quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

OPERAÇÃO FUTEBÓLITCH

Oligarcas que fizeram fortuna na privatização suspeita das estatais russas estendem seu Império ao mundo do futebol e chegam ao Brasil a bordo do Corinthians.

Se existe um esporte realmente globalizado, ele é o futebol.
Paixão mundial, o futebol atravessou, recentemente, a última fronteira: tornou-se o esporte mais popular também nos Estados Unidos – só que entre as mulheres. Os garotos continuam preferindo o basquete ou o insosso beisebol.
Com os grandes campeonatos movimentando seleções e clubes milionários, no mundo inteiro, é lógico que o futebol tenha se transformado em fonte de poder e de negócios suspeitos. Aqui no Brasil, o futebol construiu inúmeras carreiras políticas – como a do ex-deputado federal Eurico Miranda, o poderoso “cartola” do Vasco da Gama carioca. O fato de presidentes de clubes se perpetuarem no poder faz supor que haja muito dinheiro correndo, principalmente com a transferência de jogadores para o exterior.
O próprio treinador Wanderlei Luxemburgo, que esteve à frente da seleção brasileira e hoje dirige a equipe do Real Madrid, na Espanha, foi acusado de convocar para o time verde-amarelo jogadores  medíocres. Qual seria o objetivo? Valorizar seus passes e ganhar gordas comissões na venda desses jogadores a clubes estrangeiros. E uma pequena empresa, a Traffic, que nasceu para comercializar espaço nas placas de publicidade dos estádios, transformou-se em um verdadeiro império – que hoje inclui diversas emissoras de TV no interior paulista –graças às ligações, digamos, muito íntimas com o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, e com seu protetor, João Havelange, ex-presidente da Federação Internacional, a FIFA.
Mas tudo isso é brincadeira de criança, quando comparado com a operação internacional liderada por oligarcas da ex-União Soviética que vem abocanhando uma fatia cada vez maior do futebol mundial. Eles já chegaram ao Brasil via Corinthians, o segundo time mais popular do país e o mais querido em São Paulo, que foi engolido pelos milhões de dólares de um obscuro jovem de origem iraniana, Kia Joorabchian, ao que tudo indica o testa-de-ferro de um dos mais gelatinosos polvos da oligarquia russa, o biliardário Boris Berezovski.

RECICLAGEM DOS MAFIOSOS
Berezovski faz parte de um punhado de espertinhos que, à custa de sua influência no aparato do ex-Partido Comunista Soviético, conseguiu comprar “pedaços” lucrativos da velha economia estatal, pagando uma ninharia nos suspeitos processos de privatização ocorridos na década de 90.
Matemático de fama internacional, ex-dirigente da montadora estatal de veículos Lada, Berezovski ganhou força ao apoiar a reeleição do ex-presidente russo Boris Yeltsin, em 1996, injetando milhões de dólares quando a candidatura andava mal das pernas. Essas conexões lhe permitiram adquirir a antiga estatal de aviação Aeroflot, companhias de petróleo e uma ampla rede de comunicação que incluía uma cadeia de TV e os jornais Nezavizmaia Gazeta e Kommersant. Tão poderoso era Berezovski que obteve uma nomeação de primeiro-ministro e gabava-se de ter insuflado a rebelião na ex-república da Chechênia, por conta de seus interesses nos recursos naturais da região.
Embora tenha apoiado a candidatura do atual presidente Vladimir Putin, em 1999, Berezovski caiu em desgraça porque o mandatário decidiu reduzir o poder das oligarquias, em um processo de reconstrução da autoridade estatal. Berezovski foi humilhado, perdeu muitos de seus negócios e decidiu zarpar para a Grã-Bretanha.
Lá, começou a interessar-se pelo futebol, como outro oligarca exilado, Roman Abramovich, dono de uma fortuna superior a US$ 13 bilhões, e que controla hoje o Chelsea, um dos líderes do campeonato britânico, além do popular CSKA, de Moscou.
Em Londres, Berezovski aproximou-se de Kia Joorabchian, que desenvolveu sólida carreira como testa de-ferro de poderosos em negócios polêmicos. Kia desembarcou no Brasil há poucos meses e, aproveitando o desespero da diretoria do Corinthians com uma dívida superior a R$ 50 milhões, literalmente comprou o clube.
Despejou no Timão mais de R$ 100 milhões para a compra de craques como os argentinos Tevez, Mascherano e Sebá, além do carioca Roger, que andava em Portugal. O dinheiro, ao que tudo indica, veio da carteira sem fundo de Berezovski.

DE OLHO NO APOIO POPULAR
No momento em que este artigo é escrito, o Corinthians Futebólitch começa a apresentar bons resultados.
E ficam no ar duas grandes questões. A primeira: por que o interesse dos antigos oligarcas no futebol?
Acontece que o esporte mais popular do mundo dá aos oligarcas uma visibilidade e uma simpatia popular que nunca tiveram (os bicheiros cariocas não se tornaram heróis populares ao financiarem as escolas de samba?).
E, sabe como é, um dólar puxa outro dólar. A fortuna de Berezovski e seus amigos está sendo aplicada na montagem de super times, que formam grandes jogadores a cada ano. A maior visibilidade deve multiplicar os valores de transferências, assim como as verbas levantadas com propaganda, transmissões etc. O esporte mais popular é, acima de tudo, um grande negócio.
A segunda: com tantos indícios de jogo sujo, como é que não se conseguiu provar nada que impedisse Kia/ Berezovski de avançar no campo do futebol brasileiro?
Optamos por duas respostas: a fortuna investida no Corinthians “convenceu” muita gente e garantiu a simpatia de grande parte de uma torcida estimada em 17 milhões de pessoas. Além disso, quem procura uma simples “lavagem” de dinheiro na operação Corinthians não deve encontrar nada. A grande safadeza esteve na privatização das estatais da ex-URSS, lá atrás. O dinheiro dos antigos oligarcas, hoje, passa por bancos registrados, com todas as notas fiscais, impostos e carimbos. Os velhos mafiosos russos botaram terno e gravata e se transformaram em respeitáveis “businessmen”.

O caso da vodka
O Estado russo enfrenta um longo combate judicial para recuperar uma das marcas mais conhecidas em todo o mundo: a vodka Stolichnaya.
Tudo começou com a desintegração da ex-União Soviética, onde a produção de vodka era monopólio do Estado (e o povo produzia a sua própria “vodka” na banheira de casa). Naquela época, ex-dirigentes espertalhões das estatais do álcool conseguiram “convencer” um juiz de um obscuro tribunal do sul da Rússia a dar-lhes um parecer favorável, que permitiu o registro privado da marca Stolichnaya.
Foi o suficiente para que “privatizassem” a vodka conhecida em todo o mundo. Trataram então de alugar uma fabriqueta, produzir o elixir divino e então exportá-lo. Ganharam muito dinheiro até que o Estado russo conseguisse reagir. Anos depois, a Ostalco, multinacional russa credenciada pelo Estado, obteve decisões que a reconhecem como a única empresa autorizada a produzir e exportar a Stolichnaya. Mesmo assim, os espertinhos produzem a “sua” Stolichnaya pirata. E nem sempre o consumidor sabe o que está comprando.
Em tempo: a Ostalco foi a primeira empresa russa a montar uma fábrica – de vodka, é claro – no Brasil. Mais especificamente, no bairro carioca de Campo Grande.

Boletim Mundo n° 2 Ano 13

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