sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A IGREJA E A FORMAÇÃO DO OCIDENTE

Celestino Vivian

O assunto é espinhoso e complexo. Para entender o papel da Igreja e do Cristianismo como protagonistas na formação das nações ocidentais é preciso retroagir ao Império Romano, berço, rota e cenário de expansão para a crença nascida a partir dos ensinamentos de Jesus de Nazaré. O Cristianismo reúne, hoje, aproximadamente 1,9 bilhão de seguidores em todo o mundo, incluindo católicos, ortodoxos e protestantes. No Brasil são 125,5 milhões de católicos, segundo o censo de 2000.
Cristianismo vem da palavra Cristo, que significa messias, pessoa consagrada, ungida.
Do hebraico mashiah (o salvador) foi traduzida para o grego como khristos e para o latim como christus. A sua doutrina baseia-se na crença de que todo o ser humano é eterno, a exemplo de Cristo. A vida presente é uma caminhada, e a morte uma passagem para uma vida eterna e feliz para todos os que seguirem os ensinamentos bíblicos baseados na fraternidade e no amor ao próximo.
Devemos diferenciar o que é História, baseada em fatos comprovados e em documentos, do que é fé e tradição. Jesus e seu papel de redentor é um assunto de fé e muitos de seus ensinamentos chegaram até nós através da tradição. Com base nessa premissa, alguns fatos determinantes na formação do Ocidente devem ser lembrados, do Império Romano à Contra-Reforma. São apenas indicações básicas.
Muitas teses levantadas pelos historiadores são divergentes.
Os seguidores de Jesus souberam explorar os caminhos abertos pelos romanos. Os primeiros cristãos transformaram as perseguições desencadeadas por alguns imperadores em pedra fundamental de construção da Igreja. Tanto é que conseguiram virar o jogo a seu favor, primeiro com o imperador Constantino, que em 335 concedeu liberdade de culto a todos os cidadãos, e depois com Teodósio, que em 380 tornou o Cristianismo a religião oficial. Até o fim do Império do Ocidente, em 476, o período pode ser considerado como de afirmação da nova doutrina.
A ocupação da Europa Ocidental por povos “bárbaros” e depois pelos árabes, somente contida em 732 pelas tropas de Carlos Martel na batalha de Poitiers, deixou profundas marcas culturais e econômicas. O Mediterrâneo deixara de ser o mar romano. Da Península Ibérica, por exemplo, os árabes só sairiam em 1492, expulsos pelos reis católicos. A Igreja de Roma conseguiu se equilibrar sobre alianças espúrias e lutas internas,  mais assentada no poder material e em seus feudos, do que no espiritual. Reis faziam papas e papas faziam reis.
A expressão máxima dessa política ocorreu no Natal de 800, em Roma, quando Leão III, em um golpe de mestre, coroou Carlos Magno, colocando-o à frente do Sacro Império Romano. Carlos era filho de Pepino, que em 756 havia doado ao papa Estêvão II a Itália Central, criando os Estados Papais, base da força material do Vaticano até 1870.
Carlos já se considerava com maior poder do que o do papa. Mas, com seu “golpe”, Leão III pode dizer que estava legalizando o poder do Império Carolíngio.
Outro episódio marcante foi o rompimento com Constantinopla, em 1054. O patriarca Miguel Keroularios, excomungado, rompeu com o papa, separando do Cristianismo controlado por Roma as igrejas orientais, ditas ortodoxas.
Bizâncio e depois Constantinopla (a Istambul de hoje, na Turquia), seria até 1453 a capital do império romano do Oriente, ou Império Bizantino.
Depois vieram as Cruzadas contra os “infiéis”, a primeira em 1095, organizada por Urbano II. Em 1099, a conquista de Jerusalém pelos cruzados foi precedida por uma matança de milhares de pessoas. Como parte da estratégia de manter o poder a qualquer preço e esmagar os opositores e suas teorias (hereges), Gregório IX, eleito em 1227, criou o Tribunal do Santo Ofício, base da Inquisição que fez incontáveis vítimas até o século XVIII.
Em 1517, veio a reforma protestante, lançada por Martinho Lutero com suas 95 teses.
Não foi apenas uma revolta contra o poder temporal da Igreja de Roma, a cobrança de impostos e a venda de indulgências. Foi resultado de um conjunto de acontecimentos – da repressão a movimentos contestadores que a antecederam às profundas mudanças econômicas vividas pela Europa. As mudanças pediam uma nova Teologia, que, depois de Lutero, João Calvino soube apresentar com extraordinária inteligência às novas classes dominantes. Ele se apresentou como o “asceta do capitalismo”, nas palavras de Ruy Rodrigues Machado, professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Religiosas da PUC-Campinas.
Tudo pela glória de Deus. A reação da Igreja Católica (contra-reforma) veio com o Concílio de Trento, que durou 18 anos, de 1545 a 1563, e que fixou as bases de uma doutrina que só começaria a mudar com o Concílio Vaticano II.

GUARDIÃ DA FILOSOFIA GRECO-ROMANA
O papel da Igreja Católica na formação do Ocidente deve ser encarado acima de tudo por ter sido ela a grande guardiã da filosofia greco-romana e, por tabela, de muitos dos costumes árabes deixados na Europa. A Igreja foi o canal que transpôs para a maioria das nações o Direito Romano e para dezenas delas a língua latina. É impossível citar todos os sábios que influenciaram a história a partir do fim do Império Romano do Ocidente, incluindo aí o papel das ordens religiosas, dos dominicanos aos franciscanos e jesuítas, que trouxeram o catolicismo para o Brasil. Dois não podem deixar de ser estudados – Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. São Tomás (1225-1274), resgatou a filosofia aristotélica, com o conceito de fé e razão (fides et ratio).
Enquanto o Catolicismo prevaleceu na Espanha e Portugal (e daí para toda a América Latina), além de Itália e Polônia e outros países europeus, o Luteranismo, Calvinismo e Anglicanismo ganharam terreno na Alemanha, Suíça e Inglaterra.
Na Inglaterra, onde a nobreza feudal saíra dizimada da Guerra das Duas Rosas, o calvinismo foi abraçado pelas novas classes dominantes e mercantilistas. O puritanismo inglês foi transportado depois para a Nova Inglaterra. E os conceitos calvinistas, de glória a Deus com busca da riqueza material, que permearam a Inglaterra, também marcaram profundamente a sociedade norte-americana.Isso talvez explique por que, ainda hoje, George Bush se considere o eleito e o guardião da democracia capitalista no mundo.
Do lado do Catolicismo, que pelas contas oficiais já teve 265 papas, a influência da Igreja pode ser medida pelo espetáculo de mídia que representou a morte de João Paulo II e a eleição de seu sucessor.

Boletim Mundo n° 3 Ano 13

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