Sobre a participação desses pilotos na Segunda Guerra há um excelente documentário de Erik de Castro (1999), intitulado “Senta a pua!”, lema dos aviadores brasileiros. No filme, acompanhamos o depoimento dos oficiais da FAB, hoje aposentados, que relembram as dificuldades, as vitórias e o desafio de cada confronto com as tropas alemãs.
O documentário traz ainda as impressionantes cenas reais dos ataques, filmadas por câmeras acionadas automaticamente a cada disparo.
Enquanto os pilotos americanos eram liberados e substituídos após cinqüenta missões, alguns brasileiros, que não tinham substitutos treinados, chegaram a cumprir, nos 184 dias de operação, quase cem missões cada um, enfrentando a terrível estatística de três mortos por mês. Vários foram abatidos atrás das linhas inimigas, sendo tomados como prisioneiros ou retornando, com enorme dificuldade, até território aliado.
No comando de seus P-47 “Thunderbolt”, armados com bombas e metralhadoras, os pilotos brasileiros realizaram missões de ataque no Vale do Pó, então sob o domínio dos alemães.
A ordem era atirar em tudo o que se movesse: trens, carros, tanques e tropas; sempre fugindo das saraivadas de fogo anti-aéreo, que até o final da guerra abateram 22 dos 48 aviões utilizados pela FAB.
Quando perguntado sobre o medo, um dos brigadeiros responde, com voz segura: “há o medo de morrer, mas há também o medo de matar”. Isso explica a mensagem final do filme, uma citação do livro “Missão de Guerra”, do Brigadeiro Luiz Felipe Perdigão: “Os pais e avós que somos hoje queremos repudiar àquelas missões pelo mal que causaram, pois morte e destruição era a mensagem que se levava diariamente sob as asas. Sim, queremos quase repudiá-las, mas o que volta sempre é a euforia daqueles momentos vibrantes e singelos, o prazer de reconquistar a cada dia o direito de viver mais vinte e quatro horas; a tranqüilidade de voar, com um amigo ao alcance de cada asa, viver com um irmão ao alcance de cada braço”.
viver com um irmão ao alcance de cada braço”.
O recrutamento para a FEB reuniu mais de 25 mil soldados, ou “pracinhas”. Inexperientes e mal treinados, eram um retrato do Brasil: muitos mal sabiam ler, outros apresentavam deficiências alimentares. Os relatórios americanos sobre eles criticam a falta de organização, a arrogância dos oficiais e a falta de cuidado com o equipamento, mas ressaltam o bom-humor e o companheirismo .
“Era preciso que a gente aí do Brasil assistisse a uma distribuição de correspondência aqui para ver quanto vale uma carta. “Chegou correio” é uma frase que mobiliza mais gente que qualquer ordem de general aliado ou inimigo. A cara do sujeito que não recebe carta nesse dia é uma cara de náufrago. O sujeito se sente abandonado numa ilha deserta – e nunca faltam outros sujeitos que, sem ligar para a sua amargura, ainda vêm lhe mostrar fotografias que receberam ou ler trechos de cartas que acham muito engraçadas ou comoventes – e que não comovem nem fazem rir de modo nenhum o pobre esquecido”. [Trecho de “Com a FEB na Itália” (Cia Editora Nacional, 1946), do grande cronista Rubem Braga]
As primeiras ações militares brasileiras, no final de 1944, foram desastrosas. Em um conflito próximo à cidade de Barga, e nos dois primeiros ataques às tropas alemãs entrincheiradas sobre o Monte Castello, os soldados brasileiros ficaram impiedosamente expostos à artilharia inimiga. Sem a coordenação necessária e em posição tática inferior, mas estimulados pelos oficiais a avançar a todo custo, os pracinhas sofreram duros reveses.
Nessas operações, o saldo de baixas (termo militar para contabilizar mortos e feridos) foi de 350, contra 24 baixas alemãs. Números que não dizem o suficiente, mas dizem bastante. A chegada do inverno trouxe uma relativa calma a esse cenário, interrompida apenas pelos constantes combates entre patrulhas.
“Mas como eu ia dizendo, entre o nosso pessoal reinava uma grande camaradagem. E é engraçado. No meio daquela desgraça toda, essa camaradagem era um troço muito bacana. (...) E acho que se não fosse essa camaradagem a gente virava animal mesmo, porque aquilo tudo que a gente estava fazendo era um troço muito feio. Demais de feio. E o caso é que a gente ia endurecendo. Feito eu e o Miranda; pegamos carona num caminhão e viajamos mais de uma hora numa daquelas andanças que a gente fazia de à-toa quando o front estava parado. E lá pelas tantas ficamos com fome, tiramos a ração K da patrona e fomos comendo, comendo e conversando, o chão do caminhão forrado de cadáveres em mau estado que eles iam levando para enterrar, tudo gelatinoso chacoalhando batendo nas pernas da gente”.
[Trecho de “Mina R” (Record, 1995), de Roberto deMello e Souza]
O ano de 1945 começou com a expectativa de um final próximo para a guerra na Europa. Os alemães perdiam espaço para os russos, a leste, enquanto as tropas americanas avançavam pelo oeste. Na Itália, frente menos importante, as cansadas e desestruturadas tropas alemãs receberam a ordem de resistir, impedindo o avanço dos aliados pelo Vale do Pó. No final de fevereiro, uma ofensiva da Décima Divisão de Montanha dos americanos avançou rapidamente pelos Apeninos, e o temido Monte Castello finalmente foi tomado pelas tropas brasileiras. Nos meses seguintes, a “Ofensiva da Primavera” consolidou o avanço da FEB em Montese e Piacenza, com a rendição cada vez mais freqüente das tropas alemãs, que antecipavam a capitulação final da Alemanha, em 7 de maio.
“O pequeno cemitério de Castelnuovo, que os brasileiros conquistaram anteontem juntamente com o morro e o povoado, tem agora mais um residente fixo. Trata-se de um soldado alemão que os pracinhas encontraram bastante ferido e que morreu enquanto recebia os primeiros socorros. Nossos homens cavaram uma cova no cemitério, deixaram lá o corpo enrolado numa manta, espetaram uma cruz improvisada em cima. Dependurados na cruz, deixaram os objetos que poderiam mais tarde identificar o alemão morto: a corrente e a chapa metálica com o número militar e o seu tipo de sangue. (...) Indaguei de alguns pracinhas o porquê de tanto cuidado com o inimigo morto – talvez ele fosse um dos tantos alemães que na véspera matara ou tentara matar um deles. A resposta veio rápida: - Vamos deixar o pobre em paz. Morreu e acabou-se”. [Trecho do livro “O inverno da guerra” (Objetiva, 2005), que reúne reportagens do jornalista Joel Silveira].
História e Cultura n° 4 Ano 1
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