O fracasso da Constituição Européia tem impacto de longo alcance e desdobradamentos incertos no cenário mundial.
O tratado constitucional seria um passo decisivo para permitir à UE preservar e ampliar a sua capacidade militar, tecnológica e financeira de disputar o poder mundial com outras potências – os Estados Unidos, a Rússia e a China. A frustração da expectativa cria uma nova incógnita no xadrez geopolítico planetário.
No centro dessa disputa pelo poder está a Eurásia.
Desde 1992, logo após o fim da União Soviética, os estrategistas de Washington decidiram ampliar a presença militar americana na Ásia Central e no Oriente Médio, bem como construir um “cordão sanitário” em torno da Rússia. Uma resolução do Pentágono, intitulada Defense Planning Guidance (Guia de Planejamento de Defesa), estabelecia o objetivo central de “neutralizar” eventuais potências que pudessem competir com Washington e “impedir o renascimento da Rússia”.
Essa perspectiva era também defendida por Zbigniew Brzezinski, ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, em nome do valor estratégico da Eurásia: “Cerca de 75% da população mundial vive na Eurásia, que possui a maior parte dos recursos naturais do planeta... Ali estão 60% do PIB do planeta e cerca de 75% de suas reservas conhecidas de energia... Depois dos Estados Unidos, as outras seis maiores economias e os seis maiores investidores em armas estão localizados na Eurásia.
Todos os poderes nucleares, exceto um, estão ali localizados” (The Grand Chessboard: American Primacy and its Geostrategic Imperativs, Nova York, Basic Books, 1997).
Os cinco países da bacia do Cáspio – Azerbaijão, Cazaquistão, Irã, Rússia e Turcomenistão – possuem reservas estimadas de até 200 bilhões de barris de petróleo e um volume comparável de gás. As cinco maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos (Chevron, Conoco, Texaco, Mobil Oil e Unocal) concluíram uma série de acordos bilionários com esses países (exceto o Irã) para explorar suas reservas. É também o petróleo que explica os interesses em jogo na guerra da Rússia com a Chechênia. Por ali passam fontes e linhas de abastecimento de petróleo e gás iranianos e da bacia do mar Cáspio.
Seguindo a lógica da “conquista da Eurásia”, em 1997 o Senado dos Estados Unidos aprovou a resolução conhecida como “Estratégia da Rota da Seda” (alusão às viagens do veneziano Marco Polo, 1254-1324), segundo a qual o país deveria “ampliar a sua presença” na bacia do Cáspio, à medida em que são construídos novos oleodutos entre o Oriente e o Ocidente através daquela região. O atentado de 11 de setembro de 2001 ofereceu ao presidente George W. Bush as condições políticas para uma intervenção em grande escala naquela região, incluindo a invasão do Afeganistão (em outubro de 2001) e do Iraque (em março de 2003).
A mesma estratégia fez com que a Casa Branca estimulasse e, em certa medida, ajudasse a organizar a recente troca de regimes em países integrantes da Comunidade de Estados Independentes (CEI): Geórgia (novembro, 2003), Ucrânia (novembro, 2004), Quirguistão (março, 2005), além das grandes manifestações de maio, no Uzbequistão.
A estratégia americana parece desenhar um anel em torno da Rússia e ao redor da bacia do Cáspio.
Uma primeira suposição seria a de que Washington promove a subversão de regimes considerados hostis, como fez tantas vezes no passado. Mas, desta vez, a questão é mais complicada: os governos que caíram eram aliados, e não inimigos dos Estados Unidos. Eduard Shevardnadze, que chefiava o governo deposto da Geórgia, abriu o seu país a assessores militares americanos. Ascar Acaiev, o líder deposto no Quirguistão, permitiu a instalação de bases militares americanas em seu território. Leonid Kuchma, o perdedor na Ucrânia, enviou tropas ao Iraque, a pedido de Bush. Islam Karimov, presidente do Uzbequistão, é considerado quase um representante da Casa Branca na Ásia Central. Como explicar, então, o comportamento aparentemente contraditório do governo Bush?
A explicação radica no amadurecimento da doutrina da “guerra preventiva”, anunciada por Bush, logo após os atentados de 11 de setembro. A “guerra preventiva” abriu aos Estados Unidos a possibilidade de atacar qualquer país, região ou grupo considerado uma ameaça potencial à sua segurança nacional. Esse conceito já foi superado por outro, bem mais agressivo e abrangente: o da “difusão da liberdade”, anunciado pelo próprio Bush em seu discurso de posse do segundo mandato.
Bush atribui aos Estados Unidos o direito de agir militarmente em qualquer parte do planeta, mesmo em situações onde não ocorram guerras e conflitos, assim como o direito de promover “mudanças de regime” em nome da “liberdade”. Não basta a um governo alinhar-se politicamente a Washington. Além disso, ele deve aderir aos regimes globais de proteção das “liberdades econômicas” definidas segundo a cartilha dos Estados Unidos.
Os regimes que não se enquadram nesse figurino correm o risco de serem submetidos à “reforma do mundo” na qual se engaja o governo Bush. Torna-se compreensível, nesse quadro, a derrubada dos regimes instáveis em países estratégicos da CEI.
A nova doutrina prevê também que Washington deve “convencer” a Rússia, e agora também a China, a abandonar qualquer pretensão de competir militarmente com os Estados Unidos. Com esse fim, a indústria bélica deve constituir um poderio tão esmagador que tornaria ridículo sequer alimentar a idéia de um enfrentamento. Este é o fundamento do gigantesco orçamento militar dos Estados Unidos, que em 2005 atingiu cifra equiparável ao PIB brasileiro. Mesmo assim, o crescimento extraordinário da economia chinesa poderá lhe garantir, em algumas décadas, uma capacitação econômica e tecnológica comparável à dos Estados Unidos, caso não haja nenhuma catástrofe no meio do caminho.
São tempos sombrios, desenhos incertos.
Boletim Mundo n° 4 Ano 13

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