A Literatura, assim como as outras artes, renova-se constantemente ao incorporar, como tema e questão formal, os problemas mais significativos de cada época. Guerras, revoluções e eventos cruciais, tanto do ponto de vista político quanto social, foram sempre retratados em romances e contos. Mas no caso da lírica a relação é um pouco mais complicada. Afinal, esse gênero sempre foi caracterizado pela interioridade, pela presença de um Eu lírico para quem o mundo é antes de tudo um eco de sua emoção, em temas tradicionais como o amor ou a beleza.
No entanto, a poesia também trata da guerra. Não tanto pela descrição precisa de seu horror, apresentando personagens em um tempo e espaço claramente definidos (como faz a narrativa), mas configurando, em versos, o impacto das notícias e da experiência do conflito, o sentimento mais profundo do sofrimento, incapaz de ser transmitido com a mera enumeração de batalhas ou estatísticas de mortos e feridos.Em 6 de agosto de 1945, um avião bombardeiro americano lançou sobre a cidade de Hiroxima, no Japão, uma única bomba, denominada singelamente de “Little boy” (menininho). A destruição que se seguiu foi sem paralelo na história da humanidade, já tão marcada por eventos de destruição e morte. Nos primeiros dez minutos, mais de cem mil pessoas perderam a vida. E os que sobreviveram levavam no corpo e na alma as marcas da dor.
Três dias depois, uma segunda bomba atômica atingiu Nagasaki, causando uma destruição ainda mais espantosa.
Na semana seguinte, diante do impacto da nova arma, o Imperador japonês anunciou a seu povo o fim da guerra. O paradoxo estava configurado: a propaganda americana exaltava a arma que havia conseguido a paz, enquanto o mundo se perguntava o que viria depois, sem ainda ter a dimensão completa dos efeitos devastadores e das trágicas conseqüências da contaminação radioativa.
O impacto, sentido em todo o mundo, atingiu também um jovem poeta brasileiro, Vinicius de Moraes. No poema em três partes que traz o título “A bomba atômica”, Vinicius realiza uma difícil síntese poética, incorporando o tema de enorme violência a um lirismo inesperado nesse contexto. As duas epígrafes, colidindo, já explodem em contradição: “e = mc2” (Einstein), ao lado de “Deusa, visão dos céus que me domina .. tu que és mulher e nada mais!” (trecho de “Deusa”, valsa carioca).
A bomba aparece, na primeira parte, como imagem ainda não identificada, que corta os céus como uma interrogação:
“Dos céus descendo / Meu Deus eu vejo / De pára-quedas? / Uma coisa branca / Como uma forma / De estatuária (...) Talvez um seio / Despregado à lua / Talvez o anjo / Tutelar cadente / Talvez a Vênus / Nua, de clâmide / Talvez a inversa / Branca pirâmide / Do pensamento (...)”. Em seguida, o Eu lírico, em um descompasso que causa surpresa ao leitor, declara-se apaixonado pela bomba atômica, querendo aconchegá-la em seus braços, como uma amante.
A segunda parte do poema traz quatro estrofes em redondilha maior, métrica associada, na língua portuguesa, às melodias simples do verso popular. O tom novamente contrasta com o tema, atribuindo, desde o primeiro verso, qualidades humanas ao objeto desumano:
“A bomba atômica é triste / Coisa mais triste não há / Quando cai, cai sem vontade / Vem caindo devagar / Tão devagar vem caindo / Que dá tempo a um passarinho / De pousar nela e voar... / Coitada da bomba atômica / Que não gosta de matar!”.
O paradoxo discutido em 1945, uma arma que “mata a guerra”, assume a forma de uma “pomba atônita da paz”. A proximidade sonora entre “bomba atômica” e “pomba atônita” revela, na tênue mudança das consoantes no verso, o efeito catatônico que retrata poeticamente a tensão contida nesta “paz”, conseguida por meio da maior violência. É isso o que vemos na seqüência, um lamento inicial que entretanto termina em evocação:
“Nunca mais, oh, bomba atômica / Nunca, em tempo algum, jamais / Seja preciso que mates / Onde houve morte demais: / Fique apenas tua imagem / Aterradora miragem / Sobre as grandes catedrais: / Guarda de uma nova era / Arcanjo insigne da paz!”.
Por fim, a última parte, que traz o improvável verso “Bomba atômica, eu te amo!”, reconduzindo as imagens configuradas no poema ao embate erótico entre o Eu lírico e a forma feminina: “Que és mulher, que és mulher e nada mais!”. No desconforto do leitor, causado pela sucessão de elogios (“Que és mais linda, mais límpida e mais pura / que a estrela matutina! Oh bomba atômica”), o poema faz ressoar a angústia e perplexidade diante da destruição de Hiroxima e Nagasaki.
Em outro poema, que se tornou célebre em forma de canção, Vinícius de Moraes novamente causa espanto, ao aproximar um tema tradicional da lírica romântica, a rosa, à imagem e aos efeitos da bomba atômica. Em tom de lamento, o poema se dirige ao leitor: “Pensem nas crianças / Mudas telepáticas / Pensem nas mulheres / Cegas inexatas (...)”. A imagem poética da rosa se desdobra em sua semelhança com a forma da explosão. Esta “rosa da rosa”, “hereditária e radioativa”, é em seguida qualificada como a anti-rosa atômica: “Sem cor nem perfume / Sem rosa sem nada”. O ideal da beleza se apaga diante do horror, justamente por se afirmar como a ferida de uma lembrança. Assim, Vinicius consegue incorporar ao que há de mais frágil, a própria lírica, um tema de desmedido horror, transmitindo ao leitor a violência do que ocorreu, na esperança de que ela não se repita.
História e Cultura n° 3 Ano 1
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