Guerra entre clãs curdos desmonta arranjo da Guerra do Golfo, recoloca Sadam no jogo de poder e ameaça incendiar a região
Em setembro, as brasas ainda quentes da Guerra do Golfo de 1991 voltaram a crepitar. Forças blindadas do ditador iraquiano Sadam Hussein penetraram na zona de exclusão aérea do norte do país, desencadeando retaliações aéreas dos Estados Unidos. O pavio da nova confrontação foi aceso pelas disputas clânicas entre os curdos. Os curdos são refugiados especiais, em dois sentidos. São refugiados na sua própria terra, e constituem a mais numerosa minoria nacional do mundo. Há cerca de 25 milhões de curdos, quase todos repartidos pela Turquia (12 milhões), o Irã (5,5 milhões), o Iraque (4 milhões) e a Síria (1 milhão).
O Curdistão não é um Estado, mas uma região histórica recortada pelas fronteiras políticas desses Estados do Oriente Médio. Os primeiros registros da presença dos curdos na região datam do início do primeiro milênio antes da Era Cristã, na época dos Medas e dos Assírios. A singularidade cultural curda sobreviveu aos milênios graças à segurança proporcionada pela natureza e aos caprichos da geopolítica dos impérios. Praticando o pastoreio transumante nas montanhas da Alta Mesopotâmia, do Anti-Taurus e do Zagros, as tribos curdas puderam se defender dos povos das planícies e dos planaltos. Situadas em uma zona-tampão entre os impérios turco e persa, souberam conservar uma vasta autonomia política real adaptando-se à flutuação das rivalidades vizinhas.
“Turcos das montanhas” - é assim que os turcos denominam os curdos, negando-lhes uma identidade e, com isso, legitimando a repressão militar contra as atividades separatistas em território da Turquia. Os curdos são, majoritariamente, muçulmanos sunitas, mas há uma numerosa minoria de muçulmanos xiitas e existem até mesmo curdos judeus. Não há uma única língua curda, mas diferentes dialetos derivados de um tronco comum indo-europeu. Não é a religião ou a língua que confere identidade a esse povo sem Estado, mas a sua história comum e a organização social clânica que o caracteriza.
No passado, os curdos defenderam a sua autonomia manipulando as rivalidades inter imperiais.
Mas a consolidação dos Estados do Oriente Médio inverteu as coisas, transformando-os em joguetes dos poderes políticos regionais. Na Guerra Irã-Iraque (1980-88), os aiatolás de Teerã incentivavam o separatismo dos curdos do Iraque, enquanto o ditador de Badgá manipulava os curdos do Irã. Durante a guerra, Sadam Hussein arrasou povoados curdos no norte do Iraque, utilizando armas químicas contra populações civis. Desde o final da década de 80, a Síria financia o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), facção separatista dos curdos da Turquia.
Vitoriosos na Guerra do Golfo, os americanos desistiram de eliminar o regime de Sadam Hussein, por falta de alternativas. Washington temia que um vácuo de poder realçasse a posição de potência regional do Irã e conduzisse à fragmentação do Iraque pela separação da região curda do norte, com repercussões desastrosas sobre a integridade territorial da Turquia. O ex-presidente George Bush escolheu a estratégia da “dupla dissuasão”, pela qual Iraque e Irã se anulariam mutuamente.
Ao mesmo tempo, estabeleceu zonas de exclusão aérea, no norte e no sul do Iraque, patrulhadas por aviões americanos, britânicos e franceses, a fim de restringir o espaço de manobras militares de Sadam Hussein. A zona de exclusão aérea do norte, que se estende até o paralelo 36, funcionaria como santuário para os curdos iraquianos.
A frágil arquitetura americana começou a ruir no santuário curdo. Divididos entre duas lideranças – uma representada pelo Partido Democrático Curdo (KDP) e outra pela União Patriótica do Curdistão (PUK) - os curdos do Iraque deflagraram uma guerra clânica. Retomando o padrão da década passada, cada um dos lados associou-se a um dos poderosos vizinhos: a PUK restabeleceu os laços com o Irã, o KDP jogou-se nos braços de Sadam. Foi esse o pretexto encontrado pelo ditador iraquiano para mover as suas forças pelo interior do santuário curdo, definindo o conflito a favor do KDP e obrigando a PUK a se refugiar no Irã.
A ofensiva de Sadam desmontou o arranjo do final da Guerra do Golfo. E os perigos continuam a se multiplicar. A Turquia, que há um ano enviou grandes contingentes blindados para atacar as bases guerrilheiras do PKK instaladas do outro lado da fronteira, no santuário curdo do norte do Iraque, prepara-se para estabelecer uma zona-tampão entre o seu território e o do Iraque.
Washington já deu o aval para a iniciativa do aliado, que consistirá na ocupação do extremo norte iraquiano, destinada a varrer de lá os guerrilheiros do PKK. A supressão do colchão curdo protegido do Iraque setentrional aproxima as forças de Sadam das forças turcas e iranianas. A “nação de refugiados” pode se tornar o vetor de um novo conflito regional em grande escala.
Boletim Mundo Ano 4 n° 6
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