quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

HOTEL RUANDA E AS RAÍZES DO GENOCÍDIO

Demétrio Magnoli

Seis de abril de 1994, a véspera da assinatura do acordo de partilha do poder entre o governo hutu e os rebeldes tutsis da Frente Patriótica Ruandesa (FPR), tornou-se o dia mais terrível da história de Ruanda. O avião que transportava Juvenal Habyarimana, o presidente hutu, foi derrubado por um míssil. Há indícios de que extremistas hutus cometeram o atentado.
Mas o dedo acusador desses extremistas apontou para a FPR.
Então, num movimento que já estava ensaiado, as milícias hutus, com o apoio mais ou menos velado do exército, engajaram-se na matança. Durante cem noites, quase um milhão de tutsis, quatro quintos de todos os tutsis residentes em Ruanda, foram assassinados com facões.
A ONU retirou suas forças de paz do país e os diplomatas das grandes potências entregaram-se à discussão acadêmica sobre se o genocídio deveria ser denominado genocídio. O pesadelo terminou apenas em julho, quando as forças vitoriosas da FPR tomaram Kigali, a capital, e implantaram um novo regime.
O filme “Hotel Ruanda”, uma co-produção canadense, britânica, italiana e sul-africana, dirigido pelo irlandês Terry George (o roteirista de “Em Nome do Pai”), narra as cem “noites dos facões” a partir de um evento verídico: a história do hutu Paul Rusesabagina (interpretado por Don Cheadle), gerente de um sofisticado hotel belga de Kigali, que deu abrigo e salvou as vidas de 1.200 tutsis. Vencedor do prêmio de público do Festival de Toronto de 2004 e indicado a três prêmios Oscar, “Hotel Ruanda” chegou ao Brasil com um ano de atraso, o que diz o suficiente sobre nossos distribuidores e exibidores. O filme não é uma denúncia, mas uma reflexão sobre a fabricação histórica do ódio étnico.
Na época do genocídio, a mídia descreveu hutus e tutsis como etnias rivais, repetindo manuais históricos cujas fontes são as narrativas do poder colonial belga.
A Bélgica estabeleceu um protetorado sobre Ruanda em 1918. Encontrou uma sociedade tradicional, dividida entre uma elite de proprietários de rebanhos (tutsis) e a massa de camponeses (hutus). O governo colonial apoiou a sua administração sobre os tutsis. Seus historiadores e etnólogos trataram de produzir o passado dos dois grupos, “descobrindo” origens e migrações e “provando” que eram “etnias” ou “raças” diferentes. Os tutsis, na documentação “científica” belga, distinguiam-se por um porte elegante, pela altura e por narizes mais finos. Atrás da montagem, estava a ciência racista do século XIX.
Administrar é dominar. Dominar é classificar. O censo colonial registrou as populações tutsi e hutu. Em 1926, os belgas emitiram carteiras de identidade classificando cada ruandês como “hutu” ou “tutsi”, uma forma de conceder direitos maiores para os segundos, que formavam o funcionalismo público colonial. Com a independência, em 1961, o poder foi transferido para os hutus e seus líderes dedicaram-se a promover a “reparação histórica”.
O confisco de terras tradicionais tutsis provocou emigração e lançou as sementes da guerrilha da FPR, organizada em Uganda e no Burundi. O “poder hutu” estabeleceu cotas raciais nas universidades e no serviço público, marginalizando os tutsis. Os documentos de identidade dos tempos coloniais serviam à “revolução hutu”, como antes tinham servido para conservar os privilégios da minoria tutsi.
Ruanda ensina que a fabricação esta tal de “etnias” ou “raças” não depende sequer de diferenças na cor da pele. O genocídio prova que a invenção de fronteiras entre os cidadãos não é um ato fútil: as pessoas acabam acreditando na identidade que lhes foi atribuída pelo poder político. “Hotel Ruanda” é um filme indispensável.
Principalmente num país que começa a brincar de inventar raças, como é o caso do Brasil das cotas, das fotos oficiais de vestibulandos negros e do censo escolar racial aplicado pelo MEC.

História e Cultura n° 5 Ano 1

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