Revolta ameríndia no altiplano e movimento separatista da elite de Santa Cruz ameaçam engolfar o país na guerra civil.
Newton CarlosUm ex-presidente boliviano, escorraçado do poder numa guerra civil, disse que na Bolívia “é preciso governar com um fuzil debaixo do braço”. A sede do governo chama-se palácio Quemado. Ele foi de fato incendiado num dos incontáveis golpes ao longo da turbulenta história do país andino montado em enormes riquezas naturais.
A Bolívia chegou a produzir 53% do estanho consumido no mundo. Bolivianos miseráveis tiravam das entranhas da terra, destroçando seus pulmões, a matéria-prima das naves espaciais. A família Patiño, dona de minas, chegou a ter a segunda maior fortuna do universo. O estanho da Bolívia era processado na Grã-Bretanha. Agora, é a “guerra do gás”, em torno do controle nacional sobre a segunda maior reserva da América Latina.Entre os mineiros do estanho, a expectativa de vida era de 38 anos. O índice de tuberculose, de 60%. Em 1952, a Bolívia foi cenário da segunda revolução social mais importante do continente, atrás apenas da Revolução Mexicana. Tornou-se, no entanto, uma “revolução esquecida”.
Foram três dias e noites de combates nas encostas de La Paz, com mil mortos e quase dois mil feridos. Milícias operárias, constituídas de mineiros, invadiram quartéis, se apoderaram de fuzis, transformaram em armas bananas de dinamite usadas nas minas e derrotaram os militares.
O Exército boliviano acabou dissolvido.
O Movimento Nacional Revolucionário (MNR) e seu candidato presidencial, Victor Paz Estenssoro, assumiram o poder à força, depois de ganhar eleições, com um discurso fortemente nacionalista, e encarar um bloqueio golpista da “rosca”, a velha oligarquia da mineração.
Em 1952, ao lado da COB, a central operária boliviana, o MNR adotou um duplo objetivo: nacionalização das minas e reforma agrária, fortes trunfos eleitorais e depois bandeiras da revolução triunfante.
Mas sobreveio a “restauração”. Num segundo mandato, entre 1960 e 1964, Estenssoro “reabilitou” o Exército, com ajuda dos Estados Unidos, e terminou vítima de uma nova geração de generais.
Depois de golpes e contra-golpes militares, a “restauração” retomou seu curso com a ditadura do general Hugo Banzer (1971-78). Houve, em seguida, uma associação de generais com máfias das drogas e, em 1985, Estenssoro iniciou uma terceira presidência. “As causas da crise estão no pseudo-socialismo de 1952”, dizia a Confederação dos Empresários, tratando de conseguir com que se completasse a ruptura com o passado revolucionário. Entrou em cena Gonzalo Sanches de Lozada, um dos poucos milionários da Bolívia, com um espanhol carregado, fruto de longa estada acadêmica nos Estados Unidos.
Lozada ocupou o ministério das Finanças do governo do velho Estenssoro e entregou-se de corpo e alma ao receituário do FMI. A venda da estatal de petróleo completou o processo de privatizações. As minas privatizadas, fechadas ou mecanizadas, reduziram a classe dos mineiros a uma fração do que tinha sido. Só ficou faltando o gás. A hiperinflação de 25.000% foi domada – e isso deu a Lozada o capital político com o qual ele se elegeu presidente.
Mas, num segundo mandato, iniciado em 2002, as questões sociais ficaram insuportáveis e Lozada renunciou em meio a uma revolta popular. Não se trata só da “guerra do gás”, o pesadelo de Carlos Mesa, o vice de Lozada que assumiu após a revolta de 2003. Os camponeses querem mais reforma agrária; os velhos, melhores aposentadorias; os trabalhadores, melhores salários. Discursos de resgate das “teses” da revolução de 1952 partem do Movimento ao Socialismo, legenda de Evo Morales, cujo projeto é ser o primeiro presidente indígena da Bolívia.
Ficou em segundo na eleições de 2002, comandou a rebelião contra Sanchez de Lozada e, de imediato, quer regras que Mesa considera inaceitáveis para investidores na exploração do gás.
Também lidera os “cocaleros”, plantadores da folha de coca, tão popular na Bolívia quanto o chá entre ingleses.
Não são aceitos os programas de erradicação financiados pelos americanos, assustados com a idéia de um narco-socialismo.
Os povos indígenas (quechuas e aimarás) representam 80% da população boliviana, não os 62% oficiais, segundo Morales. O fato é que, também contabilizando mestiços, sobram não mais de 15% para os brancos, herdeiros da coroa espanhola.
A legião majoritária conseguiu o direito de votar na revolução de 1952, o que não se traduziu em inclusão social. Ela está cada vez mais mobilizada, em função da conquista do poder. Para Morales, seu intérprete, é mera questão plebiscitária.
“Vamos refundar a Bolívia, mudar o sistema político e o modelo econômico”, disse Morales ao Le Monde. Nos Estados Unidos isso é examinado no contexto de estudos sobre a incapacidade de “Estados fracos” em preservar a integridade nacional.
Se indígenas do altiplano e brancos das terras baixas tomam rumos diferentes, o continente presenciaria a maior turbulência geopolítica desde o século XIX.
É o aviso contido em estudos americanos.
Existe de fato ameaça de racha profundo na Bolívia . O grito autonomista de Santa Cruz de la Sierra é mais um passo na escalada separatista. Um comitê cívico, que representa o empresariado de Santa Cruz, ameaça partir para um referendo e a eleição de um governo autônomo. La Paz prometeu, sob pressão, dar voz às urnas em junho. Um “cabildo” (assembléia) instalou-se em Santa Cruz em meio a gritos de “viva a autonomia” e “centralismo nunca mais”.
Santa Cruz é a capital econômica da Bolívia. Nos últimos anos foi responsável por 50% do PIB. Em sua área, encontram-se 60% dos poços de petróleo e 90% da indústria. Comanda as exportações agrícolas.
O certo, afirma Zvonko Matkovic, da Câmara de Indústria e Comércio, seria separar-se “pura e simplesmente”.
Boletim Mundo n° 3 Ano 13
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