(JOHN LEWIS GADDIS, “GRAND STRATEGY IN THE SECOND TERM”, FOREIGN AFFAIRS, JAN/FEV 2005, P. 9)
Tudo estava previsto na grande estratégia de Donald Rumsfeld, o secretário da Defesa, e Paul Wolfowitz, o líder dos neoconservadores.
A derrubada de Saddam Hussein provocaria a união dos iraquianos em torno de um novo regime pró-americano.A reconstrução do Iraque estabilizaria os fluxos de petróleo para a economia mundial. As bases militares americanas no país assegurariam o controle duradouro do núcleo do Oriente Médio, proporcionando a difusão da “liberdade” em toda a região. Sob a proteção das forças americanas, a monarquia saudita esmagaria os insurgentes da jihad que ameaçam o principal Estado petrolífero do Golfo Pérsico. No Irã e na Síria, os regimes anti-americanos dariam lugar a governos alinhados a Washington. Cercados e acuados, os palestinos concederiam a vitória a Israel, acomodando-se nos fragmentos territoriais de um Estado sob “proteção” israelense.
Mas a grande estratégia chocou-se de encontro à realidade. A operação triunfal no Iraque desandou em guerra permanente de média intensidade. Um novo “choque de preços” mantém o barril de petróleo na faixa dos US$ 50. Uma guerra civil latente desenvolve-se na Arábia Saudita.
Os projetos de mudança de regime na Síria e no Irã aguardam o dia em que as forças militares americanas possam, finalmente, safar-se do atoleiro iraquiano.
Nesse início de segundo mandato, George W. Bush e os neoconservadores não enxergaram alternativas senão deflagrar um “plano B”. Temporariamente, a grande estratégia original deve ceder a um projeto menos ambicioso. O foco desse projeto é a Palestina, mas o seu desenvolvimento exige iniciativas ousadas de transformação do estatuto político no Líbano e na Síria.
A morte de Yasser Arafat, o líder histórico da Organização de Libertação da Palestina (OLP), em novembro do ano passado, foi o sinal para a deflagração de uma nova operação de paz na Palestina.
Uma articulação entre Israel e a liderança oficial da OLP abriu caminho para a realização de eleições de renovação da Autoridade Nacional Palestina (ANP), o governo autônomo que administra partes da Cisjordânia e da Faixa de Gaza ocupadas.
A liderança oficial, desgastada pela sua impotência frente a Israel e desmoralizada por recorrentes episódios de corrupção, não tinha a vitória eleitoral assegurada.
Mas o boicote das eleições pelos fundamentalistas islâmicos do Hamas e o sucesso das pressões da OLP pela retirada da candidatura de Marwan Barghouti, o líder nacionalista das duas intifadas (revoltas) palestinas, eliminaram a concorrência.
No fim, Ahmed Qurei, o sucessor de Arafat ungido pela liderança oficial, assumiu o comando da ANP.
A nova operação de paz não se baseia num tratado entre as duas partes. Israel conduz, unilateralmente, a sua estratégia de fixação das fronteiras do futuro Estado palestino. Essa estratégia, o chamado Plano Sharon, prevê a retirada da Faixa de Gaza, a anexação de áreas de assentamentos israelenses na Cisjordânia e o estabelecimento de uma fronteira física, por meio do muro em construção na Cisjordânia. O novo comando da ANP comprometeu-se a suspender a intifada popular e conter os atentados terroristas, de modo a criar um ambiente de relativa estabilidade.
O jogo é de alto risco. Seu combustível é o desgaste da intifada, depois de quase cinco anos de confrontação violenta, pontilhados por atentados e por ofensivas sangrentas das forças de Israel. Mas a frustração popular, entre os palestinos, manifestou-se na significativa proporção de eleitores que não votaram em Ahmed Qurei e nas vitórias do Hamas em eleições municipais na Cisjordânia. A liderança oficial, herdeira de Arafat, está jogando a sua última carta. O avanço do Plano Sharon corrói as bases da legitimidade remanescente da OLP e prepara a ascensão dos fundamentalistas islâmicos.
O Plano Sharon prevê a formação de um Estado Palestino feito de fragmentos de terras, destituído de soberania efetiva, recortado por corredores sob controle militar israelense. Esse cenário só pode se consolidar mediante a reorganização política de todo o Oriente Médio. Em particular, ele depende da eliminação do Hezbollah como força militar anti-israelense.
O Hezbollah é um partido fundamentalista que atua no Líbano e recebe financiamento da Síria e do Irã. A mídia ocidental descreve-o, de modo geral, como um peão militar dos Estados estrangeiros que o financiam, mas essa imagem é falsa.
O Hezbollah tem raízes populares profundas entre os xiitas do Líbano. A sua eliminação como força militar exige uma reforma completa do sistema político libanês, o que implica na supressão da influência da Síria sobre o Líbano. Eis o “plano B” de Washington no Oriente Médio .
A retirada das tropas sírias do Líbano, que está em curso, representa uma pequena vitória inicial do plano americano. Mas há um abismo entre isso e a eliminação do Hezbollah como força militar, justamente porque o partido libanês não é uma invenção artificial da Síria. As metas de Washington exigem a virtual supressão da representação política dos xiitas no Líbano e isso só pode ser feito por meio da violência.
O governo pan-arabista sírio, por seu lado, enxerga o Líbano como uma província da “Grande Síria” histórica. A sua influência se exerce não só por meio da presença de tropas no país vizinho, mas também pelas relações entre Damasco e parte da elite política libanesa e pela conexão com o Hezbollah. O “plano B” de Washington exige, no fim das contas, a mudança de regime na Síria.
O Estado sírio e seus aliados libaneses representam o que restou, depois da derrubada do regime de Saddam Hussein, da doutrina política pan-arabista . A aventura americana no Iraque substituiu o regime pan-arabista não por um regime pró-ocidental, mas pela violência política permanente. O Iraque tornou-se o teatro principal de ação dos grupos terroristas que pregam a jihad global. A eventual mudança, pela força, dos regimes políticos no Líbano e na Síria dificilmente geraria regimes pró-americanos nesses países. Muito mais provável seria a expansão do cenário de conflito iraquiano para esses países e, em última análise, para a Palestina. É tudo com que pode sonhar Osama Bin Laden.
Boletim Mundo n° 3 Ano 13
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