quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Dois tristes trens: a febre das ferrovias

Na Inglaterra de meados do século dezenove, as ferrovias eram um dos símbolos da força do país. Além de serem úteis para os comerciantes e produtores de algodão e carvão, a própria construção da malha ferroviária foi um enorme estímulo para a economia nacional. Para executar essa gigantesca rede de transporte foram necessárias matéria-prima e mão-de-obra numa escala que enchia de orgulho o poder imperial inglês. Por outro lado, várias ondas de especulação financeira se aproveitaram desse rápido fator de crescimento econômico. Como conseqüência disso, o investimento em ferrovias e até mesmo a idéia de progresso passaram a ser vistos com crescente desconfiança.
Pouco mais de meio de século depois, saindo da chuva e neblina inglesas e entrando na umidade e no calor amazônicos, encontraremos mais uma vez os trilhos de ferro no centro de um  cenário em que as promessas da civilização trazem consigo fracasso e destruição. Logo após o Tratado de Petrópolis, assinado por Brasil e Bolívia em 1903, o governo brasileiro assumiu o compromisso de construir a estrada de ferro Madeira-Mamoré, que iria do Mato Grosso até a Bolívia.
Mas aquilo que, em princípio, parecia ser uma nova frente de desenvolvimento acabou por se revelar um empreendimento com enormes custos humanos e materiais.
Dois diferentes países em dois momentos históricos distintos: existiriam afinidades entre estas situações?
Seria possível estabelecer algum tipo de ligação entre eventos aparentemente tão distantes?
Como a literatura sempre nos ajuda em nossa compreensão histórica, talvez possamos utilizar dois romances para tentar responder a essas questões. Tanto o inglês Charles Dickens quanto o brasileiro Marcio Souza criaram romances em que as ferrovias são quase que personagens na trama.
Em Dombey e Filho (1846-8), o escritor inglês narra os sofrimentos e desventuras de um grande homem de negócios na Inglaterra das estradas de ferro. O maior objetivo de Mr. Dombey é ter um herdeiro para dar continuidade a sua empresa. Seu filho mais novo, Paul, morre ainda criança e Mr. Dombey despreza sua filha mais velha, Florence. Em sua determinação, não consegue ver que, na verdade, ela era a grande força que tinha a seu lado. Após casamentos desfeitos, arruinado financeiramente, abandonado por tudo e por todos, Mr. Dombey é finalmente salvo pela solidariedade e compaixão de sua filha.
Embora as ferrovias façam parte do panorama histórico em que é ambientado o enredo, sua presença não surge de maneira contínua.
Sua importância se revela nos detalhes. Quando, por exemplo, Mr. Dombey faz uma viagem de trem logo após a morte de seu filho, o leitor percebe que nessa passagem estão ilustradas todas as esperanças e frustrações que marcam o declínio do personagem. Os pensamentos de Mr Dombey sofrem a influência do ritmo do trem, e sua tristeza se entrelaça com o novo andamento do tempo histórico.
O romance Mad Maria (1980), de Marcio Souza, retrata as vidas das pessoas que trabalharam na etapa final da construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Ao lado de personagens fictícios, aparecem personagens reais, como o empresário norte-americano Percival Farqhuar, proprietário da Madeira-Mamoré Railway Company, homem ambicioso e de bons relacionamentos com o poder político brasileiro. Desde o jovem médico irlandês Finnegan até o engenheiro inglês Collier, passando pelos inúmeros trabalhadores de diferentes nacionalidades, todos são envolvidos num rastro de insanidade, em que a ferrovia, que “ligava o nada a parte alguma”, sacrifica vidas e sonhos.
Ao retratar a luta para domar a selva, o livro ressalta o embrutecimento e a ganância sem limites. Nesse contexto de violência extrema, a personagem Consuelo, uma pianista boliviana, parece oferecer certo contraste. Sua presença, assim como sua música, serve como uma lembrança do esclarecimento e do discernimento em meio à barbárie.
Mas, mesmo assim, poucos saem ilesos, e a verdadeira selva surge como a atividade humana movida por ganhos e lucros a qualquer preço.
Tanto em Dombey e Filho quanto em Mad Maria as locomotivas representam as forças ambíguas do progresso e do domínio do homem sobre a natureza. Na Inglaterra do século dezenove, as ferrovias eram vistas ora como gigantes salvadores, ora como monstros de ferro. No Brasil da primeira década do século vinte, a possibilidade de uma ferrovia em plena floresta parece ser um elemento de modernização, mas sua estranheza ou mesmo seu absurdo podem explicar os descompassos de nosso desenvolvimento.

História e Cultura n° 2 Ano 1

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