domingo, 4 de dezembro de 2011

LITERATURA COMO DENÚNCIA E COMBATE

Jorge de Almeida

No Brasil a relação entre a literatura e a política nacional tem suas raízes no início do século XIX, quando as primeiras gerações românticas se empenharam em dotar o país de uma literatura própria, fator fundamental para o estabelecimento de qualquer nação moderna. Este processo, analisado por Antonio Candido em sua Formação da literatura brasileira, deixou marcas profundas nas obras dos primeiros românticos, que descobriram, em Paris, a necessidade de retratar poeticamente a terra natal.
O fruto desse empenho inicial foi uma literatura que buscava a exaltação da natureza e dos homens da jovem nação, ainda em busca de uma unidade política e cultural.
As paisagens exuberantes passam a ser cantadas em busca do exótico e do pitoresco, e o índio torna-se símbolo do caráter nacional, gerando a necessária ilusão de um antepassado mítico, um herói fundador marcado pela coragem e pela vontade de independência.
Mas, já em pleno auge do Romantismo nacionalista, ficou claro que a literatura, para representar o Brasil, teria de lidar também com os problemas do país. O maior deles, que estava na base do sistema político e econômico, era sem dúvida a escravidão, que nenhum escritor poderia ignorar, mas que poucos conseguiam incorporar como elemento importante no interior da própria obra literária.
Nosso primeiro grande dramaturgo, Martins Pena (1815-1848), denunciou em suas farsas a violência da sociedade escravocrata, na qual o trabalho era desvalorizado, as relações humanas se baseavam na espoliação, e as leis serviam apenas aos poderosos. Sem discursos exaltados, ele colocou em cena as picuinhas da família brasileira, revelando nos bastidores o real motor da vida econômica: os escravos. Na comédia O inglês maquinista, escrita em 1842, uma cena evoca mais espanto do que risos: Clemência – Não vale a pena mandar fazer vestidos de chita pelas francesas; pedem sempre tanto dinheiro!
(Esta cena deve ser toda muito viva. Ouve-se dentro bulha como de louça que se quebra:) O que é isto lá dentro? (Voz, dentro: Não é nada, não senhora.) Nada? O que é que se quebrou lá dentro? Negras! (A voz, dentro: Foi o cachorro.)
Estas minhas negras!... Com licença (Clemência sai.)
Eufrásia – É tão descuidada esta nossa gente!
João do Amaral – É preciso ter paciência (Ouve-se dentro bulha como de bofetadas e chicotas.) Aquela pagou caro...
Eufrásia, gritando – Comadre, não se aflija.
João – Se assim não fizer, nada tem.
Eufrásia - Basta, comadre, perdoe por esta. (Cessam as chicotadas.) Estes nossos escravos fazem-nos criar cabelos brancos. (Entra Clemência, arranjando o lenço do pescoço e muito esfogueada).
Clemência – Os senhores desculpem, mas não se pode... (Assenta-se e toma respiração.) Ora veja só! Foram aquelas desavergonhadas deixar mesmo na beira da mesa a salva com os copos pra o cachorro dar com tudo no chão! Mas pagou-me!
Mas o que era bastidor em Martins Pena passa ao primeiro plano em Castro Alves (1847-1871). Tendo como modelo o romantismo engajado do grande escritor francês Victor Hugo, Castro Alves dedicou-se à luta pela abolição da escravatura, denunciando em obras como Navio Negreiro o sofrimento dos escravos arrebanhados, como mercadoria, nas costas da África. Unindo o poder dos versos à ênfase da oratória, a poesia abolicionista de Castro Alves teve enorme repercussão na época, sendo lida até hoje como exemplo de participação da literatura nos debates políticos do país. Nas duas últimas estrofes do poema A criança, escrito em 1865, podemos ver como a temática do escravo adquire contornos dramáticos, em contraste com o lirismo característico da época:
Tu choras por que um ramo de baunilha / Não pudeste colher, / Ou pela flor gentil da granadilha? / Doute um ninho, uma flor, dou-te uma palma, / Para em teus lábios ver / O riso – a estrela no horizonte da alma.
 Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite / Dos seus algozes vis. / E vagas tonto a tatear a noite. / Choras antes de rir ... pobre criança! ... / Que queres, infeliz? ... / - Amigo, eu quero o ferro da vingança.
Uma das grandes injustiças cometidas contra nosso maior escritor, Machado de Assis, é a acusação de que ele, sendo mulato, não teria retratado em sua obra a violência contra os escravos. Basta ler alguns capítulos cruciais de seus principais romances, como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, para perceber que a escravidão está presente em toda parte como traço fundamental da sociedade brasileira, mesmo quando não mencionada explicitamente.
Em uma crônica escrita alguns dias após a assinatura da Lei Áurea, em maio de 1888, Machado trata o tema com sua peculiar ironia, deixando claro, para o leitor atento, que a violência e a injustiça não acabariam por decreto.
No texto, o narrador hipócrita se vangloria de ter libertado, um dia antes da lei ser promulgada, seu jovem escravo Pancrácio, que entretanto aceita continuar a seu serviço, por um salário irrisório.
“Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas. e chamo-lhe besta quando não lhe chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.”
Na Primeira República, o debate político ficou ainda mais acirrado, e a idéia de que o escritor deveria participar da vida pública ganhou um novo significado.
Em seu livro Literatura como Missão (Cia das Letras, 2003), o historiador Nicolau Sevcenko analisa a obra de dois autores que representaram, por suas características contrastantes, os dilemas da literatura engajada no início do século XX.
Lima Barreto, autor do Triste fim de Policarpo Quaresma, achava que o escritor deveria ter como objetivo “fazer de seu instrumento artístico um instrumento de difusão das grandes idéias do tempo”. Criticando a mentalidade atrasada e subserviente de seus contemporâneos, Lima Barreto satirizou em suas obras as mazelas do governo republicano e o hábito brasileiro de buscar a distinção a todo custo. Um de seus personagens mais conhecidos, o “homem que sabia javanês”, coloca em questão uma sociedade em que a cultura é valorizada apenas pela aparência. Na crítica à República dos Bruzundangas surge o triste retrato das primeiras favelas que preenchiam dos morros cariocas:
“Apesar do luxo tosco, bárbaro e branco, dos palácios e perspectivas cenográficas, a vida das cidades era triste, de provocar lágrimas. A indolência dos ricos tinha abandonado as alturas dela, as suas colinas pitorescas, e os pobres, os mais pobres, de mistura em toda espécie de desgraçados, criminosos e vagabundos, ocupavam as eminências urbanas com casebres miseráveis, sujos, feios, feitos de tábuas dos caixões de sabão e cobertas com folhas desdobradas de latas em que veio acondicionado o querosene”.
Enquanto Lima Barreto narrava a vida das cidades e dos subúrbios, Euclides da Cunha se dedicava a estudar cientificamente a paisagem e a sociedade dos sertões. Enviado como repórter para cobrir o cerco militar a Canudos, ele apresentou aos leitores do Sudeste a enorme complexidade geográfica e social do semi-árido nordestino. Seu livro Os sertões, publicado em 1902, é o resultado desse esforço para a compreensão do Brasil como um todo.
Na segunda parte do livro, intitulada “O homem”, encontramos a célebre passagem: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. A exaltação ao herói romântico, entretanto, dá lugar a uma descrição de cunho científico das qualidades e defeitos dos habitantes do sertão. Influenciado pelas teorias raciais da antropologia européia, Euclides acaba construindo uma imagem contraditória do sertanejo: apesar de “feio, mirrado e estranho”, ele também surgia como “o mais tenaz, o mais resistente, o mais perigoso, o mais forte e o mais duro dos brasileiros”.
Na terceira grande seção do livro, “A luta”, Euclides descreve as sangrentas batalhas que culminaram na destruição total do vilarejo governado pelo “profeta e santo guerreiro” Antonio Conselheiro, em um massacre de proporções aterradoras, que levou o próprio Euclides a modificar sua opinião sobre os verdadeiros heróis daquela guerra:
“Fechemos este livro. Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no quinto dia, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram.
Eram quatro apenas:  um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”.
Com o Modernismo, a literatura brasileira aprendeu  que o choque e o escândalo eram armas poderosas para abalar as convicções políticas e estéticas de uma sociedade conservadora e tradicionalista. Ao lado da crítica social, contudo, havia o esforço de dotar o país de instituições culturais capazes de levar adiante um esforço coletivo de redefinição dos próprios fundamentos da nação brasileira. Conhecer o Brasil e expressar suas contradições através da arte era a meta de escritores como Mário e Oswald de Andrade, e também de músicos como Heitor Villa-Lobos e pintores como Tarsila do Amaral e Candido Portinari.
As gerações seguintes levaram a sério esse compromisso.
Autores como Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos descreveram, utilizando uma linguagem seca como a paisagem do sertão, a miséria e o sofrimento da população nordestina. Mais do que simples descrições, livros como O quinze e Vidas secas exigiam do leitor uma tomada de posição, gerando um sentimento de solidariedade e incentivando o repúdio aos mecanismos sociais que perpetuavam essa situação desumana.
Também na poesia a denúncia da seca e da fome engaja os escritores. João Cabral de Mello Neto, um poeta de extremo rigor, aproxima seu verso do cordel popular, para narrar a saga de um retirante em Morte e vida severina.
No enterro de um trabalhador, ouve-se em redondilha menor o lamento contra o latifúndio e a exploração:
Esta cova em que estás / com palmos medida / é a conta menor / que tiraste em vida //
É de bom tamanho, / nem largo nem fundo / é a parte que te cabe / deste latifúndio //
Não é cova grande / é cova medida / é a terra que querias / ver dividida.
Nesses vários exemplos, podemos notar o quanto a literatura brasileira agiu, desde o Romantismo, como uma poderosa ferramenta para o conhecimento e a crítica da realidade nacional. Engajados na luta contra o atraso e a injustiça social, confiantes no poder da literatura para influenciar o debate público, vários escritores brasileiros acreditaram que poderiam, através de suas obras, transformar  o Brasil em um país melhor. Seus leitores, hoje, devem estar à altura dessa enorme expectativa.

O Brasil no espelho das crônicas de Veríssimo
Nenhum gênero se aclimatou tanto ao gosto literário brasileiro quanto a “crônica”. Por isso, ela também é uma forma privilegiada de denúncia das mazelas nacionais. Narrativa curta e despretensiosa, a crônica realiza um comentário de seu próprio tempo. Com ironia e bom humor, os melhores cronistas retratam situações do cotidiano ou interpretam o noticiário político, disfarçando na aparente simplicidade do gênero considerações precisas sobre a complexa realidade brasileira.
Entre os grandes nomes da crônica brasileira, destaca-se Luis Fernando Veríssimo, com suas “comédias da vida pública”.
Essas “crônicas datadas”, como são chamadas pelo próprio autor, conseguem a proeza de equilibrar a seriedade da crítica com um estilo permeado de ironia, próprio de quem definiu o intelectual como aquele “que se dá conta. Tudo, afinal, é muito estranho, esta bola em que a  gente vive, cada um dentro da sua embalagem de pele, as outras bolas ao seu redor, o metabolismo, a termodinâmica, o canto lírico, os esquimós... Intelectual é o que não acha nada disso natural, não”. Veríssimo revela a estranheza da situação brasileira, transformando o desconforto em tomada de posição contra a desigualdade e a injustiça.
Desconfiado, Veríssimo revela ao leitor a distância que separa os discursos oficiais e a dura realidade brasileira, ridicularizando as frases pomposas e a retórica vazia: “Já se disse que se fosse regido pelos discursos de posse, em vez dos empossados, o Brasil seria um país muito melhor. Uma das mais eloqüentes exortações à liberdade e à justiça jamais feitas na inauguração de um governo no Brasil foi o discurso de posse de... tará! Garrastazu Médici. Todos sabemos o que ele inaugurou”. A história do Brasil parece girar em falso.
A pobreza e a injustiça social, temas sempre discutidos e pouco combatidos, formam o pano de fundo das críticas mais incisivas:
“Grande idéia, pintar as favelas. Mas não se deve parar aí. Por que não pintar os favelados? Com um bom programa de camuflagem, a miséria se integraria à paisagem. Não saltaria mais aos olhos, como agora. Em vez de gastos dispersivos com saúde, saneamento básico etc., toda a verba da assistência deveria ser concentrada num amplo projeto de redecoração nacional”. A crônica, escrita durante o governo FHC, ainda soa atual, embora as cores do poder tenham mudado.
Veríssimo retorna sempre, com renovado interesse, ao tema da desigualdade, como em “Queremos revanche”, escrita a propósito da divulgação, em 1995, da pesquisa do Banco Mundial sobre distribuição de renda. “Não me lembro de ter lido nada sobre Botsuana escrito pelo Delfim. Não há notícia de economistas brasileiros fazendo estágio em Botsuana ou de economistas de Botsuana convidados para seminários no Brasil. Nenhuma teoria econômica publicada em Botsuana foi traduzida e publicada aqui.
(...) E no entanto devem estar fazendo alguma coisa certa em Botsuana, pois este ano eles nos passaram no ranking do Banco Mundial, categoria distribuição de renda. Nós estávamos em penúltimo e passamos para último. Botsuana agora é penúltimo e ameaça o antepenúltimo”. Podemos ficar tranqüilos, em 2000 cedemos o último lugar ao Reino da Suazilândia. Mas, como continuamos na disputa, a boa crônica brasileira sempre terá oportunidade para revelar um pouco mais de nossas contradições.

História e Cultura n° 1 Ano 1

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