João Wady Cury
Em entrevista exclusiva, guerrilheira do Timor Leste denuncia a brutalidade das forças de ocupação da Indonésia
Maria de Fátima Gomes Guterres não é surfista mas tem uma curiosa tatuagem no antebraço esquerdo. São três letras: AMN. Significam Arthur Maria do Nascimento. Era o nome do homem com quem iria se casar, mas que foi assassinado por soldados da Indonésia, quando este país invadiu, em 1975, o Timor Leste uma ilha que foi colônia portuguesa.
Aos 42 anos, parte da história de Fátima - que foi contada recentemente por ela mesma no Rio de Janeiro, durante um encontro internacional de mulheres - confunde-se com a história de Timor, justamente pela resistência da população local aos invasores.
Com 20 anos na ocasião, Fátima era estudante, quando teve que pegar em armas e aprender táticas de guerrilha contra a Indonésia. Em entrevista exclusiva, ela conta aqui a sua história.
- Aos 20 anos, você aderiu à luta pela independência de seu país. Como era a sua vida naquela época e como ela se transformou ?
Fátima - Foi uma situação traumática. Eu estava noiva e levava uma vida pacata. Morava com os meus pais e quatro irmãos. Nós cinco estudávamos.
Do dia para a noite, tudo isso ficou para trás. Meu país foi invadido apenas dez dias depois de ter conquistado sua independência.
Foi muito difícil, principalmente para nós, mulheres. Fui torturada e estuprada várias vezes.
Como vocês se organizaram?
Fátima - Logo que ocorreu a invasão, um grupo de amigos, com medo dos soldados, fugiu para as montanhas. Ali, orientados pelas pessoas mais experientes, formamos três grupos: a Organização da Mulher, da qual eu fazia parte, a dos Trabalhadores e a dos Jovens.
Esta era a base responsável pela resistência à invasão.
E como foi esta resistência ?
Fátima - Durante quatro anos integrei este grupo. Foi neste período que vi o meu noivo ser assassinado pelos soldados indonésios. Nosso grupo foi cercado e teve que se render. Fomos presos. Passávamos por vários interrogatórios diários, torturas físicas e psicológicas.
As mulheres eram estupradas várias vezes. Éramos obrigados a servir de guia ao Exército indonésio - o meu caso foi pior, pois fui guia do mesmo batalhão que matou o meu noivo. Os soldados chegavam às cidades, saqueavam e queimavam as casas, matando toda a população.
Como você conseguiu sair de Timor Leste ?
Fátima - A determinada altura, depois de ser muito maltratada, os indonésios começaram a duvidar que eu trabalhasse de fato na resistência e acabaram me libertando. É claro que era uma liberdade vigiada. Arranjei um emprego e esperei que o tempo passasse. Meu pai era funcionário do governo português, por isso, depois de um tempo, consegui sair de Timor.
É verdade que você teve de reaprender o português ?
Fátima - Sim, porque os indonésios nos proibiam de falar o idioma. Desde que fui morar em Portugal, retomei os estudos na universidade e, como já estava esquecendo o português, decidi o aprendizado da língua, além de estudar história e literatura. Quero ainda voltar ao meu país e com os meus conhecimentos ser capaz de ensinar novamente o português aos meus compatriotas.
E como é a sua vida hoje ?
Fátima - Vivo na cidade do Porto. Estou casada com um cidadão português; nós moramos com os meus pais. Divido meu tempo entre os estudos e atividades de apoio ao grupo Solidariedade pelo Timor, baseado em Portugal. É claro que ainda tenho más lembranças.
Os seus amigos, em Portugal, conhecem a história de seu país ?
Fátima - Um dos grandes problemas é a total ignorância das pessoas em relação ao problema de Timor: a maioria das pessoas nem sabe que o nosso povo que é muito parecido com o brasileiro, pois gosta de música e de futebol foi massacrado todos estes anos. Mais de 250 mil pessoas foram assassinadas pelos indonésios nestes 22 anos.
Por quê você tatuou as iniciais de seu noivo ?
Fátima - Tatuei meu corpo porque a minha memória está “tatuada”. É uma homenagem ao Arthur Maria do Nascimento, um grande homem que foi um dos líderes na tentativa de libertação de seu povo do exército indonésio.
Boletim Mundo Ano 4 n° 5
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