quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

BOLA NA TRAVE EM CHANTILLY

José Arbex Júnior

Eu errei ao tratar com a imprensa. É que não entendi onde eu estava. Minha vida, antes, era restrita aos circuitos da moda e da televisão em São Paulo e no Brasil. Mas lá em Paris, de repente, eu estava no centro de um acontecimento mundial. O Ronaldo é uma personalidade mundial, e eu não tinha entendido isso. Se tivesse consciência disso, teria agido de modo diferente. Não teria divulgado a data de meu casamento, teria mantido a imprensa distante. Nós  queríamos uma cerimônia íntima, com 250 amigos e familiares convidados, não queríamos causar nenhuma repercussão.”
O desabafo da modelo e apresentadora de televisão Daniela Cicarelli, feito durante um programa televisivo dominical de variedades, no dia 27 de fevereiro, ajuda a entender alguns aspectos fundamentais do mundo globalizado.
Cicarelli se referia, no caso, ao grande escândalo provocado por seu comportamento durante a festa de seu casamento com o craque Ronaldinho, do Real Madri, realizado uma semana antes, no tradicional castelo francês de Chantilly, subúrbio de Paris. Não importa, aqui, a fofoca, mas sim a constatação feita pela modelo: seu marido é um personagem mundial. Isso diz muito sobre a cultura e os valores cultivados pela mídia contemporânea.
Ronaldinho é mesmo uma personalidade mundial.
Seu rosto e nome são reconhecidos por milhões, talvez bilhões de pessoas, de executivos de Nova York a guerrilheiros  em Bagdá, de amazônidas brasileiros às “tribos” jovens de Tóquio. Como explicar tamanha popularidade, apenas equiparável à conquistada por Pelé, considerado o “atleta do século 20”?
Primeiro, ela tem a ver com o futebol como esporte das multidões, qualificado pelo historiador Eric Hobsbawn como “a religião laica de nosso tempo”. O futebol exerce um fascínio tão intenso por apelar aos instintos mais básicos, mais primários do ser humano: aqueles que solicitam o movimento dos pés.
A antropologia mostra que movemos os nossos pés hoje mais ou menos como fazíamos há 4 milhões de anos, ao passo que o uso das mãos passou por uma extraordinária evolução, determinada pelo avanço tecnológico. Em outros termos, o uso das mãos é muito mais mediado pela cultura do que o movimento dos pés, diretamente vinculado ao “ser primitivo” que dorme em cada um de nós.
Por essa razão, a torcida é muito mais importante para o futebol do que para outros esportes que usam as mãos, como o basquete e o vôlei. No caso do futebol, os gritos da torcida são respondidos de forma quase que totalmente instintiva, como um corpo que toma um choque elétrico, ao passo que nas outras modalidades há muito mais distanciamento e controle cerebral.
É por isso, também, que os operários de Manchester e Liverpool, os grandes centros da revolução industrial, logo abraçaram o futebol como o seu esporte, no século 19.
Para eles, o movimento com as mãos era totalmente associado ao trabalho, à linha de produção, ao controle racional e cronometrado do movimento, ao passo que o futebol mexia com os seus membros “inúteis”, desprezados pela indústria, acentuando a sensação de um tempo lúdico.
Mas isso não explica tudo. Outros atletas foram tão bons ou melhores que Ronaldinho, e não conseguiram projeção equiparável. Entre eles, o grande Mané Garrincha, eterno marido e amante da cantora Elza Soares.
Sim, Garrincha era um ídolo. Chegou a conquistar grande popularidade no Brasil e um certo reconhecimento internacional, mas nunca moveu interesses que chegavam aos bilhões de dólares; nunca teve um contrato que sequer se aproximasse longinquamente das dezenas de milhões pagos a Ronaldinho.
A diferença, no caso, é o circuito de valores culturais movimentado  e comercializado pela mídia mundial, do qual Ronaldinho é símbolo. Como Pelé e Garrincha, ele nasceu pobre, morou em favela, abriu o seu próprio caminho graças à extraordinária habilidade com os pés. Mas, como Pelé e diferentemente de Garrincha, ele vive em uma época onde tudo isso é quantificado em dinheiro, como valor simbólico.
Ronaldinho, como Pelé, soube cultivar a imagem do self made man, a “prova viva” de que se você tiver força de vontade você “chega lá” (por isso, até mesmo a recuperação de seu joelho machucado acabou virando espetáculo, durante a Copa de 2002). Melhor ainda: Ronaldinho, como Pelé, e ao contrário de Garrincha (ou de Maradona, para citar um não brasileiro), é bem comportado. Não bebe, não usa drogas, é disciplinado, e, também como Pelé, é embaixador da Unicef (órgão da ONU para auxílios às crianças pobres do mundo). O que mais se pode exigir de alguém?
No mundo contemporâneo, quando todas as referências estão em crise (incluindo as religiosas, as ideológicas e mesmo as científicas, graças à revolução permanente das tecnologias), símbolos como Ronaldinho acabam assumindo um papel que transcende completamente os limites do gramado. Viram padrões de comportamento, referências de vida e, claro, marca de produtos. Claro que isso também pode ser dito de cantores, atores de Hollywood etc. Mas o futebol tem essa particularidade, de apelar com força única aos impulsos mais instintivos das massas. Só o futebol faz isso.
Daniela Cicarelli casou-se, portanto, com uma instituição do mundo globalizado. O problema é que instituições não têm vida privada, pois cada um de seus gestos pode valer uma fortuna no circuito espetacular da mídia.
Conhecedora e grande mestra desse mecanismo, a cantora Madonna disse certa vez, ao visitar a Espanha, que gostaria de ter um caso com Antonio Banderas; e que essa simples declaração era um presente que ela dava ao, então, relativamente desconhecido ator, pois teria o efeito de aumentar em milhões o seu cachê. Gol de placa!

História e Cultura n° 2 Ano 1

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