domingo, 6 de fevereiro de 2011

Venezuela promove matança de golfinhos

Perseguido pelo governo de seu país, o venezuelano Ignacio Agudo relata aqui a sua luta em defesa dos animais; reconhecido como refugiado ecológico pela ONU, Agudo pede asilo político ao Brasil
Diário pessoal, 5 de fevereiro de 1993, 4 da tarde, costa leste da Venezuela, Caribe Sul.
Encontro-me a 20 quilômetros da costa, a bordo de um barco pesqueiro que desloca velozmente sobre as ondas os seus 10 metros de comprimento, movido por um motor de popa de 60 cavalos. O sol caribenho me alveja como espada de fogo, enquanto meu rosto e braços são roçados pela água salgada. A tripulação, curtida pelo tempo, se prepara para agir.
Equipamento de filmagem e fotografia pronto, Aldemaro e eu, como correspondentes de guerra, documentaremos um acontecimento atroz. Em velocidade, o barco penetra em meio a um torvelinho de vida que comove a superfície do mar. Pássaros revolteiam, em vôos rasantes, peixes saltam e, por toda a parte, golfinhos assomam, pulam, nadam pela popa e proa, a estibordo e bombordo.
A tripulação toma posições, o capitão na popa comanda as manobras, o arpoeiro e seu ajudante na proa preparam os instrumentos. Inconscientemente, afasto qualquer sentimento e concentro-me apenas em filmar. O arpoeiro equilibra-se de pé, ergue o arpão sobre a cabeça e, num esforço decidido, arremessa-o usando o corpo todo.
O cabo preso à arma se retesa e arrasta para fora do barco.
Um golfinho do grupo foi atingido e tenta desesperadamente escapar. O barco reduz a velocidade e espera...
O cabo começa a ser içado, lenta mas implacavelmente.
O mamífero luta contra a tração, mas o sangramento aos poucos o debilita. Enquanto os marinheiros começam a puxar o golfinho para o convés, um movimento impressionante se inicia nas águas: os companheiros de manada cercam o barco, saltam em desespero, gemem e se lançam sobre o casco. Outro golfinho, atingido antes pelo arpão, apesar da ferida sangrenta se une ao frenesi da manada. O ar se enche de uma rara sensação de energia, um invisível clamor, uma voz que o vento não transmite mas  que, de algum modo, se move em torno de nós. O barco toma o rumo da costa com o golfinho a bordo, vivo e sangrando, e continua a ser seguido pela manada solidária que só desiste, finalmente, nas proximidades da praia, onde seu companheiro será esquartejado.
Diário pessoal, 12 de abril de 1994, 8 da noite, em algum lugar de Caracas.
Hoje, ao meio-dia, começou a perseguição de nossos inimigos, que pretendem encarcerar-me por nossa denúncia internacional da utilização da carne de golfinhos marinhos na Venezuela como isca para a caça de tubarões.
Meu trabalho como pesquisador se iniciou em 1988.
Na condição de funcionário do Ministério do Ambiente da Venezuela, concentrei-me no impacto das atividades pesqueiras sobre os golfinhos da costa caribenha. No curso desse trabalho, descobri que os golfinhos da península de Paria, no Estado de Sucre, estavam  e ainda  estão  sendo capturados  em larga escala e utilizados como iscas de tubarão. Em julho de 1989, após infrutíferas tentativas de ser ouvido pelo Ministério do Ambiente, abri mão de meu cargo público e passei a trabalhar como docente e pesquisador de Organizações Não-Governamentais (ONGs).
Em março de 1990, ao lado de minha esposa  Saida Josefina Blondell de Agudo, criei a Fundacetacea. Conduzi campanhas públicas contra a matança de golfinhos e apresentei denúncias formais à Procuradoria Geral da República.
Paralelamente, apresentei propostas de legislação específica para a proteção de cetáceos, lutei pela criação de um santuário marinho e por um programa nacional de educação ambiental, no qual se incluía a capacitação de pescadores para o desenvolvimento do ecoturismo com cetáceos. As denúncias e propostas foram sempre ignoradas. Em 1993, ao lado do colega Aldemaro Romero, documentei em vídeo, fotos e por material biológico aquilo que denunciava desde 1989. As imagens do vídeo foram transmitidas pela CNN e BBC, gerando uma onda de protestos contra a negligência do governo venezuelano.
Uma das conseqüências, com a qual eu não contava, foi o bloqueio das negociações sobre a importação de atum venezuelano para os Estados Unidos, país que exige normas rígidas de proteção dos golfinhos.
Longe de obter soluções, provoquei a fúria do governo da Venezuela, que deflagrou operações destinadas a confundir a opinião pública, denegrindo-nos profissionalmente e nos acusando de forjar provas. Em fevereiro de 1994, um Tribunal Penal do Estado de Sucre decide nos processar como criminosos ecológicos, sob a acusação de incitarmos os pescadores à matança de golfinhos, e traidores da pátria, pela divulgação internacional do vídeo. Romero, com a esposa e filhas, deixa o país e recebe asilo político nos Estados Unidos. Hoje, há poucas horas, o Tribunal de Sucre requereu a nossa busca e captura.
Sem alternativa, acabo de passar à clandestinidade interna.
Diário pessoal, 11 de outubro de 1996, Florianópolis, Brasil.
Hoje, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) emitiu o certificado que me reconhece, junto com minhas duas filhas pequenas e a babá que nos acompanha, como refugiados políticos. Nos quase dois anos em que fugi da perseguição policial, escondendo-me em povoados da Venezuela, perdi meu pai e minha esposa.
Meu pai suicidou-se a 14 de junho de 1994, aos 85 anos, por não mais suportar as invasões de residência e as pressões dos meus perseguidores. Minha jovem esposa faleceu a 12 de abril de 1995, um ano depois do início da perseguição e três meses depois do nascimento de nossa filha menor, por disfunções cardíacas agravadas pela ausência dos necessários cuidados médicos.
Fui resgatado da Venezuela para Aruba, por navio e disfarçado de turista, em uma operação montada pela publicação .
Animal People e grupos ambientalistas dos Estados Unidos, em fevereiro de 1996. Cheguei ao Brasil no dia 14 de março de 1996. Dois meses depois, o Acnur concordou em conceder-me o estatuto, inédito em todo o mundo, de refugiado político por causas ecológicas. Desde essa época, residindo em Florianópolis com a minha atual família, sob precárias condições econômicas, tento obter do governo brasileiro o estatuto de asilado político.
O Brasil precisa de Ignacio Agudo
Demétrio Magnoli
Ignacio Agudo precisa do Brasil. Para poder trabalhar e criar suas filhas, órfãs de mãe, o ambientalista venezuelano precisa ter reconhecido o estatuto de asilado político. O pedido, sob auspícios do Acnur, corre há um ano no Ministério da Justiça, mas não há pressa no governo brasileiro, que parece temer atritos diplomáticos com o governo de Caracas.
O Brasil precisa de Ignacio Agudo. Porque a sua experiência no estudo e na luta conservacionista estão disponíveis para ajudar a sociedade brasileira a proteger os ecossistemas litorâneos. E, sobretudo, porque a concessão de asilo político ao ambientalista representa oportunidade inigualável para erguer mais uma parede do edifício da democracia brasileira.
Precisamos mais de Ignacio Agudo que ele do Brasil. No passado, o presidente da República teve que se exilar na França, onde encontrou abrigo contra a violência da ditadura militar. Será que ele esqueceu que a proteção dos perseguidos pela tirania é a prova dos nove da democracia?
Boletim Mundo Ano 5 n° 1

Nenhum comentário:

Postar um comentário