Nelson Bacic Olic
Até onde vai a Europa ?
Quais são os países que compõem o continente europeu ?
Quais são os critérios que permitem dividir o seu território em regiões ?
Sob o ponto de vista tradicional da geografia, a Europa nada mais é do que uma extensa península do continente asiático.
A oeste, norte e sul, não pairam dúvidas quanto aos limites do continente, já que as águas do Atlântico, através do mar do Norte, do Báltico e do Mediterrâneo separam claramente as terras européias dos outros continentes.
O problema se coloca a leste, onde não existe um mar ou oceano separando as terras “européias” das “asiáticas”.
Por isso, tradicionalmente, os geógrafos consideram que os limites entre a Europa e a Ásia são formados pelos montes Urais, conjunto montanhoso que nunca se constituiu num obstáculo intransponível, em função das suas modestas altitudes. Além disso, ao norte do mar Cáspio passa-se, de forma quase imperceptível, das imensas planícies do leste da Europa para a planície Siberiana, que se estende pelo oeste da Ásia.
Durante muito tempo, a Europa foi considerada um conjunto geográfico sem significação política. Era a sua diversidade de paisagens naturais que balizava as propostas de regionalização.
Com base nos dados da natureza, dividia-se o continente, dos pontos de vista climático (regiões de clima mediterrâneo, temperado oceânico, temperado continental e subpolar), morfológico (domínio de planícies e escudos antigos do centro-norte, em contraposição ao domínio de cadeias montanhosas de formação terciária do centro-sul) ou hidrográfico (Europa “danubiana”, Europa “renana”, etc.).
No entanto, o conceito de Europa sempre esteve impregnado de história, fato comprovado pelas grandes mudanças ocorridas nas fronteiras dos Estados ao longo do tempo. Essas mudanças geopolíticas jamais mantiveram relações significativas com os quadros naturais.
Durante a Guerra Fria, foi a partir de uma concepção geopolítica que se passou a dividir o continente em Europa Ocidental (os países capitalistas aliados dos Estados Unidos) e Oriental (os países socialistas subordinados à União Soviética). Esse modelo de regionalização entrou em colapso com a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética, em 1989-91.
Ainda durante a Guerra Fria, um outro problema se colocava: onde incluir a URSS ? Houve uma certa tendência a se considerar a superpotência como algo distinto da Europa, usando-se como pretexto o fato de que cerca de 70% das terras soviéticas localizavam-se na Ásia, isto é, a leste dos Urais. Em contrapartida, atualmente tornou-se comum incluir toda a Rússia no continente europeu, sob o argumento de que, tanto na orla do Pacífico quanto na Sibéria, a maioria da população é eslava e, portanto, de raízes européias. Entre os próprios russos não há consenso sobre uma identidade “européia”, “asiática” ou “euro-asiática”.
A noção de uma Europa que se estenderia do Atlântico ao Pacífico ganhou alento quando, no final dos anos 80, Gorbatchev propôs a criação da “Casa Comum Européia”, ampliação da idéia da Europa “do Atlântico aos Urais”, na formulação do ex-presidente francês Charles De Gaulle, nos anos 60. A expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para os países da antiga Cortina de Ferro e a provável incorporação de Estados dessa região à União Européia configuram a renúncia à “Casa Comum Européia” e adicionam novos complicadores à questão da regionalização do continente.
As dificuldades para se delimitar e regionalizar a Europa afetaram até o futebol. Durante a Guerra Fria, a seleção de futebol da antiga União Soviética sempre participou do grupo europeu, tanto em eliminatórias para a Copa do Mundo como em torneios entre seleções nacionais.
Com a fragmentação da União Soviética em 15 repúblicas independentes, a regionalização futebolística mudou. A Rússia, os Estados Bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), a Belarus, a Ucrânia, a Moldova e os países do Cáucaso (Geórgia, Armênia e Azerbaijão) participam do grupo europeu. Por outro lado, as cinco repúblicas da antiga Ásia Central soviética (Casaquistão, Usbequistão, Turcomenistão, Tajiquistão e Quirguistão) participam do grupo asiático. É o futebol se adaptando à geopolítica.
Boletim Mundo Ano 4 n° 4
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