sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Transição é caótica no antigo Leste soviético

Há quase sete anos, com a queda do Muro de Berlim, desagregava-se o bloco soviético na Europa Oriental e se dissolvia o equilíbrio geopolítico estruturado durante a Guerra Fria no continente europeu. De lá para cá, muita coisa mudou, mas Polônia, Hungria, República Tcheca, Eslováquia, Bulgária e Romênia defrontam-se, em maior ou menor grau, com dois graves problemas.
O primeiro deles refere-se às dificuldades encontradas por esses países na dolorosa passagem de uma economia estatizada para uma economia de mercado. O segundo refere-se a tensões étnico-nacionais internas que se verificam especialmente na Romênia, Eslováquia e Bulgária.
As reformas econômicas, seguindo o modelo neoliberal dominante no mundo pós- Guerra Fria, foram deflagradas a partir de 1990-91 e constavam de uma série de medidas: a liberalização da maioria dos preços, bem como das importações e exportações, a redução de subsídios às indústrias e ao consumo, assim como dos gastos com programas sociais, a fixação de tetos para os aumentos salariais e vastos programas de privatizações. A aplicação dessas medidas, ao longo dos últimos 5 anos, acabou levando a uma queda generalizada da produção, do consumo, da renda real dos indivíduos e também a um preocupante aumento do desemprego.
Todo esse conjunto de fatos tem levado especialistas em economia e o cidadão comum a pelo menos  três interpretações. Para muitos, as reformas não têm outro efeito senão o de rebaixar o padrão de vida médio da população e acelerar o desemprego. Para outros, os fatos têm demonstrado  que as reformas estão no caminho correto, pois estão alterando as estruturas econômicas anteriores. Outros, ainda, acham que as reformas devem ser aceleradas.
Independente dessas posições, o que se constata até aqui é que o processo de reformas é inevitavelmente  prolongado, dada a complexidade dos problemas econômicos regionais, e que o apoio político a essas reformas vem caindo na medida em que elas não atendem aos anseios de uma parcela considerável das sociedades em questão. O desgaste causado por elas chega ao ponto de ameaçar a sua continuidade, caso não sejam acompanhadas de políticas sociais capazes de conter a explosão da pobreza. Em conseqüência da frustração das expectativas criadas no momento da substituição dos antigos regimes de partido único, verifica-se um  certo enfraquecimento das instituições democráticas nascentes. O fortalecimento de ex-comunistas e nacionalistas registrado nas eleições realizadas nos últimos anos reflete os desgastes gerados pelas reformas econômicas.
Dos países da região, os que conseguiram melhores resultados econômicos foram a Polônia, a Hungria e a República Tcheca. Os três contavam com uma base econômica anterior mais sólida, tentaram introduzir reformas liberalizantes ainda sob o regime socialista e, dada a sua relativa homogeneidade cultural, praticamente não sofrem tensões internas de caráter étnico-nacional. Não é casual que os três ocupem a primeira fileira entre os candidatos à integração na Otan e na União Européia As tensões internas em países do antigo bloco soviético estão relacionadas à presença de expressiva minoria de origem turca na Bulgária, húngaros étnicos na Eslováquia e ciganos e húngaros étnicos na Romênia. O caso mais grave é o da minoria de origem húngara que habita a região da Transilvânia romena, cujos atritos com o poder central arrastam-se há décadas. Em 1995, os Estados Unidos promoveram na cidade de Atlanta uma reunião entre representantes do governo romeno e da minoria húngara, que contou com a presença do ex-presidente Jimmy Carter, espécie de embaixador  itinerante do governo Clinton para casos “complicados”. Tratava-se de evitar, através de medidas preventivas, a eclosão de novos conflitos étnicos como o que incendiou, por cinco anos, a antiga Iugoslávia.
Boletim Mundo Ano 4 n° 4

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