Há sessenta anos, na manhã de 27 de janeiro de 1945, tropas russas libertaram os prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz, pequena cidade no sul da Polônia, sob ocupação nazista desde 1940. O comandante russo ordenou que tudo fosse fotografado, pois ninguém acreditaria em tamanho horror. O testemunho oral dos sobreviventes parecia incapaz de expressar um sofrimento tão profundo. O trauma emudece, enquanto a razão exige o relato fiel. Como descrever algo que impossibilita o relato seco e objetivo?
As primeiras imagens da libertação, mudas e em preto e branco, parecem gritar mais do que qualquer depoimento.O cineasta francês Alain Resnais expressou o sentimento de vazio diante da administração racional e eficaz que levou ao assassinato, só em Auschwitz, de mais de um milhão de homens, mulheres e crianças indefesas. Em Noite e nevoeiro (1955), Resnais justapõe cenas da liberação dos campos com imagens dos mesmos locais, uma década depois.
No contraste com a calma da natureza e das ruínas, as cenas de cadáveres amontoados ganham outro sentido, impedindo a contemplação indiferente.
Com a doutrina da “solução final”, idealizada pelos nazistas em 1942, uma enorme operação foi planejada para retirar os judeus de toda a Europa ocupada e transportá-los, por trem, para os campos. Dois filmes recentes mostram a escalada desse processo. Em O pianista (2003), a história real da luta de um músico judeu para sobreviver em meio à destruição do gueto de Varsóvia, o diretor Roman Polansky reflete sobre as várias reações diante da violência extrema. Já em O trem da vida (1998), de RaduMihaileano, judeus de uma vila na Europa oriental tentam escapar ao “trem da morte” mediante uma artimanha: seguindo os conselhos de um louco, eles buscam enganar os alemães, construindo o seu próprio trem, que, fingindo dirigir-se a um campo, os levaria à liberdade.
O campo de Auschwitz era comandado por Rudolf Hoess, jovem oficial da SS que coordenou a instalação das câmaras de gás, método desenvolvido por cientistas como o meio mais econômico e higiênico para o assassinato em massa. O gás Zyklon B foi testado primeiro em prisioneiros russos. Em seguida, a operação foi estendida aos judeus, ciganos e homossexuais. Em 1942, fábricas foram construídas para aproveitar a força de trabalho que chegava todas as semanas nos trens lotados. Os considerados aptos eram utilizados, enquanto os demais eram enviados diretamente às câmaras de gás. No pórtico do campo, uma inscrição dizia cinicamente, “Arbeit macht frei”, o trabalho liberta. O filme A lista de Schindler, de Steven Spielberg (1993), retrata o esforço de um industrial alemão para “salvar” centenas de judeus, empregando-os nas fábricas em torno do campo.
Além das câmaras de gás, os nazistas construíram enormes crematórios, fossas para queimar os cadáveres e um tanque para depositar as cinzas. Jóias, roupas, sapatos, óculos, brinquedos, tudo era separado, catalogado e enviado à população civil alemã.
Nuas, cerca de 2.000 pessoas entravam na câmara de 210 metros, onde as duchas despejavam gás venenoso. Na luta para respirar, os mais fortes escalavam os corpos de velhos e crianças, em busca do pouco ar que restava. Vinte minutos depois, estavam todos mortos. O trabalho de remoção dos corpos e manutenção do complexo ficava a cargo dos “comandos especiais”, judeus escolhidos pelos alemães para esse fim.
O filme Cinzas da Guerra, de Tim Nelson (2002), conta a história desses comandos, mostrando a tênue linha entre sobreviver e ser cúmplice. Daí o título original, “The grey zone”, a zona cinzenta, onde a luz e a escuridão, o certo e o errado, não podem ser claramente diferenciados.
Amarga sinfonia de Auschwitz (1980) também toca nesse problema, ao mostrar o destino das prisioneiras recrutadas para a orquestra do campo. Na chegada do trem, no caminho para a morte e nas festas dos oficiais alemães a música soava como contraponto ao medo.
Em Auschwitz, os russos encontraram 7.650 sobreviventes, entre eles 600 crianças. Livres, tiveram de percorrer um longo caminho para se libertar dos traumas. Alguns se suicidaram, muitos aprenderam a conviver com as marcas, outros, como o italiano Primo Levi, fizeram de tudo para perpetuar a memória do que ocorreu. Um de seus livros deu origem ao filme A trégua (1997), dirigido por Francesco Rossi, que narra o retorno do escritor para casa e para a vida; já A escolha de Sofia (1982), do inglês Alan Pakula, retrata o sentimento de culpa dos que sobreviveram.
Assim, o cinema vem tentando representar o horror de Auschwitz, para denunciar o tipo de pensamento autoritário que gerou todas essas atrocidades. Mas o cinema vive da ilusão, e hoje essa ilusão está diretamente ligada ao entretenimento sem compromisso. Cabe então ao espectador refletir sobre esse paradoxo, para que as próprias ilusões difundidas pelo nazismo não sobrevivam; para que o horror de Auschwitz jamais se repita.
História e Cultura n° 1 Ano 1
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