Em 1939, ano marcado pelo início da Segunda Guerra, Carmem Miranda explicava a seus fãs, em uma entrevista concedida pouco antes do embarque para os Estados Unidos, as razões e a importância de sua viagem: “Eu quero que o americano conheça o samba, compreenda que não é rumba. Não vou esquecer a minha terra. Nem me americanizar”. Desde então, comenta a historiadora Ana Rita Mendonça em “Carmem Miranda foi a Washington” (Record, 1999), a imagem controvertida da “pequena notável”, dançando com seus exóticos turbantes de frutas tropicais, transformou-se em ícone moderno das discussões sobre a identidade nacional.
Essa personagem irreverente mas bem comportada, criada por uma artista branca de olhos verdes que sabia cantar e dançar o samba, atraiu a atenção dos responsáveis pela propaganda oficial do Estado Novo. Com seu esforço de modernização econômica e afirmação da identidade nacional, o governo de Getúlio Vargas estava interessado em difundir no exterior uma nova imagem do país: “Brasil das avenidas / Da praia de Copacabana e do asfalto / A tua gente branca e forte / Ninguém cantou ainda bem alto”.Logo em seu primeiro ano nos Estados Unidos, uma reportagem da revista New Yorker confirmava o novo papel de Carmem Miranda: “Seu sucesso popularizando canções, turbantes e sapatos sul-americanos nos Estados Unidos tem agradado ao Presidente Vargas do Brasil, um velho amigo, que sempre telefona para congratulá-la”.
É verdade que os norte-americanos também receberam Carmem de braços abertos, pois, com o início do confronto na Europa, a América Latina adquiria um papel estratégico fundamental, o que reforçava a importância da “política da boa vizinhança”, estratégia de aproximação econômica e cultural desenvolvida pelo Presidente Roosevelt desde meados da década de 1930. A criação, em 1940, do “Centro de coordenação de assuntos inter-americanos” (CIAA, em inglês), deu um significado ainda mais pragmático ao projeto, estimulando o ensino de inglês, patrocinando rádios e jornais pró-aliados e promovendo o intercâmbio de artistas e acadêmicos com toda a América Latina.
O Brasil, cortejado pelas potências do Eixo e ainda indeciso sobre sua participação na Guerra, tornou-se o destino de inúmeras dessas “viagens de amizade”, como as realizadas por Walt Disney e sua trupe de artistas em 1941. Nos filmes de animação Alô, amigos (1943) e Você já foi à Bahia? (1945), Disney exalta a natureza e o caráter dos “amigos latino-americanos”, encarnados em novos personagens, como o “simpático malandro” Zé Carioca, que apresenta o Rio de Janeiro e a Bahia ao Pato Donald.
Muito mais conhecida que os personagens de Disney, foi Carmem Miranda quem personificou, aos olhos do público norte-americano, o novo apelo da “South American Way”. Sua função foi logo reconhecida, como se vê neste texto de 1940, difundido por toda a imprensa: “Carmem Miranda está fadada a fazer mais pela solidificação das boas relações entre os Estados Unidos e a América do Sul do que os próprios diplomatas”. Pouco a pouco, e graças ao poder de Hollywood, Carmem se tornou “a política da boa vizinhança em pessoa”, com seus brilhos e balangandãs.
Mas, apesar de todo o esforço da propaganda oficial, preocupada em ressaltar a especificidade do Brasil na América Latina, a imagem que os norte-americanos tinham da região continuava preconceituosa e confusa. Carmem reforçou esse estereótipo geral, até certo ponto a contragosto, nos filmes em que participou, a começar por Down Argentine Way, de 1940. Daí em diante, seus personagens teriam os nomes espanholados de Rosita, Dorita ou Chiquita. Sempre em papéis subalternos, carregando um sotaque engraçado que a aproximava das comédias pastelão (para desespero dos que a viam como “representante da autêntica cultura brasileira nos Estados Unidos”), Carmem nunca era a opção final do galã protagonista, que acabava se casando com uma “típica” loura nativa.
Com o fim da guerra, a política de propaganda cultural dos Estados Unidos voltou-se para a Europa, ameaçada pelo “perigo vermelho”. Carmem, assim como toda a América Latina, perdeu espaço na indústria cultural norte-americana, e resolveu “reencontrar seus fiéis admiradores”.
Mas o que encontrou em sua chegada ao Brasil foi um acalorado debate nacional sobre sua suposta “traição”.
Irritada, ela ainda encontrou forças para responder às críticas com bom humor, nos versos de “Disseram que eu voltei americanizada”.
Deprimida e com sérios problemas de saúde, Carmem Miranda morreu em 1955, depois de voltar aos Estados Unidos.
Seu enterro no Rio de Janeiro, uma semana depois, mobilizou a cidade e a imprensa. Desde então, seu nome sempre suscita uma salada de sentimentos contraditórios. Caetano Veloso, em um artigo sobre a “cantora tutti-fruti”, identificou esse sentimento como um misto de orgulho e vergonha, provocado ainda hoje pela lembrança da “brazilian bombshell”, trágica musa da política da boa vizinhança.
História e Cultura n° 6 Ano 1
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