sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Yeltsin tropeça entre crises e sonhos imperiais

O que é a Rússia ? Um conglomerado sem sentido de territórios e regiões  ? O que é a nação russa ? Uma entidade “étnica”, “espiritual”, uma quimera imperial ? Como definir os “territórios da nação russa” ? Há mais de um século, a Rússia é assombrada pelos fantasmas da sua história. A questão das origens do primeiro Estado russo, as conseqüências das invasões mongóis, a herança ocidentalizante de Pedro, o Grande, a reflexão sobre o destino imperial da Rússia continuam a dividir uma sociedade que não conseguiu ainda encontrar os seus “lugares de memória”, seus mitos unificadores, a fim de poder, finalmente, balizar os territórios da nação, construir uma identidade nacional.
(Charles Urjewicz, Dictionnaire de Géopolitique, Flammarion, Paris, 1993, pág. 1316-1317)
O Ocidente acompanhou, aliviado, a vitória de Boris Yeltsin no segundo turno das eleições russas, realizado em 3 de julho. Os 53,7% de sufrágios que o transformaram no primeiro presidente eleito democraticamente na Rússia pós-soviética representaram pouco mais que a soma dos seus votos no primeiro turno com os do terceiro colocado, o general Alexander Lebed. No intervalo entre os dois turnos, Lebed aceitou o convite de Yeltsin para ocupar o cargo de chefe do Conselho de Segurança do Estado. O rápido e astuto movimento do presidente atraiu parte do eleitorado que, seduzido pela retórica nacionalista, inclinava-se a votar no candidato do Partido Comunista, Gennady Zyuganov.
O suspiro de alívio de Bill Clinton e dos líderes europeus constitui uma compreensível reação reflexa, incapaz de encobrir a preocupação com o futuro da Rússia. Há, de um lado, a frágil condição de saúde de Yeltsin, que pode não sobreviver sequer aos primeiros meses do novo mandato. De outro lado, há o significado da votação conseguida por Zyuganov, Lebed e Jirinovski, que, juntos, reuniram mais de metade do eleitorado no primeiro turno. O nacionalismo grão-russo, que tem 500 anos de história , ressurge como antídoto contra a crise econômica, as incertezas políticas e as humilhações diplomáticas que assombram a Rússia.
Há sete anos, a União Soviética perdeu o bloco de países-satélites da Europa do leste, que materializaram pelas quatro décadas da Guerra Fria a sua condição de superpotência mundial. Hoje, esses países completam a sua transição para a economia de mercado, candidatam-se a ingressar na União Européia e solicitam a integração na Organização do Tratado do Atlântico Norte (v. pág. 9). Há cinco anos, a Rússia perdeu a União Soviética, que implodiu em quinze repúblicas formalmente independentes. Enquanto os Estados bálticos orientam-se na direção da União Européia, grande parte dos onze vizinhos da CEI enfrentam instabilidades étnicas que envolvem russos étnicos .
A principal bandeira de campanha de Alexander Lebed foi a defesa das comunidades de russos étnicos nas repúblicas não-russas da CEI. Essa periferia, que apresenta graus variados de dependência econômica e geopolítica da Rússia, é alvo das ambições imperiais do nacionalismo grão-russo. Zyuganov propunha a “refundação” da União Soviética. Yeltsin patrocinou um tratado de aprofundamento dos laços políticos e econômicos com a Belarus.
O sonho da Grande Rússia não está morto.
Mas o Estado russo enfrenta um desafio mais vital, dentro das suas próprias fronteiras.
Organizado sob a forma de uma federação, que abriga 21 repúblicas étnicas além da própria Rússia, ele sofre as pressões centrífugas liberadas pelo desmoronamento do poder comunista. A guerra na Chechênia - formalmente “encerrada” por Yeltsin, num grosseiro golpe eleitoral - continua a crepitar. A ausência de instituições democráticas enraizadas e de um pacto federativo legítimo atiça a brasa dos separatismos regionais e étnicos, ameaçando a unidade do Estado russo.
O foco principal da instabilidade étnica localiza-se nas repúblicas do Cáucaso. Como ocorre na Chechênia, a maioria delas abriga populações majoritariamente não-russas e exibe renda per capita inferior à metade do conjunto da Federação Russa. A continuidade da guerra chechena pode provocar novas tentativas separatistas na região. Mas o futuro do Estado russo jamais estará em jogo nas pequenas, pobres e periféricas repúblicas caucasianas. Lebed manifestou-se sempre contrário à solução militar na Chechênia, e mesmo um outro nacionalista ferrenho, Alexander Soljenitsin, diz que o melhor seria permitir a independência da porção sul da república rebelada.
O verdadeiro pesadelo localiza-se nas repúblicas do Volga, que por enquanto permanecem mais ou menos silenciosas, porém reúnem as condições para incêndios muito mais graves. Na maioria delas, os russos são também minorias, ainda que mais expressivas. Como no Cáucaso, a pobreza constitui o material volátil que pode precipitar explosões. Essas repúblicas - onde se situam vastos campos de petróleo e por onde passam os oleodutos e as estradas de ferro que conectam a Sibéria à Rússia européia - abrigam 18 milhões de muçulmanos.
Dirigentes do Tatarstão e do Bashkortostão já reivindicam mais autonomia financeira e legislativa, estimulados pela instabilidade caucasiana. Yeltsin manobra como pode, consciente de que o grupo de repúblicas do Volga representa a espinha dorsal da ossatura da Federação.
A instabilidade interna funciona como combustível para o nacionalismo e contribui para reforçar os falcões que prometem reconstituir a grandeza perdida da Rússia. Yeltsin cercou-se de uma parte desses nacionalistas para derrotar Zyuganov. O  Ocidente já começa a meditar sobre as conseqüências.
Boletim Mundo Ano 4 n° 4

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