sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

BERLIM EM CIMA DO MURO

Fui surpreendido pela história numa noite fria e chuvosa, a dois dias do natal de 1989. Visitava Berlim pela primeira vez, após ter passado algumas semanas estudando alemão perto de Munique. Hospedado no albergue da juventude (ah, lá se vão os anos!), acordei no meio da noite com os gritos de um colega panamenho, anunciando (em espanhol!) que enormes guindastes estavam retirando pedaços de concreto do famoso muro que, desde 1961, transformara a cidade em símbolo da Guerra Fria. Em poucos minutos a notícia se espalhou e dezenas de turistas se misturaram aos incrédulos alemães que caminhavam, ordeiramente, em direção aos postos de controle e ao Portão de Brandenburgo.
No lado oriental, a festa era bem mais animada, mas a polícia ainda bloqueava o livre acesso ao lado ocidental, que desde o famoso 9 de novembro daquele ano – o dia da queda do Muro de Berlim – podia ser visitado durante o dia. Logo ao amanhecer, alguns turistas desavisados resolveram escalar o muro, sob o olhar espantado dos guardas de ambos os lados. Em poucos minutos, uma multidão dançava e cantava lá em cima, encorajando os alemães orientais a fazer o mesmo. No chão da praça, algumas garrafas vazias de Sekt (uma espécie de champanhe alemão) e cerveja mostravam que a festa estava apenas começando.
Escalar o muro, que tinha mais de três metros de altura, não foi fácil. Um holandês, já bêbado, serviu de escada, enquanto um americano me puxou pelas mãos, até que uma saraivada de aplausos coroou o sucesso de mais um estrangeiro em cima do muro. Os guardas tentavam manter a seriedade, mas já se divertiam com o absurdo da situação, que certamente havia fugido ao controle. Outros turistas, animados com o potencial de lucro daquele grande dia, martelavam a base do muro, para retirar pedaços de pedra como lembrança, enquanto jornalistas de todo o mundo entravam no ar ao vivo, debaixo dos guarda-chuvas. “A história é feita pelos turistas”, pensei, enquanto ajudava algumas alemãs a pular para a grama enlameada do parque ao lado.
A festa durou dois dias, e no natal daquele ano uma multidão se reuniu no portão de Brandenburgo, agora aberto definitivamente, para observar os telões que transmitiam a Nona Sinfonia, regida por Leonard Bernstein, na Schauspielhaus.
Os conhecidos versos do poeta alemão Friedrich Schiller, no quarto movimento da sinfonia de Beethoven, traziam uma significativa modificação: em lugar da “Ode à alegria (Freude)”, cantava-se uma ode à liberdade (Freiheit).
Voltei à cidade em janeiro de 2005, agora como professor convidado da Universidade Livre de Berlim. No lugar do muro, uma marca no chão lembra a história, em meio aos modernos arranha-ceús  que ocupam o centro, ainda repleto de canteiros de obras. A neve se acumula sobre o gigantesco teto transparente do Sony Center, enquanto uma amiga me mostra, orgulhosa, a arquitetura pós-moderna das novas embaixadas, construídas desde que Berlim retomou sua condição de capital de uma Alemanha unificada. Nas estações do metrô, cartazes da organização judaica Shoah lembram, de maneira impiedosa, o horror do Holocausto.
Mendigos vendem jornais nos trens, enquanto a principal revista de cultura traz, na capa, uma matéria sobre a crise do emprego. Ainda em cartaz, o filme “Adeus, Lênin” (assista-o!) invoca o passado recente, e o peso da história se espalha sem muros por uma cidade ainda dividida, agora entre ricos e pobres, como tantas no mundo.

Boletim Mundo n° 3 Ano 13

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