lula mostrou-se nervoso e hesitante, contra um Collor agressivo e ousado. Guardadas todas as devidas ressalvas e proporções, foi mais ou menos como se o Brasil houvesse reeditado o debate entre Nixon e Kennedy, cabendo a Lula o papel de Nixon. Essa analogia não é totalmente arbitrária. Collor gostava de cultivar, a fantasia de ser um Kennedy dos trópicos. Seu suposto apego aos esportes, incluindo a prática de artes marciais, fazia parte da fantasia. Não faltou sequer um romance com uma atriz brasileira, paralelo algo ridículo do affair entre Kennedy e Marilyn Monroe.
Até agora, apenas constatamos que a composição da imagem do candidato é vital para definir o rumo de sua campanha.
Resta saber como e por que criou-se essa espécie de ‘‘ditadura do marketing’’.
Coube ao debate Kennedy-Nixon, ao qual já nos referimos, introduzir definitivamente a mídia eletrônica na disputa política.
Foi a partir dele que a apresentação televisiva dos candidatos passou a ser vista muito mais como um grande show, destinado a cativar e a seduzir os telespectadores. Isso tem tudo a ver com o surgimento e a vertiginosa evolução da indústria de comunicação de massa - e o conseqüente poder adquirido pela TV. O desenvolvimento da mídia eletrônica produziu um deslocamento nas técnicas de narrar o mundo. Dezenas de milhões de pessoas que nunca tiveram a preocupação de abrir um jornal ou ler um livro, passaram a ter acesso a informações noticiosas através da telinha. Assistir ao telejornal diário passou a ser uma rotina. Notícias locais, da comunidade, são colocadas no mesmo pacote de informações que inclui as últimas descobertas da ciência, conflitos nos mais longínqüos pontos do planeta ou articulações políticas de âmbito nacional.
O problema é que essa quantidade imensa de informações é recebida por uma massa que, raramente, exerce o espírito crítico. As imagens e versões são aceitas como ‘‘a” verdade, e não como uma possibilidade entre tantas outras. Poucos param para pensar que as imagens foram filmadas por uma câmara segundo um determinada ângulo ou orientação; que o material filmado foi, posteriormente, cortado, montado e editado; que as imagens foram emolduradas por trilhas sonoras e textos narrativos, e que isso tudo acaba configurando um quadro que mexe com as emoções, preconceitos etc. Por outro lado, aqueles que narram os fatos simplificam a notícia, segundo várias técnicas: por exemplo, apontam o lado ‘‘bom’’ e o ‘‘mau’’ de uma guerra, ou, no caso de uma notícia econômica, ocultam as várias implicações de um decreto governamental, ou ainda apelam ao senso comum para legitimar ou condenar determinado evento. Trata-se, enfim, da mesma estrutura narrativa utilizada pela telenovela, cujos personagens têm o seu papel rigidamente determinado.
O resultado é que aquilo que aparece na telinha é encarado e consumido como expressão da verdade. É como se a imagem esgotasse, em si mesma, o fato que ela anuncia: ela é idêntica ao fato. Por exemplo, durante a Guerra do Golfo, em 1990, o mundo acreditou que os Estados Unidos haviam inventado a ‘‘guerra limpa’’, ‘‘cirúrgica’’, sem vítimas humanas. Como a TV não mostrou mortes, os telespectadores foram convencidos de que era possível bombardear , durante 40 dias, uma capital como Bagdá, com 4.800.000 habitantes, sem matar ninguém!!! Hoje, sabe-se que pelo menos 170 mil pessoas foram mortas (a maioria composta de civis). Não é de se estranhar, portanto, que um candidato que passe a imagem de um homem ‘‘bom’’, ‘‘justo’’, será, como conseqüência, tido como ‘‘bom’’ governante. É por essa razão que hoje são as empresas de marketing que decidem o que, quando e como um candidato deve pronunciar-se sobre tal ou qual assunto. A política rendeu-se à força da imagem.
Boletim Mundo Ano 4 n° 5
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