quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

ALGUMAS LINHAS BRASILEIRAS NA SEGUNDA GUERRA

Jorge de Almeida

Nos livros Uma dessas bandeirinhas, de cor verde e amarela, foi colocada no mapa da Segunda Guerra Mundial em julho de 1944, na frente italiana de confronto com as forças do Eixo, junto aos Montes Apeninos. A entrada tardia do Brasil na guerra é ainda hoje alvo de polêmica. O governo Getúlio Vargas, não propriamente um defensor da liberdade tradicionais de história, as guerras geralmente são apresentadas com uma profusão de números, datas e mapas. O país tal lutou com o país tal, em tal ano, por isso e aquilo, com tal número de mortos e feridos e tais conseqüências para a política e a economia mundial.
Conhecimento importante e necessário, mas que pode afastar o leitor de um elemento presente em toda guerra, que deixa marcas profundas na vida de inúmeras pessoas, mas que escapa ao resumo frio e objetivo dos manuais: o sofrimento humano.
O que a história cala ganha voz, rosto e cor na literatura, nos diários e mesmo nas reportagens enviadas do campo de batalha. Em vez das narrativas oficiais, que sempre exaltam o patriotismo nas vitórias e o heroísmo nas derrotas, esses textos estão repletos de dúvida e dor, colocando em questão o próprio sentido da guerra, muitas vezes perdido em meio à batalha, principalmente aos olhos dos batalhões de soldados que avançam pela linha de frente, em meio a uma paisagem de destruição, pequenas bandeirinhas coloridas nos mapas lidos pelos generais.
em seu próprio país, negociou com os aliados, em 1942, a entrada no conflito, depois de vários de seus ministros (incluindo o da justiça e o da guerra) terem demonstrado simpatia pelo lado alemão. O afundamento de vários navios na costa brasileira, ação dos temidos submarinos alemães, também pesou na opinião pública, antes mesmo de a propaganda oficial jurar vingança. O saldo do acordo com os Estados Unidos foi o financiamento da Companhia Siderúrgica Nacional, além do aparelhamento das forças brasileiras que partiriam para lutar na Itália.
O recrutamento para a FEB (Força Expedicionária Brasileira) reuniu mais de 25 mil soldados, ou “pracinhas”, como eram chamados pela população.
Inexperientes e mal treinados, eles eram entretanto  um retrato do Brasil: muitos mal sabiam ler, outros apresentavam graves deficiências alimentares. Os duros relatórios americanos sobre as tropas brasileiras, reproduzidos no livro de William Waack, “As duas faces da glória” (Nova Fronteira, 1985), criticam a falta de organização, a arrogância dos oficiais superiores e a falta de cuidado com o equipamento, mas também ressaltam o bom-humor e o companheirismo dos soldados, que enfrentavam com criatividade as agruras da batalha e do inverno europeu.

“Sou apenas um homem em face da montanha. Fui me despojando de outros atributos, simplificando-me ao extremo, até ficar reduzido a esta condição. As formalidades e injustiças da vida militar; a promiscuidade do navio-transporte,com suas filas, seus catres com gente vomitando, com as latrinas em que os homens se sentavam frente a frente; as impressões de guerra e de miséria, a prostituição e a mendicância exercidas em profusão; os extremos de degradação tornando-se fato normal e cotidiano; tudo isso me reduziu a mero espectador, mecânico e passivo, cuja vida se limita a calcular tiros que serão enviados contra a montanha”. [Trecho do romance “Guerra em Surdina” (CosacNaify, 2004), de Boris Schnaiderman]
“Enquanto a guerra se resumia em tiros que passavam pelo alto, tudo era suportável. Mas depois que alguém que se conhece é ferido e se vê o ferimento e as suas prováveis conseqüências, começa-se a sentir mais fundamente o sentimento de revolta. E chega-se à conclusão de que não há nada que justifique essa chacina. Tudo o que se diz não passa de palavras ocas. Aqui, mais que em qualquer lugar, dou valor à vida humana. (...) Quantos, senão todos, estão aqui sem saber por quê, são feridos, sacrificados, mortos sem terem consciência de nada. (...) Sacrifício inútil que nada resolverá.
Mais ainda. Vai animalizando o homem. Tornam-no verdadeiro caçador, sem sentimentos, que tem prazer em caçar o seu semelhante. Foi o que vi ontem. Um desejo incontrolável de atirar para matar. Será que haverá justificativa para tudo isso?” [Trecho do diário do Dr. Massaki Udihara, no livro “Um médico brasileiro no front”, IOSP, 2002]

História e Cultura n° 4 Ano 1

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