sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Os Sertões 100 anos do massacre

Tivemos depois de Canudos uma reprise da peça no Contestado. As mesmas origens: beatice e ignorância. A mesma réplica: farda e incompreensão. O mesmo desfecho: crueldade e covardia. (...) Esse novo drama não será o último, porque as causas persistem. Cada vez mais o litoral encurrala o sertão, especializando-se em inépcia à medida que este se especializa em miséria moral e ignorância. A República, feita para uso e gozo de uma mediocracia rapinante, não resolve problemas sociais.
O escritor Monteiro Lobato, conhecido por suas deliciosas “viagens” no universo ficcional infantil, fala aqui de desagradáveis batalhas no mundo real adulto. Parece que sabia da necessidade de provar os sabores de Tia Anastácia no “Sítio do Pica-Pau Amarelo” para suportar os dissabores das autoridades republicanas no Brasil -o sonho traz um pouco do alimento de que a vida carece.
Se no “Sítio” tudo era farto, abundante, no Brasil a fome campeia. O contraponto não é gratuito: há dois “Brasis”. Um é a ilha da fantasia, em que a elite vive com conforto, conta porcentagens e come caviar  o “Brasil Litoral”. Outro é o ‘‘deserto da crueldade”, em que o ‘‘povão’’ joga com a própria vida, conta perdas e come cacto o “Brasil Sertão”.
Cem anos se passaram desde o cruel massacre do Arraial de Canudos, e a história não se cansa de se repetir. Depois de Canudos, o Contestado (revolta no sul do país, de 1912 a 1916); depois, outros “Canudos” e “Contestados”. Se trocássemos, por exemplo, os massacres de 1896 e 1916 pelo de 1996 - em Eldorado dos Carajás, no Pará -, o texto pareceria recentíssimo -atestado de sua atualidade. As palavras de Lobato se fazem proféticas: o “Brasil Sertão” está cada vez mais encurralado pelo “Brasil Litoral”.
A “mediocracia” continua de olhos vendados para a problemática social; a República (res publica - “coisa pública”) não aprendeu nada em pouco mais de um século de sua proclamação.
Para lembrar o centenário da chacina, nada melhor do que a obra Os Sertões, documento literário redigido pelo escritor pré-modernista Euclides da Cunha. Trata-se de um exemplar de uma obra-prima politicamente incorreta. Grandiosa na forma, ousada na estrutura, na concepção -mistura de literatura, relatório, texto jornalístico, diário-; mas obtusa, preconceituosa, no tratamento do conteúdo.
Explicamos: como enviado do jornal O Estado de S. Paulo, Euclides assistiu ao conflito entre sertanejos e tropas governamentais, colhendo material “saindo do forno para seu livro. O livro (estruturado em três partes: A terra, O homem, A luta) foi parido no calor dos acontecimentos -diferente de repisar os fatos quando eles já se encontram gélidos nas gavetas de necrotério da história.
Como homem de seu tempo, Euclides pensava e escrevia carregado de influências do Positivismo, uma corrente filosófica que floresceu no século XIX e cujo principal expoente foi Augusto Comte. Os positivistas acreditavam que todos os fenômenos - naturais e humanos - poderiam ser equacionados, classificados e previstos em termos matemáticos, exatos.
Determinista, Euclides acreditava que fatores como a raça condicionavam a evolução social. Como o filósofo inglês Herbert Spencer - que tomou de empréstimo certas noções do Evolucionismo de Charles Darwin -, o autor de Os Sertões parecia acreditar que a sociedade se constituía de “organismos úteis” e “organismos inúteis”. A “evolução” ou o “atraso” estariam vinculados à predominância de um ou outro grupo racial. Assim, Canudos era chamada de “Jerusalém de taipa”, “tapera colossal”, “Tróia de taipa dos jagunços”. Seu líder, Antônio Conselheiro, era rotulado de “falso apóstolo”, “caso de delírio sistemetizado”, “um caso notável de degenerescência intelectual”, “uma regressão ao estágio mental dos tipos ancestrais da espécie”. Para Euclides, “a guerra de Canudos foi um refluxo em nossa história. Tivemos, inopinadamente, em armas em nossa frente, uma sociedade velha, uma sociedade morta, galvanizada por um doido”.
Outros escritores e pensadores da época reverberavam o mesmo tipo de preconceito.
Para o jurista e político Rui Barbosa, por exemplo, “Canudos é apenas um acidente monstruoso das aluviões morais do sertão, truculência das lutas primitivas, a rudeza dos instintos agrestes, a crendice da discultura analfabeta, a escória promíscua do campo (...), incubados ali em tranqüila fermentescência, pela fascinação de um iluminado.’’
Mesmo o comunista Graciliano Ramos manifesta preconceito: “Louco e meio analfabeto, facilmente reuniu uma considerável multidão de sujeitos menos loucos e mais analfabetos que ele, a pior canalha da roça”.
Boletim Mundo Ano 4 n° 4

Nenhum comentário:

Postar um comentário