segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Buscar a Paz é a Única Alternativa para Israel e Palestina, Afirma Said

Ao saber-se portador de câncer incurável no sangue, em meados de 1992, Edward
Said, professor de inglês na Columbia University, em Nova York, e articulista do The
New York Times, resolveu  rever a terra natal, Jerusalém, 45 anos após ter emigrado
Com  seus pais. Acompanhado de sua mulher, Mariam, e de seus dois filhos, Said fez
Uma  viagem com profundo sentimento existencial – mergulho no passado e
Indagação  sobre o futuro. O valor humano de seu relato, publicado pela revista
Harper’s (de Nova York), em dezembro, é realçado pelo porte intelectual de seu autor.
Seus livros, Orientalism (com edição brasileira), The Question of Palestine,
Culture and Imperialism (recém lançado nos EUA) e outros são mundialmente
Reconhecidos  como indispensáveis a qualquer reflexão séria sobre o Oriente Médio.
Said não é e não pretende ser “neutro”. Entre 1977 e 1991, foi do Conselho Nacional
Palestino (reconhecido por 120 países como o governo da Palestina no exílio), e
Defende  a criação de um Estado palestino nos territórios da Cisjordânia e Gaza, desde
1967 sob a ocupação israelense. A Redação de Mundo, como tal, não se posiciona em
relação ao conteúdo da questão. Por sugestão da representação palestina no Brasil,
publicamos  trechos do relato de Said, esperando que auxilie a compreender uma
questão  complexa. Oportunamente, Mundo divulgará outras opiniões.
“Numa sexta-feira, 12 de junho de 1992, cerca de 7h45, meu avião tocou o aeroporto
Bem Gurion de Tel Aviv. Mai do que nunca, fiquei ansioso. Nasci em 1935 em
Talbia, então um próspero bairro árabe de Jerusalém. No final de 1947, às vésperas
da tomada de Talbia por forças judaicas, parti com minha família para o Cairo. Quarenta
e  cinco anos de minha vida se passaram, e eu finalmente voltava. A Palestina que deixei aos 12 anos era muito distinta de Israel à qual acabava de chegar. A Palestina árabe foi destruída em 1948, e seu povo, exceto 120 mil deles, deixou o país ou foi forçado a um terrível êxodo. Um novo Estado judeu, Israel, nascera, e nas décadas seguintes as guerras, novas tecnologias e mudanças demográficas mudaram o Oriente Médio (…)
Faço parte de uma geração que não reconhecia Israel. Essa estranha premissa, de que Israel não existia, possibilitou uma política de não-reconhecimento, um vazio que ergueu um muro em torno de si mesmo, permitindo que Israel e os líderes árabes fizessem de tudo em nome da segurança.
Até 1967, o mundo árabe, incluindo os milhões de palestinos no exílio, quase esqueceram seus compatriotas que permaneceram em Israel depois de 1948. Até 1967 era quase impossível usar a palavra “Israel” na escrita árabe. Isso, hipoteticamente, tiraria de Israel legitimidade e convicção, como se ao não o reconhecermos, o Estado deixaria de existir. Claro que isso não aconteceu (…)
Haifa, prima de Rashid Khalidi, nos convida para o almoço.. vive  na Velha Jerusalém, com seus velhos pais e um tio, numa casa que há gerações pertence à sua família.
Seu principal problema é que um dos lados da casa é limitado pelo Muro das Lamentações, e por isso é cobiçada por colonos judeus que tentam transformar a Jerusalém Oriental árabe numa nova cidade judaica. Rotineiramente, ela enfrenta fanáticos que espreitam sua casa, ameaçando, aos gritos, tomar-lhe a propriedade.
Depois do almoço, sou apresentado a uma velha viúva cuja casa fora sumariamente tomada por colonos. Ela vive agora no porão, cujo interior escuro e abafado era úmido e super-povoado – miraculosamente, acomodava seis ou sete pessoas. Uma de suas filhas usava um secador de cabelos para enxugar roupas.
“Eles não permitiriam que pendurássemos nossas roupas no lado de fora. Sempre que
tentamos  fazê-lo, eles jogam lixo e água suja”. Outra família contou-me que, certa noite, encontraram um judeu nos aposentos.
Indagado sobre o que fazia ali, disse que estava conhecendo a “minha casa”.
Estes episódios estão no oração da questão palestina, que é, essencialmente, geográfica e territorial. Pouco  efeito tiveram as conversações de paz contra o avanço lento e incansável de Israel cobre o espaço palestino. Além da ocupação militar, há a presença constante do colono. Pode-se ver sombrias colônias na maioria das colinas em torno de Jerusalém. As colônias, aparentemente, são criadas em duas fases.
Primeiro, um grupo monta e passa a viver em casas pré-fabricadas. Depois, vêm as casas na terminadas, vazias (às vezes, não passam de trailers). Seu número é indeterminado, mas não a razão de sua existência. Elas estão ali para adensar as colônias, para impor a presença israelense em território árabe. Assim, quando Bush aceitou emprestar US$ 10 bilhões a Israel, em troca de um “congelamento” da colonização, as casas vazias foram aceitas como já existentes, implicando maiores perdas ao território palestino. Cisjordânia e Gaza somam, juntas, só 22% do total da Palestina que deixei 45 anos antes. Cerca de 50% destes 22% foram expropriados desde 1967 por israelenses (…).
Os 850 mil palestinos de Israel – não me refiro aos 2 milhões de palestinos da Cisjordânia e Gaza, onde, como um povo, reclamamos o direito a um Estado soberano – são cidadãos de segunda classe. Basta ler os dados do Escritório Central de Estatísticas de Israel para concluir que judeus e não-judeus (árabes em Israel, 18,2% da população) são separados em duas classes, uma das quais tem sempre um status muito inferior. Isso se reflete em níveis de cuidados com a saúde, educação, desemprego, qualidade de vida (…)
Quando descemos a Gaza, assaltaram-me as memórias de uma recente viagem à África do Sul. Em 1991, fui convidado a dar palestras na Universidade da Cidade do Cabo, pelo Congresso Nacional Africano e duas universidades. Visitei Soweto e outras comunidades negras na Cidade do Cabo. Nada que vi na África do Sul pode se comparar a Gaza em termos de miséria, de confinamento e discriminação racial, de pura opressão.
Em Gaza proliferam casamatas militares, quilômetros de fios de arame farpado, e os soldados “bancos” em patrulha. O dia em que deixamos Jerusalém rumo a Gaza começou com uma rara tempestade. Quando chegamos, duas horas depois, lodaçais tornaram a travessia extremamente suja, em particular no campo de Jabalaya, que apresenta a maior densidade habitacional do mundo. Em Gaza, um posto militar fronteiriço que permanece fechado à noite confere à região a aparência de um enorme campo de concentração. Soldados param cada carro, os passageiros descem, os passes são conferidos. Jabalaya é o local mais desolado que já vi. Crianças superlotam ruas sem esgoto, o mau cheiro provoca náuseas. As estatísticas  causam pesadelo: terríveis índices de mortalidade infantil, desemprego (…) Não ouvi palavras de esperança. A frase mais freqüente era “mawt batiq” , morte lenta.
O prazer da vida é pequeno em Israel e territórios ocupados. Os dois povos estão nisso juntos, sem simpatias, mas juntos, e talvez muito lentamente melhorem a relação.
Seria muito difícil viver ali: o exílio me parece uma situação mais livre, mas sou privilegiado e posso dar-me ao luxo de experimentar mais os prazeres do que o peso do exílio. Ainda assim, sinto que precisávamos ter a certeza que a Palestina e os palestinos sobreviveram – e isso agora  sabemos.
Eu precisava da chance de, metaforicamente, enterrar os mortos, aquilo que a Palestina era para mim através de um conjunto de associações fúnebres. Mas posso sentir e, às vezes, até enxergar um futuro distinto – como não podia antes.

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