Erico Verissimo (1905 – 1975) foi um criador de mundos.
O primeiro que criou foi uma Porto Alegre literária, numa época (a década dos anos 30 no século passado) em que os leitores brasileiros descobriam um Brasil que se integrava através do rádio, da aviação, da política (revirada com a ascensão de Getúlio Vargas), e sobretudo através da consciência recém inaugurada de vivermos num país com atrasos e desigualdades sociais imperdoáveis. A pobreza e a miséria não eram mais “da vontade de Deus”, mas sim “da vontade dos homens” e de suas ambições.Essa denúncia aparece de modo vigoroso, mas não panfletário, neste primeiro mundo de Erico Verissimo. São sete romances, começando com Clarissa e terminando com O resto é silêncio, seis dos quais tratam do mesmo grupo de personagens, centrados em torno da personagem-título do primeiro. O grupo do último romance, O resto é silêncio, é completamente autônomo dos demais, apontando uma passagem para outras criações. Com efeito, ao final do romance, o escritor Tônio Santiago, ouvindo a Quinta Sinfonia de Beethoven no Teatro São Pedro, em Porto Alegre, tem uma visão premonitória do que será a grande trilogia de O tempo e o vento, recuperando a história do Rio Grande do Sul e, através dela, a do Brasil. Este é o segundo mundo criado por Erico Verissimo, que ele começa a escrever ao voltar de temporada nos Estados Unidos, ao fim do Estado Novo, em 1945.
Erico cria uma cidade fictícia, Santa Fé, no oeste do estado sulino. Ali situa e conta a história da formação de um clã familiar, o dos Terra-Cambará, durante 250 anos, de 1745 a 1945. A história do clã é marcada pela convivência e pelo confronto com a história das formações da fronteira sulina, do Brasil, e do mundo moderno. Ali se acompanham todas as guerras que assolaram a região, com sua violência por vezes crua, recheada de batalhas e guerras tão épicas quanto sangrentas. Ali também se acompanham as guerras mundiais, a Guerra Civil Espanhola, com suas violências cada vez mais sofisticadas mas não menos cruéis.
Com O tempo e o vento, Erico atinge o apogeu de sua criatividade como romancista e intelectual. Seus três romances – O Continente, O retrato, e O arquipélago – fazem parte de uma “geração de narrativas” latino-americanas que revisam a história de nosso continente, e a linguagem literária também, renovando o gênero em nível mundial. Nesse contexto, Erico se notabilizou por ser o melhor em usar, no plano histórico, a técnica narrativa do contraponto. Ele se familiarizara com ela ao traduzir, ainda na década de 30, o romance Point Counter Point, de Aldous Huxley, que constrói a narrativa variando continua e simultaneamente o ponto de vista narrativo entre os personagens de um grupo da burguesia inglesa. Já no ciclo de Porto Alegre, a partir de Caminhos cruzados, Erico se apropriara da técnica, ampliando-a consideravelmente, ao focalizar não um grupo de classe, mas uma cidade inteira, através da diversidade de seus ambientes sociais.
Em O tempo e o vento Erico joga essa técnica através dos tempos, criando um vai-vem histórico que ilumina, pelo passado, a formação das contradições do presente.
O Continente, por exemplo, começa em 1895, no período final de uma das tantas sangrentas guerras civis do Rio Grande, mas vai alternando episódios que remontam a outros períodos históricos (as guerras entre lusos e castelhanos, a Revolução Farroupilha, a Guerra do Paraguai, as campanhas republicana e abolicionista) e retornam àquele presente da narração. Os outros dois romances fazem o mesmo, a partir de 1945 e da queda do Estado Novo, derrubando Vargas de seu primeiro mandato como presidente.
Esta trilogia de Erico não é, no entanto, apenas uma reflexão sobre capítulos particulares da vida brasileira.
Publicada depois da Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria, é uma reflexão aguda sobre as relações entre história, civilização e violência, entre literatura e cultura. A partir dela Erico continua ampliando o alcance de seus romances, criando mais e mais mundos.
Em 1965 publica O senhor embaixador, romance que se passa numa fictícia ilha do Caribe, numa evidente referência à revolução cubana de 1959. Em 1967 é a vez de O prisioneiro, romance alegórico sobre a guerra do Vietnã. Em 1971 sai seu último romance, Incidente em Antares, uma corajosa sátira política da história brasileira e do golpe militar de 1964, que suprimiria as liberdades no país durante 21 anos.
Mas Erico foi também um criador de outros mundos paralelos. É autor de uma coleção notável de livros infantis e infanto-juvenis; foi radialista, com um programa para crianças que marcou época no Rio Grande do Sul.
Foi ensaísta e autor de livros de viagens, dos quais pelo menos um – México, de 1956 – é um clássico no gênero.
Foi memorialista, publicando Solo de clarineta em 1973, livro de memórias que deixou incompleto. Foi também um notável editor, planejando e realizando coleções, como a Nobel, que influíram decisivamente na formação de pelo menos três gerações da intelectualidade brasileira.
Teve reconhecimento nacional e internacional. Seus romances foram traduzidos para mais de quinze línguas e vários deles foram adaptados para o cinema e a televisão.
Por fim, mas não menos importante, Erico foi um democrata exemplar, condenando todos os totalitarismos, do fascismo ao stalinismo, passando pelas versões nacionais.
Uniu sempre sua paixão pela liberdade a uma luta constante contra as desigualdades sociais. Sua vida e sua obra são um patrimônio inestimável da nossa terra e da humanidade.
Cronologia de “O tempo e o vento”
● 1745 Começa a ação de O Continente. Nascimento de Pedro Missioneiro na Missão de São Miguel.● 1750 Portugal e Espanha assinam o tratado de Madri. A Espanha cede o território das Missões a Portugal em troca da Colônia de Sacramento, às margens do Rio da Prata.
● 1752 Começa a Guerra dos Sete Povos das Missões.
● 1756 Sepé Tiarajú, líder dos índios guaranis, morre em combate. A Missão de São Miguel é destruída. Pedro Missioneiro foge.
● 1761/62 Os espanhóis retornam ao território das Missões.
● 1776 Em meio a novas guerras, os portugueses retomam o controle sobre o território do Rio Grande do Sul.
● 1777 Pedro Missioneiro e Ana Terra se encontram. Ana engravida. Pedro é assassinado.
● 1789/1790 A estância do pai de Ana é arrasada. Ela se muda com o filho para Santa Fé, recém fundada pelo Coronel Ricardo Amaral.
● 1801 O Rio Grande do Sul é ocupado definitivamente pelos portugueses.
● 1808 A família real portuguesa vem para o Brasil.
● 1811/1828 Contínuas lutas no Prata pela posse do território do Uruguai. Com pressão da Inglaterra, Brasil e Buenos Aires reconhecem a independência de Montevidéu.
● 1828 O Capitão Rodrigo Cambará chega a Santa Fé e conhece Bibiana, neta de Ana Terra, com quem se casa no ano seguinte.
● 1835 Começa a Revolução Farroupilha. O Capitão Rodrigo luta com os revolucionários.
● 1836 É proclamada a República Riograndense. O Capitão Rodrigo retorna a Santa Fé para tomar a cidade, mas é morto no assalto à casa dos Amarais.
● 1836/1845 Continua a luta no Rio Grande do Sul, até a pacificação.
● 1845 Chega a Santa Fé Aguinaldo Silva, que vai construir o Sobrado por volta de 1850.
● 1865/1870 Guerra do Paraguai.
● 1872 Com a morte de Luzia Silva, Bibiana Terra assume definitivamente o controle do Sobrado.
● 1884 O Rio Grande do Sul liberta seus últimos escravos. Licurgo, neto de Bibiana, noiva com Alice Terra.
● 1888 Abolição da escravidão no Brasil.
● 1889 Proclamação da República. Os Terra-Cambará assumem o poder em Santa Fé.
● 1893/1895 A Revolução Federalista no Rio Grande do Sul opõe republicanos (pica-paus) e federalistas (maragatos).
● Junho de 1895 Licurgo Cambará resiste no Sobrado ao cerco dos maragatos.
● 1909 Começa a ação de O retrato. O Dr. Rodrigo Cambará, filho de Licurgo, retorna a Santa Fé, formado em Medicina.
● 1910 O pintor espanhol Pepe Garcia pinta o retrato de Rodrigo Cambará. O senador Pinheiro Machado visita Santa Fé e fala com Licurgo sobre o futuro político do Dr. Rodrigo.
● 1915 O senador Pinheiro Machado é morto no Rio de Janeiro. O caso amoroso do Dr. Rodrigo com Toni Weber termina com o suicídio dela.
● 1922 Começa a ação de O arquipélago. Licurgo, o Dr. Rodrigo e seu irmão Toríbio rompem com o Partido Republicano, liderado por Borges de Medeiros.
● 1923 Irrompe a segunda Revolução Federalista no Rio Grande do Sul. Os Cambará lutam com os revolucionários.
Licurgo morre em combate.
● 1924 Forma-se a Coluna Prestes no Rio Grande do Sul. Toríbio Cambará adere à marcha.
● 1927 A Coluna Prestes se refugia na Bolívia. Toríbio, aprisionado em combate, escapa de ser fuzilado e retorna ao Sobrado.
● 1930 Em outubro, começa a Revolução que leva Getúlio Vargas ao poder. Em Santa Fé, o Dr. Rodrigo lidera os revoltosos e mata, em combate, seu amigo legalista, o Tenente Bernardo Quaresma.
● 1931 O Dr. Rodrigo muda-se com a família para o Rio de Janeiro.
● 1937 Vargas dá o golpe e proclama o Estado Novo. Na Noite de Ano Bom Toríbio rompe com seu irmão, o Dr. Rodrigo, porque este apóia o novo governo. Toríbio vai para um bar onde é assassinado.
● 1936 Começa a Guerra Civil Espanhola. Arão Stein, amigo dos Cambará, vai lutar nas Brigadas Internacionais ao lado dos republicanos.
● 1939 Termina a Guerra Civil na Espanha. Começa a Segunda Guerra Mundial.
● 1940 Arão Stein volta ao Brasil, é preso no Rio de Janeiro como comunista. O Dr. Rodrigo usa de sua influência para libertá-lo e ele retorna a Santa Fé.
● 1941 Os Estados Unidos entram na guerra depois de serem atacados pelo Japão. O escritor Floriano, filho do Dr.Rodrigo, vai para os Estados Unidos.
● 1942 O Brasil declara guerra ao Eixo.
● 1944 Tropas brasileiras desembarcam na Itália. O cabo Lauro Caré, neto bastardo de Licurgo, morre heroicamente na batalha de Monte Castelo.
● 1945 Numa ação que compreende O retrato e O arquipélago, o Dr. Rodrigo volta a Santa Fé, depois da queda de Getúlio e o fim do Estado Novo. Doente, termina morrendo devido a um infarto. Floriano, de volta ao Brasil, começa a escrever O tempo e o vento.
História e Cultura n°6 Ano 1
Nenhum comentário:
Postar um comentário