Elaine Senise Barbosa
No final do século XI, os turcos, recém-convertidos ao Islamismo, avançavam rapidamente sobre as terras cristãs do Império Bizantino.Tal fato levou o imperador Aleixo I a pedir ajuda ao Papa Urbano II, que viu aí a oportunidade para resolver vários problemas que assolavam a Europa: a guerra contra os “infiéis” era uma Guerra Santa que dizia respeito a todos os cristãos e cuja vitória possibilitaria a ocupação das terras do inimigo e a conquista de muitas riquezas (exatamente no momento em que a sociedade feudal entrava numa crise provocada pela escassez de terras para a nobreza). A guerra também daria ao Papado a chance de reunificar a Cristandade pelo avassalamento do Império Bizantino, do qual estava separado desde o Cisma do Oriente, em 1054, quando o Patriarca grego recusou-se a aceitar o dogma da infalibilidade (e, portanto, superioridade) dos Papas.
Então, o papa Urbano II convocou os cristãos para lutar: “Que aqueles que até agora se dedicaram injustificadamente a guerras particulares contra os fiéis partam em combate aos infiéis. Que aqueles que por muito tempo foram assaltantes se tornem agora cavaleiros. (...) Com quais castigos nos esmagará o Senhor, se não auxiliarmos aqueles que, como nós, professam a religião cristã!”
O resultado imediato é descrito por um contemporâneo: “Ladrões, piratas e outros celerados surgiam das profundezas da iniquidade e, tocados pelo Espírito de Deus, confessavam seus crimes e, arrependendo-se deles, partiam para a Cruzada a fim de satisfazer Deus por causa dos seus pecados.” (Orderic Vital, Historia Eclesiástica)
Outro cronista relata: “As intenções destas várias pessoas eram diferentes. Algumas, na realidade, ávidas de novidades, iam para saber coisas novas sobre as terras. Outras eram levadas pela pobreza, por estarem em situação difícil na sua casa... Houve os que estavam oprimidos por dívidas para com outros, ou que desejavam fugir ao serviço devido aos seus senhores, ou que estavam mesmo esperando o castigo merecido pelas suas infâmias”. (Annales Herpibolenses).
O chamado à missão religiosa tocou fundo as pessoas comuns, mas a primeira expedição, empreendida por uma multidão de miseráveis, foi dizimada pelas forças turcas. Esse fato mostrou a necessidade da nobreza e da Igreja assumirem a organização da luta. A partir de então ocorreram oito Cruzadas oficiais, entre 1095 e 1270, com resultados variados. Logo na Primeira Cruzada ocorreu a conquista de Jerusalém, em julho de 1099, após grande carnificina que matou indistintamente muçulmanos, judeus e cristãos ortodoxos. A vitória trouxe grandes riquezas aos combatentes e reforçou a convicção da missão divina, estimulando a organização de novas expedições e o avanço cristão até as terras do Egito.
Os árabes também tiveram seu quinhão de responsabilidade pelo desastre. A sociedade islâmica encontrava-se, à época, internamente dividida pelas disputa de poder entre as dinastias locais e o Califado de Bagdá, do qual preferiam manterem-se distantes e independentes, fato que facilitou imensamente o avanço dos cruzados, pois cada cidade árabe tentava seu próprio acordo com os cristãos, oferecendo-lhes toda a sorte de presentes, o que só fazia aumentar a cobiça dos europeus.
Felizmente, para os muçulmanos, os cristãos também não primavam pela unidade, e não demorou para que os líderes das expedições começassem a brigar entre si pelas terras e riquezas, enquanto do outro lado emergia uma nova liderança, capaz de unir o Islã contra os cruzados: Saladino, que retomou Jerusalém em 1187.
No princípio do século XIII, o movimento cruzadista começou a perder força, tornando-se cada vez mais difícil obter recursos para financiar novas expedições. Para a Quarta Cruzada os nobres fizeram um acordo com o governo de Veneza, pelo qual este forneceria as embarcações para o transporte das tropas em troca do ataque à Constantinopla, a velha capital bizantina, que foi pilhada e incendiada. As campanhas seguintes assistiram à perda progressiva dos territórios conquistados e ao resfriamento do ímpeto conquistador.
Mas as Cruzadas tiveram importantíssimos efeitos sobre a sociedade feudal, para além da reabertura do Mediterrâneo e do impulso ao renascimento comercial e urbano que os livros didáticos costumam destacar. As Cruzadas foram um fenômeno aberto a qualquer pessoa, e não exclusivamente aos nobres.
Com as bênçãos da Igreja, todos se uniam sob o mesmo ideal cristão. Pela primeira vez as pessoas rompiam com seus estreitos horizontes - familiares, senhoriais, geográficos - e ingressavam numa coletividade muitíssimo mais ampla: a palavra Cristandade adquiria consistência na mente de cada indivíduo.
Sob a liderança da Igreja Católica, que no século XIII conheceria o apogeu do seu poder, tomava corpo a idéia de civilização européia, que, num sentido mais cultural que geográfico, identificava-se pela liderança dos papas em Roma e pela ideologia que fazia dos católicos o povo escolhido por Deus para ocupar e dominar as terras da Europa.
História e Cultura n° 3 Ano 1
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