De repente o trem parou, a caminho de Berlim. Minutos de incerteza, até que o sistema interno de som, que anuncia a proximidade de cada estação, esclareceu, em parte, o que se passava: “Foi constatado defeito, mas não sabemos ainda de que tipo”.
Em outras viagens já havíamos sofrido atrasos de até meia-hora. “Na Alemanha, acabaram os tempos em que se acertavam os relógios com os horários dos trens”, comentou amargurado um consultor de Frankfurt, cheio de orgulho quando aponta os arranha-céus que abrigam bancos poderosos e fazem da cidade um dos grandes centros financeiros da Europa.O que extrair de trens cuja precisão era uma das marcas nacionais, hoje manchada, e de bancos bilionários como painéis de uma grande nação? A Alemanha continua sendo a terceira maior economia do mundo e a maior da Europa, mas seu povo é submetido a inseguranças que calam fundo, vão à alma, e podem resultar em impasses políticos com tração desordenada. Parece agonizar o “capitalismo renano”, como é conhecida a fórmula do Estado de Bem-Estar, cujos princípios vêm dos tempos de Bismarck.
Conheci o caso de uma senhora que se separou do marido e repassou seus problemas ao Estado. O poder público pagou a mudança, arranjou-lhe teto e comprometeu-se a honrar os aluguéis durante um período generoso. Pode ser espantoso para nós, mas para os alemães é rotina. Como convencê-los de que esse “modelo” se esgota? A economia empacou, o Estado gasta mais do que recolhe e os mais de quatro milhões de desempregados pressionam o caixa da seguridade. A pujança exibida por Frankfurt tem a sua face sombria. A globalização, encarada como parceira das economias fortes, está penalizando a Alemanha. A mão-de-obra cara resulta em perda de competitividade e leva empresários a pularem fronteiras já sem porteiras, em busca de quem aceite salários menores. Os húngaros, por exemplo, que têm componentes alemães datados da época dos Hasburgo.
China e Índia convertem-se em fantasmas.
Reportagens como a que mostra os chineses inundando o universo de botões (olhem os de suas roupas: certamente são chineses) ocupam páginas e páginas dos jornais.
É como se os asiáticos avançassem em tudo. “Os trabalhadores europeus querem preservar a semana de 35 horas de trabalho, engenheiros indianos aceitam trabalhar 35 horas por dia”, exagerou um jornal, em tom de “quem avisa amigo é”. Coube ao centenário Partido Social-Democrata (SPD), de lutas históricas, principal responsável pelo incremento da “ajuda social”, a ingrata tarefa de convencer os alemães de que seu “modelo” – na realidade, o modelo europeu ficou inviável em razão de competição globalizada.
Uma tragédia que se abate sobre todos que acreditavam na possibilidade de acabar com a pobreza democraticamente.
Há dois mandatos no poder, o SPD se desgasta politicamente. Ficou sem o controle do maior estado, a Wesfália, e parte para eleições gerais com a sensação geral de que poderá perder para os conservadores democratas- cristãos da CDU, embora 10% já se manifestem contrários a uma mulher na chefia do governo. A CDU é agora liderada por uma mulher, chamada de “a Thatcher alemã”. “Suicídio consentido”, comentou um líder sindical, avisando que um “ajuste econômico” da CDU corre o risco de ser impiedoso. Mas não está descartada a idéia de punição de quem exerce o poder quando as coisas vão mal. As reações à desmontagem da “ajuda social” podem transformar-se em rebelião nas ruas, dependendo do grau de eliminação dos componentes do “capitalismo renano”, baseado na combinação de lucro com solidariedade social.
Sessenta anos depois da derrota na guerra, destruída, reconstruída e reunificada, a Alemanha já não vive em clima de “milagre”.
O quadro geopolítico também mudou.
Soldados americanos ainda são vistos, mas desmontados os mísseis que apontavam para Moscou e faziam da Alemanha a linha de frente na contenção de hipotético avanço soviético.
Hoje, as “blitzkrieg” são de brigadas de executivos que se deslocam para o leste com a tarefa de formar executivos locais que atendam às necessidades de pessoal de empresas alemães.
O ministro do Exterior, Joschka Fischer, do Partido Verde, embora popular, quase foi à lona pelo cochicho que permitiu o ingresso na Alemanha de uma legião de quase 300 mil ucranianos, a maioria vinculada a camarilhas mafiosas cujos negócios incluem o contrabando de prostitutas. Perguntei a uma jovem alemã se ela sabia quem é Fischer. “Aquele dos vistos”, foi a resposta.
Mais um golpe no SPD.
O que foi a guerra, seis décadas depois, para alemães que vieram ao mundo entre as ruínas ou já na cauda do “milagre”?
Não faltaram exposições de fotografias, em geral documentando o grau de destruição das cidades alemães. A hoje poderosa Frankfurt lá estava, aos frangalhos.
Até a casa de Goethe foi bombardeada.
A pequena Munster, onde em 1648 foi assinado o tratado que encerrou a Guerra dos Trinta Anos, trágico marco na história alemã, ficou impiedosamente sob bombas. “Não tinha nenhum valor estratégico e a guerra estava no fim”, se queixam alemães. Foi lembrado o bombardeio, estilo assassinato em massa, da cidade de Dresden, com emprego de engenhos incendiários.
“Eles calculavam a direção do vento e faziam com que bolas de fogo se movimentassem ao longo da cidade, invadindo casas e prédios”, me explicaram.
Na Berlim resplandescente, reunificada, a avenida Unter den Linden recuperou a sua majestade, depois de longo inverno a leste do muro, e mais uma reparação aos judeus, um monumento reproduzindo lajes frias de um cemitério imaginário, divide com o Portão de Brandemburgo a curiosidade dos turistas. Mas a alma alemã se debruça mesmo no museu montado ao lado do que foi o Check-Point Charlie, o mais notório posto de controle americano na passagem do Muro de Berlim. Alemães fantasiados de soldados americanos posam para fotos, com a bandeira dos Estados Unidos, ao lado de turistas alemães ávidos de história recente.
O museu, no entanto, é o elemento de catarse. Lá se encontram engenhocas usadas em fugas, algumas portadoras de histórias inacreditáveis. Lá está foto famosa do soldado alemão do leste que, pouco antes da construção do muro, largou a arma e fugiu pulando cercados de arame. Um músico não alemão contrabandeou a namorada colocando-a numa caixa de som que hoje está em exposição. Duas malas geminadas, balão etc:
“Eles só queriam a liberdade”, frase que funciona como se fosse o título do museu. As visitas, sobretudo em meio às comemorações dos 60 anos do fim da guerra mundial, oferecem aos alemães o que eles mais querem.
A possibilidade de curtir, por uns momentos, a sensação de que sua história não foi somente guerra, destruição e genocídios.
De que eles, também, empunharam o facho da liberdade.
Boletim Mundo n° 4 Ano 13
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