Jayme Brener
O mundo prepara uma nova Arca de Noé. Não que se espere outro dilúvio. Mas diz a Bíblia que Noé separou os casais de bichos que iriam sobreviver à tormenta. Brontossauros, estegossauros e seus parentes foram reprovados. Pois o mundo também está separando quem vai permanecer por aqui após a virada do século. Computadores e Internet?
Aprovados. Sociedades divididas entre ricos e pobres? Continuam vivinhas. Fábricas de brinquedos no Brasil? Rejeitadas pelo Noé da modernidade, que vai substituí-las pelos importados chineses. E há uns bichos que ainda estão na lista de espera. Os sindicatos de trabalhadores, por exemplo. Decisivos nas lutas contra os patrões, que garantiram condições decentes de vida no Primeiro Mundo, enfrentam grave crise.
Para começar, os principais sindicatos organizavam operários, na perspectiva de reduzir as diferenças entre ricos e pobres e conquistar uma sociedade mais justa. Os operários representam hoje 10% da força de trabalho no Primeiro Mundo, e essa porcentagem está em queda livre . O avanço tecnológico e expedientes como a terceirização e o crescimento da economia informal reduzem as possibilidades de organização social. Sociedade mais justa? Após o fim do “socialismo real”, poucos ainda sonham com o futuro rosado para todos.
No Japão, o índice de sindicalização caiu de 55%, em 1949, para 30%. Os EUA contam com apenas 18% de sindicalizados; e a Holanda, com 25%. O maior inimigo dos sindicatos, porém, é o desemprego e o conseqüente medo de perder a vaga em greve ou manifestação. São quatro milhões de sem-trabalho na Alemanha, 10% do total, e 20% na Espanha. O Brasil do Plano Real, em seu afã de enfiar-se no Primeiro Mundo, copiou pelo menos esse índice: há 17% de desempregados na Grande São Paulo. Calcula-se que uns 50% dos trabalhadores latino-americanos estejam no mercado informal (muitas vezes, sinônimo de vender chiclete nos faróis de trânsito...).
Uma pesquisa realizada em maio pelo Datafolha revelou que os sindicatos estão em sexto lugar na lista das instituições mais respeitadas pelos brasileiros. Atrás da imprensa, da Igreja Católica, dos empresários, das Forças Armadas e, vejam vocês, até dos bancos.
A última greve geral por melhores condições de vida, em junho, teve adesão modesta.
Para aumentar seu poder de fogo, as centrais brasileiras tiveram que apelar para a malandragem, convocando a greve numa sexta feira (sabe como é, o povo gosta de um feriadão...), além de apostar na paralisação dos transportes, que deixa as pessoas em casa. Nem isso adiantou muito.
Quer dizer então que a modernidade condena os sindicatos a ficarem de fora da Arca do ano 2000? Calma lá. Muitos dirigentes buscam adaptar-se aos novos tempos. A DGB, a fortíssima central sindical alemã, após complicada negociação com o governo e os patrões, entrou de cabeça em um plano para reduzir à metade o desemprego no país, até o ano 2000. Líderes sindicais do Primeiro Mundo foram forçados a lutar por melhores condições de vida na Indonésia ou China (onde há salários de 40 dólares mensais).
Porque é rumo a esses países - atraentes para os empresários graças ao salário baixo, entre outras coisas - que vão muitas fábricas depois de fecharem suas portas na Grã-Bretanha ou França. Quanto melhor viver um trabalhador brasileiro, paquistanês ou salvadorenho, menor a possibilidade de um belga ver sua fábrica mudar-se para o Terceiro (ou Quarto) Mundo.
Nos Estados Unidos, uma rebelião das bases varreu, no ano passado, o velho comando da central AFL-CIO, tradicionalmente ligado ao Partido Democrata, do atual presidente Bill Clinton. A plataforma da oposição era justamente desligar os sindicatos do governo, um casamento que parecia não lhes garantir grandes vantagens. Centrais latino-americanas como a CUT paraguaia ou o PIT-CNT do Uruguai esquecem um pouco as velhas reivindicações sobre salário e passam a discutir previdência social, trabalho infantil, privatizações de estatais. Sua idéia é afirmar-se como atores das mudanças, tripulantes da Arca de Noé 2000. Certos dirigentes da CUT brasileira já não têm medo de criticar privilégios indefensáveis, como a estabilidade eterna para o funcionário público ou a aposentadoria antecipada para jornalistas.
A mesma CUT, sempre muito ligada ao PT, vira as costas às críticas que o partido sempre fez ao Mercosul. Para o comando cutista, a integração é inevitável. Trata-se, portanto, de discutir como fazê-la, sem deixar todas as decisões para os governos. Chega-se a comprar brigas com certos sindicatos de setores ameaçados pela integração. Os trabalhadores em laticínios do Sul do Brasil, por exemplo, são furiosamente contrários ao Mercosul, porque as importações de queijos e leite da Argentina e Uruguai lhes comeram milhares de empregos. Os trabalhadores argentinos em bebidas torcem o nariz diante da crescente importação da cerveja brasileira.
Além de eventuais mudanças na linha de ação, há outro elemento que pode determinar a sobrevivência dos sindicatos. Os motivos que levaram à sua criação – salários baixos ou o não-cumprimento de leis trabalhistas - continuam firmes em muitos cantos.
A reação sindical a políticas neoliberais, como os cortes de gastos do Estado com educação ou saúde, também pode nutrir-se da ira de muita gente, que talvez jamais passasse pela porta de uma central. No fim do ano passado, os sindicatos franceses encabeçaram uma grande greve contra o emagrecimento da previdência social pública. Multidões de estudantes e profissionais liberais saíram às ruas para apoiá-los. E olhe que certas fatias do movimento sindical de lá - como a CGT, próxima ao Partido Comunista - nem querem ouvir falar em se modernizar. A CGT sempre foi contrária à Unidade Européia, o que hoje equivale, digamos, a se opor à lei da gravidade. Na Alemanha, a central DGB está furiosa com o governo e os patrões. Acusa-os de defender o aumento da jornada de trabalho (de 37 para 40 horas de trabalho), o que vai contra o acordo pela redução do desemprego.
E ameaça convocar protestos.
A combinação entre políticas neoliberais (que atacam os direitos sociais) e a modernização de muitas centrais, será suficiente para garantir a sobrevivência dos sindicatos no próximo século? No Brasil, os sindicalistas serão capazes de desvencilhar-se de certos privilégios absurdos - como o imposto sindical, cobrado dos trabalhadores pela maior parte das entidades? Como organizar os milhões de trabalhadores informais ou terceirizados?
Pode ter certeza de que há muita gente quebrando a cabeça para responder essas questões.
Mas o recente renascimento sindical na França e em outros países deixa claro pelo menos uma coisa. Errou quem garantia que a modernidade e a globalização haviam condenado os sindicatos à morte. Porque só quem morre na véspera (de Natal) é peru .
Boletim Mundo Ano 4 n° 4
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