quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

TEMPOS DIFÍCEIS: OS ROMANCES DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

Daniel Puglia
A carreira do escritor inglês Charles Dickens (1812-1870) e sua relação com o público que vivia as conseqüências da Revolução Industrial constituem um caso de dedicação e compreensão mútuas. A vida e a obra desse grande autor exerceram enorme fascínio sobre os leitores que desejavam entender aqueles novos tempos. Fábricas e ferrovias, bancos e bolsas de valores, assim como a violência das cidades e a miséria dos mais pobres formavam um painel em que os contrastes e conflitos surgiam a todo instante.
Ainda criança, Dickens trabalhou numa fábrica de graxa para sapatos. A experiência o ajudou a compreender os lados mais sombrios da transformação causada pela Revolução Industrial na sociedade inglesa. Com quinze anos arrumou um emprego de ajudante num famoso escritório de advogados. As tarefas de entregar processos, registrar testamentos e preencher documentos eram repetitivas, mas o futuro contador de histórias se divertia observando as pomposas esquisitices dos advogados e de seus clientes.
Antes de completar dezessete anos, conseguiu a vaga de repórter judiciário num dos tribunais de Londres, tendo acesso ao jargão oficial e ao vocabulário das negociatas e trapaça, que usaria mais tarde em seus romances.
Aos dezoito anos obteve um cartão de acesso à biblioteca do Museu Britânico, onde lia nas horas vagas e completava sua formação. Também nessa época passou a escrever reportagens sobre o Parlamento inglês, percebendo então os interesses comuns que uniam os políticos e a elite econômica, para além do tradicional chá das cinco.
Mais do que meros dados biográficos, essa trajetória traz semelhanças com as modificações históricas que marcavam um novo ciclo de desenvolvimento do capitalismo, fazendo de Dickens um observador privilegiado das novas configurações de uma sociedade eminentemente urbana e industrial. Talvez isso explique, ao menos em parte, o sucesso precoce de sua carreira como escritor.
Ficou famoso aos vinte e cinco anos, e a popularidade de seu primeiro romance, Aventuras de Pickwick (1836-7), foi um fenômeno literário quase sem precedentes, tanto pela juventude do autor, quanto pelo rápido reconhecimento e durabilidade dos aplausos.
Para Dickens, a criação de romances era uma atividade muito próxima do jornalismo, uma vez que a publicação era feita em fascículos de periodicidade mensal ou até semanal. Era um compromisso não só com o editor, que contratava o trabalho, mas também com o público, cuja expectativa e reação podia sugerir ou mesmo ditar os rumos da história. Essa forma de escrever também prendia autor e conteúdo à vida cotidiana de seu tempo.
No prefácio para Nicholas Nickleby (1839), o próprio Dickens destacava que esse tipo de publicação fazia o escritor “dedicar aos leitores os sentimentos do dia, na linguagem sugerida por tais sentimentos”. Em virtude disso, a relação do escritor com sua época e seu público pode ser mais facilmente compreendida quando percebemos em seus livros as marcas profundas deixadas, na sua vida e na de seus contemporâneos, pela Revolução Industrial.
Vejamos por exemplo o romance Oliver Twist (1837-9), obra-prima que chegou a ser traduzida para o português pelo próprio Machado de Assis. A originalidade de Dickens, nesta fábula sobre a criminalidade, foi colocar uma criança no centro do enredo, reconhecendo a infância como uma etapa especial da existência. Na obra, isso é feito não apenas como idealização romântica, mas também como uma denúncia das condições a que estavam submetidas as crianças e adolescentes numa sociedade injusta e desigual, na qual eram os elos mais fracos das relações de exploração.
Por meio da sátira, o tratamento dado aos pobres é retratado de maneira impiedosa. Oliver é forçado a viver com uma gangue de delinqüentes juvenis, que imitam padrões de comportamento da política e do comércio.
Com extrema ironia, Dickens demonstra que a lógica do roubo está presente em todas as camadas sociais, ou seja, os limites entre vítimas e vilões são pouco nítidos e a responsabilidade pela miséria de muitos pode estar na riqueza de alguns poucos.
Já o herói de David Copperfield (1849-50) é alguém que reflete as preocupações da era vitoriana com o desenvolvimento individual. Com inúmeras características retiradas da vida do próprio autor, David tem de lutar contra frustrações familiares, decepções nas amizades e infelicidades amorosas, tudo isso para finalmente conseguir a realização como escritor profissional. Determinação e dedicação, seriedade e disciplina pareciam ser os requisitos para uma conduta que levava ao sucesso.
Muito em voga na Inglaterra da primeira metade do século dezenove, a crença desmedida no progresso e no poder do aprimoramento serve de alimento às ilusões de nosso herói. No entanto, ao longo de suas aventuras, David aprende que seu país, a Inglaterra, está formando um vasto império, mas o governo favorece sempre interesses privados; que a economia enfrenta um grande surto de crescimento, mas parte da população é forçada a emigrar; e, por fim, que a razão e o conhecimento são sempre elogiados, mas as escolas são de péssima qualidade. Em conseqüência disso, Dickens elabora um vasto panorama social que questiona os avanços e ganhos da época.
Quando escreve Tempos Difíceis (1854), a análise que faz da sociedade inglesa é ainda mais contundente. Assim que foi lançado e durante mais de um século, muitos críticos não aprovaram a forma como o problema da industrialização foi tratado. Vários dos temas da preferência de Dickens estão presentes, só que de maneira mais direta e incisiva: o trabalho pesado nas indústrias, as diferenças de classe, a exclusão social e, sobretudo, o crescente predomínio da técnica em detrimento da solidariedade humana.
O romance é arquitetado em uma série de contrastes entre o mundo dos dados e números e aquele representado pela fantasia e imaginação. De um lado, estão  as fábricas, uma realidade apegada à organização, às cifras e às regras; de outro, a vida dos artistas de circo, em que as paixões e os sentimentos são permitidos. Como narrativa, o livro apresenta algumas soluções exageradamente simples, embora coerentes com a intenção do autor: denunciar os pressupostos e abusos do processo de industrialização.
Não somente nestes romances, mas também no restante de sua obra, Dickens procurou descrever um momento histórico pleno de contradições e impasses. Os aspectos fascinantes das inovações tecnológicas geravam otimismo e ao mesmo tempo temor. A possibilidade de obter mercadorias e produtos úteis também passava a incentivar o consumo supérfluo e desnecessário. Inúmeras pessoas sentiam melhorias nas suas condições de vida, porém sofriam a pressão cada vez maior de uma existência regida pelo dinheiro.
Como os impactos e resultados da Revolução Industrial ainda hoje representam um enigma e um desafio, os personagens e enredos criados por Dickens mantêm sua atualidade e relevância. Desse modo, expondo belezas e dificuldades, expressando alegrias e tragédias, seus livros ainda podem nos ajudar a compreender nosso mundo: mostrando caminhos, sugerindo transformações.
História e Cultura n° 2 Ano 1

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