quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O totalitarismo e a tragédia do ser

(Jayme Brener)

“A morte de uma pessoa é uma tragédia. Dez pessoas mortas: isso é uma catástrofe. A morte de um milhão de pessoas é apenas um número.”
A frase foi dita pelo oficial SS Adolf Eichmann, um dos arquitetos da “solução final”, o plano nazista de exterminar os judeus da Europa, durante seu julgamento em Israel, no início dos anos 60. A afirmação é chocante, claro. Mas ela contém uma verdade: o grande público só consegue viver a profundidade de uma tragédia quando ela é individualizada – tem cara, chora, geme... Isso explica um pouco porque muitas vezes nos emocionamos com o drama de uma mãe que perde seu filho e não prestamos maior atenção a uma epidemia que varre a África.
Isso também explica o interesse pelos diários publicados após a Segunda Guerra Mundial, dando rosto, cor e sentido individuais a tragédias coletivas. O mais conhecido é o diário de Anne Frank, que narra o cotidiano de duas famílias judias, escondidas em um sótão em Amsterdã, Holanda. O caderno de Anne foi encontrado depois da guerra pelo pai, Otto Frank, único sobrevivente – a família foi denunciada aos nazistas, provavelmente por vizinhos.
Outro diário importante foi escrito pelo historiador judeu Emanuel Ringelblum. Nascido na Polônia, ele vivia seguro na Argentina, mas resolveu voltar para testemunhar o que ocorria no gueto, o bairro onde os judeus viviam trancafiados em Varsóvia.
Ringelblum foi morto durante a guerra e seus escritos foram descobertos em uma lata de lixo, apenas após o fim do conflito.
Recentemente, foram publicados os diários de Victor Klemperer. Irmão de Otto Klemperer, ex-regente da Orquestra Filarmônica de Berlim, Victor acreditava estar seguro por ser casado com uma não judia, de família bastante influente na Alemanha.
Em seu diário ele narra a convivência complicada em uma sociedade que conhecia sua origem judaica.
Victor Klemperer foi um dos 198 judeus sobreviventes encontrados no momento da libertação da cidade de Dresden, em 1945.

História e Cultura n° 3 Ano 1

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