Mas teoria econômica diz que ondas de inovação criam novas ocupações, incorporando outros setores econômicos e regiões geográficas
No início do século XIX, na Inglaterra, o Movimento Ludita consistiu na primeira reação popular à introdução das máquinas na produção fabril. Destruindo máquinas, os luditas queriam salvar os seus empregos e modo de vida. Desde aquela época longínqua, cada onda de inovação tecnológica deflagra reações de temor ou pânico, baseadas em profecias catastróficas sobre o fim dos empregos. A revolução tecnológica em andamento atualiza essa preocupação.
Por muito tempo, as curvas de desemprego acompanharam os ciclos econômicos.
As fases de estagnação e recessão engrossavam as estatísticas do desemprego, mas as fases de recuperação e crescimento recriavam os postos de trabalho destruídos.
Há vinte anos, esse compasso se rompeu.
De lá para cá, as taxas de desemprego crescem paulatinamente, e o máximo que as fases de crescimento econômico conseguem fazer é reduzir a marcha inexorável da destruição de postos de trabalho. Essa tendência assustadora evidencia-se claramente na Europa, mas atinge também os Estados Unidos, o Canadá, o Japão e a América Latina.
No passado, as ondas de inovação tecnológica destruíram milhões de empregos, mas o seu resultado final foi a criação de milhões de outros empregos em novos setores e ramos da economia. Foi esse processo que transferiu a força de trabalho da agricultura para a economia urbana e industrial, num movimento que durou mais de cem anos, de meados do século XIX até meados do nosso século. Em nosso século, um exemplo desse processo foi o grande ‘‘boom’’ da indústria americana que se seguiu ao término das duas guerras mundiais (1914-18 e 1939-45). Nos dois casos, a indústria incorporou tecnologia bélica à produção de bens de consumo, para fabricar aparelhos e modas que revolucionaram o estilo de vida (da caneta com ponta de tungstênio à comida pronta para o consumo, passando pela televisão).
A onda atual de inovação, apoiada nas tecnologias da informação e na microeletrônica, atinge essencialmente os empregos industriais. Ela impulsiona a produtividade na indústria, que cresce em ritmo muito superior ao do conjunto da economia não agrícola . Conseqüentemente, o Setor Secundário elimina postos de trabalho, alimentando a fogueira do desemprego.
Nos países ricos, onde a inovação tecnológica é mais intensa, o crescimento da produtividade média da indústria funciona como meio de seleção dos investimentos rentáveis. Os ramos e tipos de indústrias incapazes de operar nesses níveis de produtividade fecham as portas, ou se transferem para países que oferecem força de trabalho mais barata. Empresas de tecidos e confecções, calçados, brinquedos e tantas outras encontram na Ásia meridional as condições de mercado de trabalho capazes de compensar níveis de produtividade mais baixos. A revolução tecnológica combina-se com a globalização econômica e reorganiza a paisagem industrial do planeta.
Nas últimas duas décadas, o extermínio de empregos industriais nos países ricos foi parcialmente compensado pela criação de empregos no setor de serviços.
Nos países do G-7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Itália e Canadá), entre 1974 e 1994, registraram-se treze anos de redução dos empregos no Setor Secundário; no mesmo período, os serviços ampliaram continuamente os seus postos de trabalho. Atualmente, o Setor Terciário ocupa 73,1% da população ativa nos Estados Unidos, 71,9% na Grã-Bretanha e 68,3% na França. Os serviços de estatísticas dos Estados Unidos prevêem o prosseguimento dessa tendência, projetando a eliminação acelerada de dezenas de milhares de postos de trabalho nas indústrias elétricas e eletrônicas, nas linhas de montagem, no ramo têxtil, enquanto se expandem as oportunidades para os trabalhadores da saúde, programadores e analistas de computadores, agentes de turismo, babás, cozinheiros, advogados e professores.
A terceirização das estruturas de emprego repercute sobre toda a organização da sociedade e ameaça as relações de trabalho tradicionais, baseadas nos confrontos e negociações entre os sindicatos operários e a classe patronal.
Mas a coisa não pára aí. Alguns sinais indicam que o próximo salto na produtividade irá atingir o Setor Terciário, como já ocorre nos Estados Unidos. A tecnologia da informação começa a invadir os serviços, automatizando processos bancários, escritórios, controle de tráfego aéreo, telecomunicações e comércio varejista e tornando supérfluas antigas profissões.
Os pessimistas apontam para um horizonte de caos.
A teoria econômica aponta em outra direção. A demanda por produtos e serviços não é constante. Aumentos de produtividade tendem a reduzir os preços das mercadorias, ampliando a capacidade de consumo. Quando o mercado ficou saturado de televisores em preto e branco, nos anos 60, a introdução da TV em cores e depois dos aparelhos de vídeo-cassete ativou o consumo. Computadores pessoais, multimídia, fornos de microondas e muitos outros produtos não existiam há vinte anos. O crescimento do consumo abre novos campos de emprego, que antes também não existiam. Os empregos suprimidos são, com o tempo, substituídos.
Esse movimento se repetiu a cada onda de inovação tecnológica. Mas, se isso representa um consolo teórico, não resolve os problemas imediatos. Os novos empregos surgem em setores, ramos e lugares geográficos diferentes dos empregos suprimidos.
Regiões e cidades inteiras arruínam-se econômica e socialmente. A revolução tecnológica destrói velhos empregos mais rapidamente do que cria novos. Nesse intervalo, milhões de trabalhadores perdem seus meios de vida. Os Luditas podem ser chamados de ingênuos, do ponto de vista da história e da sociologia. Mas eles quebravam máquinas que realmente estavam eliminando os seus empregos.
Boletim Mundo Ano 4 n° 4
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