Newton Carlos
O IRA da Irlanda do Norte e a ETA da Espanha, independentistas violentos que imprimem suas marcas de sangue na civilizada Europa ocidental, talvez se identifiquem num nacionalismo radical.
Ultimamente têm sido muitas as tentativas de compará-los, com base em atos recentes de puro terrorismo, sobretudo os assassinatos de policiais irlandeses e de um político espanhol inexpressivo, e a partir do fato, como escreveu o Guardian, de Londres, de que “ambos surgiram quando a negativa a direitos de minorias forneciam leves justificativas ao recurso à violência”. As comparações emperram, no entanto, quando feitas no contexto de hoje.
Mesmo as histórias de um e outro comportam diferenças enormes. O Exército Republicano Irlandês, o IRA (a sua sigla em inglês), é dono de uma inserção revolucionária no passado da Irlanda, com profundidade e intensidade que lhe dão um cacife que a Pátria Basca e Liberdade, a ETA, dificilmente conseguiria montar. O IRA tem sua origem numa sociedade revolucionária secreta, os “fenianos”, que imigrantes irlandeses criaram nos Estados Unidos em 1858. Eram liderados por Finn MacCumbaill e se instalaram na Irlanda sob domínio da Grã-Bretanha como Irish Republican Brotherhood, ou IRB, irmandade e não Exército. Tratava-se, portanto, de construir um aparato de libertação nacional que iria enfrentar o Exército britânico. E naquela época o IRB não lutava por uma “minoria”, mas pela maioria católica numa Irlanda ainda não dividida.
Em 1919, Michael Collins, cuja vida de herói nacional irlandês esteve há pouco em nossas telas de cinemas, adotou a sigla IRA, partiu para a fase final da luta contra Londres, aceitou negociar e, em 1921, a Irlanda, à exceção dos seis condados do Ulster, tornou-se Estado-livre, um estatuto provisório de semi –soberania A independência, inevitável, todos sabiam disso, viria depois, mas com mácula brutal, o assassinato de Collins, punido com a morte pela sua “moderação”, e capenga, já que os seis condados continuaram de fora. A Irlanda do Norte ainda hoje integra o Reino Unido . Na passagem dos anos 60 para os 70 o IRA voltou à atividade, com o objetivo de completar a independência, reunificando a Irlanda e tornando-a republicana.
Há um sério complicador: os protestantes, descendentes dos colonizadores ingleses e escoceses, são maioria no Ulster e são unionistas, ou seja, fiéis à Coroa. Mais de três mil já morreram, desde o início das hostilidades. Fala-se em guerra entre protestantes e católicos descendentes de nativos irlandeses. A equação não é bem essa. Ódios antigos e ferozes se confundem com religiões e opressões. No século XVI, ingleses e escoceses ocuparam a Irlanda com a bandeira da Reforma. A meta maior não era impor o protestantismo a católicos cristianizados por São Patrício. Com a ajuda das armas imperiais, os invasores se apossaram das melhores terras. O povo irlandês, subjugado militarmente, fugiu para as regiões áridas de seu próprio país, ficou condenado à fome (houve até uma Grande Fome, motivo de extemporâneas desculpas do primeiro-ministro Tony Blair) e à pobreza.
Até 1829, os irlandeses não puderam educar-se em escolas irlandesas. Entre 1846 e 1851, mais de um milhão tiveram de emigrar. A quase totalidade refugiou-se nos Estados Unidos, para onde levaram anseios revolucionárias e de onde continuam saindo recursos para o IRA. Ainda hoje, na Irlanda do Norte, há um Terceiro Mundo católico e um Primeiro Mundo protestante.
Embora o nacionalismo basco se orgulhe de origens míticas que remontam ao tempo do Império Romano, a Euzkadi Ta Azkatasuna, a ETA, em idioma basco, é de 1959, ainda não completou 40 anos e teve um caldo de cultura já esgotado: a ditadura franquista “unificadora”, que reprimia as manifestações nacionalistas e culturais dos bascos. O Partido Nacionalista Basco, do qual saiu a ETA, embora continue, em teoria, pregando a existência de um Estado independente, achou por bem aliar-se à coligação de governo espanhol do primeiro-ministro conservador José Maria Aznar. Parlamentares eleitos pelo Sinn Fein, partido da Irlanda do Norte ligado ao IRA, se recusaram a jurar fidelidade à Coroa Britânica.
Se é que um dia existiu, deixou de existir espaço na Espanha para o modelo insurrecionista da ETA, com a pretensão de provocar a rebelião popular por meio de escalada de violência. A organização separatista está hoje sob o controle de uma geração linha-dura, cuja ideologia se descasa da maioria de seus partidários. Perda mensurável é a votação conseguida pelo Herri Batasuna, ou HB, o braço político da ETA, nas eleições de 1996: apenas 12% dos votos do País Basco. O Partido Nacionalista Basco, que condena a violência, ficou com 40%. Os 220 mil votos do HB em 1987 caíram a 154 mil. Solidário com a violência “enlouquecida” da ETA, o HB “se fecha num férreo monolitismo doutrinário”, como disse um analista espanhol, e não são poucos os que afirmam que o independentismo basco se suicida politicamente.
Já o Sinn Fein, expressão política do IRA, conseguiu a votação recorde de 16% nas últimas eleições, tornou-se o terceiro maior partido da Irlanda do Norte, e seu líder, Gerry Adams, membro do parlamento britânico, se mostra um hábil administrador “visível” das cessações de fogo decretadas pelo IRA. Adams aparentemente conseguiu convencer o IRA de que é preciso abrir o campo de luta e não fechar, como acontece com a ETA. A única saída, insiste Adams, é ampliar a frente nacionalista, incorporando, por exemplo, o “nacionalismo constitucional” do Partido Social-Democrata, forte em votos, e atraindo os apoios da Irlanda do Sul e dos Estados Unidos. O líder do Sinn Fein foi recebido na Casa Branca pelo presidente Bill Clinton, coisa inimaginável para o HB basco.
Desde a estratégia da “guerra prolongada”, lançada no início dos anos 70, o objetivo de última instância, perseguido na legalidade por Adams, é chegar à mesa de negociações nos termos propostos pelo IRA. Algo tem acontecido ultimamente, apesar dos atos de terrorismo. O novo governo trabalhista britânico diz que o Sinn Fein poderá participar das negociações, seis meses depois de iniciado o atual cessar-fogo do IRA. As negociações, se acontecerem para valer, devem terminar em maio do ano que vem. O governo anterior se recusava a estabelecer prazos.
Boletim Mundo Ano 4 n° 5
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