segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Um Dia na História de...Vila Rica

por Leandro Narloch
Num passeio pelo centro da cidade, o visitante que chegasse à cidade, no século 18, encontraria pelas ruas homens livres vendendo frutas, funcionários da Coroa Portuguesa, procissões religiosas e escravos carregando tonéis de fezes. Desviando de galinhas e porcos, damas negras e ricas negociando com portugueses pobres. Nas casas faltavam artigos de cozinha, mas sobravam jóias e as pessoas usavam roupas velhas com botões de ouro.
Em 40 anos, 600 mil do 1,7 milhão de habitantes de Portugal migraram para o Brasil, principalmente para Minas Gerais – o dobro de gente que aportou aqui nos dois séculos anteriores. O país recebia pela primeira vez pessoas comuns, não apenas escravos ou senhores milionários como na época dos engenhos. Depois de 200 anos de procura, haviam achado ouro em grande quantidade no Brasil. Bem-vindo à Ouro Preto do século 18, a Vila Rica.
Conversa fiada
A influência de tantos portugueses no interior e o fato de a língua trazida por eles ser a única escrita diminuiu o poder da “língua geral”, a mistura de tupi e português falada entre jesuítas, índios e bandeirantes em São Paulo. Falar português era questão de status entre os negros: os escravos brasileiros não gostavam de se relacionar com os recém-chegados da África, chamados de “os bugres”
Sagrado e profano
As irmandades – gente comum que se reunia para adorar seu santo predileto – criaram as principais igrejas de Vila Rica. Elas organizavam as procissões e festas e eram o centro da vida social da cidade
Ouro mole
O ouro só podia ser vendido em forma de barras, cunhadas nas Casas de Fundição, onde o quinto (20% do peso) era arrecadado. Portugal estipulava também a derrama, uma cota mínima que as minas tinham que pagar. Para fugir dos impostos, os mineradores faziam jóias e botões de ouro
Compra e venda
A presença de tanta gente rica no interior impulsionou a economia brasileira. Cidades ao norte ganharam com o comércio de gado. No sul do país, outras enriqueceram com o transporte do ouro. Na Vila Rica, ferreiros, alfaiates, tecelões, chapeleiros, sapateiros e queijeiros fizeram pequenas fortunas
Intelectuais
Circulam os primeiros impressos do país. São poesias e cartas satíricas sobre os governadores. Surgem as raízes da defesa da abolição e da independência
Pedra-sabão
A arquitetura simples dos primeiros arraiais, à base de taipa, foi trocada por paredes de pedra. Como na Igreja do Carmo, os escultores usavam, na falta do mármore europeu, a pedra-sabão, maleável e abundante na região
Cidade grande
O verde dá espaço às casas e ruas pavimentadas. Só a Câmara e a Casa da Baronesa têm encanamento e esgoto. Despejos são recolhidos por escravos nos chamados “tonéis de bosta” e jogados no rio. A taxa de mortalidade infantil em 1750 é de 240 mortes por mil nascimentos (hoje é de 29,6 por mil). Entre os adultos as doenças que mais matam são as respiratórias, como a tuberculose e a gripe, tratadas com “óleo de ouro”, pois acreditava-se que o metal tinha poderes curativos
Negras ricas
Muitas escravas (chamadas de “negras do tabuleiro”) vendiam cocadas e frutas e conseguiram comprar sua liberdade, por meio da carta de alforria. Em 1750, a carta valia 150 mil réis (uma casa simples custava entre 100 e 120 mil réis)

Nenhum comentário:

Postar um comentário