O italiano Ítalo Calvino, em uma espirituosa classificação dos tipos de livros, cunhou a definição do “livro que não preciso ler porque é como se já o tivesse lido”, referindo-se àqueles clássicos que, superando os limites do papel, conquistam sua eternidade na linguagem e na imaginação de diversos povos e épocas.
Dom Quixote é o exemplar máximo dessa reduzida prateleira. Em todo bom dicionário de qualquer das línguas modernas, pode-se achar o verbete “quixotesco”: “Ingênuo, romântico, sonhador. Que se envolve em trapalhadas”; ou “Aquele que procede como Dom Quixote, que ingenuamente se mete em questões que não lhe dizem respeito e, por via de regra, se sai mal”.Se Dom Quixote ainda nos diz respeito, quatrocentos anos depois de sua publicação, é justamente porque seu autor, o espanhol Miguel Cervantes de Saavedra (1547-1616), teve a coragem (quixotesca?) de enfrentar a visão tradicional, até o início do século XVII, sobre a natureza e a função da literatura. A obra traz inúmeras novidades, que em seu conjunto passam a constituir o modelo para um gênero que desbanca a grande narrativa épica do passado, dando origem ao romance moderno. De alguma forma, todo romance é, ainda hoje, herdeiro do Quixote.
Mas, justamente por essa razão, diz o escritor argentino Jorge Luis Borges, as novidades do Quixote são difíceis de perceber.
A começar pelo título: El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha, que hoje soa nobre e pomposo, mesmo na tradução para o português. Em 1605, no entanto, era motivo de um sorriso irônico, pois “fidalgo” significava “cavaleiro interiorano”; Quixote era um nome evidentemente ridículo; e a Mancha, uma região espanhola distante e atrasada. No conto “Pierre Menard, autor do Quixote”, Borges reflete sobre a historicidade própria aos textos, fazendo com que um personagem reescreva linha a linha o livro de Cervantes, que sob sua “autoria”, no mundo contemporâneo, assume um sentido completamente diverso.
O original de Cervantes é, na verdade, constituído por dois livros. A primeira parte, publicada em 1605, narra o início das aventuras de Dom Quixote, um fidalgo de cinqüenta anos que, de tanto ler os antigos romances de cavalaria, resolve imitar aqueles intrépidos heróis: “Rematado já todo o juízo, deu no mais estranho pensamento em que nunca jamais caiu louco algum do mundo, e foi: pareceu-lhe conveniente e necessário, assim para aumento de sua honra própria, como para proveito da república, fazer-se cavaleiro andante, e ir-se por todo o mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras, e exercitar-se em tudo em que tinha lido se exercitavam os da andante cavalaria, desfazendo todo o gênero de agravos, e pondo-se em ocasiões e perigos, donde, levando-os a cabo, cobrasse perpétuo nome e fama”.
Assumindo, sem querer, o epíteto de “cavaleiro da triste figura”, Quixote monta em seu cavalo Rocinante, na verdade pouco mais que um pangaré, e acompanhado de seu “fiel escudeiro”, Sancho Pança, sai pela Mancha em busca de aventuras e na defesa da honra de sua amada, Dulcinéia del Toboso. Os perigos que enfrenta são fruto de sua ilusão, e de nada adiantam as ressalvas de Sancho, sempre tentando mostrar a seu senhor que a realidade é outra, como no famoso episódio em que Dom Quixote ataca moinhos de vento, tomando-os por gigantes enfeitiçados.
Esta é uma das muitas novidades do romance: apesar de ter como tema as ilusões de um personagem obcecado pela fantasia literária, o livro descreve de forma absolutamente realista as pessoas, a paisagem e a vida cotidiana daquela empobrecida região espanhola. Em vez de nobres idealizados e figuras da mitologia greco-romana, encontramos lavadeiras, párocos e camponeses, levando sua vidinha pacata. Não há também, no livro, a presença de uma “moral edificante” ou de “ensinamentos úteis sobre a vida”, como nos romances de cavalaria do passado.
O que sobra para o leitor é a percepção da ironia como meio de problematizar a realidade e a própria representação literária do mundo.
O romance fez tal sucesso, já na época de sua publicação, que gerou uma continuação apócrifa, publicada em 1614.
Cervantes, irritado com a vida própria que seu personagem adquiriu nas mãos de outro autor, termina a redação de uma segunda parte, publicada em 1615, na qual “Dom Quixote é dilatado, morto e sepultado, para que ninguém se atreva a levantar-lhe novos testemunhos”. Cervantes falhou em seu intento: seu personagem reapareceu, identificado ou não, em centenas de romances desde então, e continua a viver nos livros, reiterando postumamente o “nome e a fama” dos que enfrentam o mundo, sem medo de combater moinhos de vento.
História e Cultura n° 6 Ano 1
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