quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

PROJETO DA EUROPA-POTÊNCIA SOFRE REVÉS HISTÓRICO NA FRANÇA

(...) FRANCESES E ALEMÃES, POR SEREM HOJE SOLIDÁRIOS, DEVERIAM RENEGAR TODOS OS ESFORÇOS REALIZADOS, TODOS OS SACRIFÍCIOS ACEITOS, DE UMA PARTE E DA OUTRA, NO CURSO DE UMA HISTÓRIA DURA QUE OS CONTRAPÔS COM TANTA FREQÜÊNCIA? (...) NA VERDADE, ALEMANHA E FRANÇA, PROCURANDO IMPOR RECIPROCAMENTE SUA DOMINAÇÃO PARA ESTENDÊ-LA EM SEGUIDA (...) PERSEGUIAM, CADA UMA POR SUA CONTA, O VELHO SONHO DA UNIDADE QUE, HÁ VINTE SÉCULOS, VISITA AS ALMAS DE NOSSO CONTINENTE. NAS AMBIÇÕES DE CARLOS V, DE LUÍS XIV, DE NAPOLEÃO, DE BISMARCK, DE GUILHERME II, DE CLEMENCEAU E MESMO – SIM, MESMO! – NA PAIXÃO DE QUE SE SERVIU, DURANTE A ÚLTIMA GUERRA MUNDIAL, UM REGIME DE OPRESSÃO CRIMINOSA (...) ENCONTRAM-SE AS HERANÇAS GRANDIOSAS DOS CÉSARES, DA CRISTANDADE, DE CARLOS MAGNO! (...) A UNIÃO DA EUROPA É, SOB QUALQUER FORMA, PARA A ALEMANHA E PARA A FRANÇA, UM OBJETIVO FUNDAMENTAL.
(CHARLES DE GAULLE, PRESIDENTE DA FRANÇA, EM BRINDE ERGUIDO AO CHANCELER ALEMÃO KONRAD ADENAUER, EM JULHO DE 1962)

Morto há 35 anos, o general Charles De Gaulle (1890-1970) ressurge na França do século XXI como um espectro, assombrando o governo de seu herdeiro político, o presidente Jacques Chirac, empenhado em adequar a França aos caminhos da União Européia, da qual o país é um dos fundadores.
No referendo de 29 de maio, uma maioria de 55% dos votantes disse “não” ao tratado constitucional europeu, contra 45% que optaram pelo “sim”. Com uma alta taxa de comparecimento às urnas (70%), pode-se dizer que os franceses votaram majoritariamente contra o aprofundamento dos laços com a União Européia, em favor dos interesses nacionais, como defendia o velho general.
Para De Gaulle, a então Comunidade Européia (CE), embrião da União Européia (UE), deveria ser uma “Europa das pátrias”, um acordo entre nações soberanas que preservavam suas identidades, jamais uma associação que limitasse a soberania dos Estados-nações europeus. Mas De Gaulle também queria a unidade da Europa, pois combatia a hegemonia americana no Velho Mundo, corporificada na OTAN, a aliança militar ocidental liderada pelos Estados Unidos. Tanto que, em 1966, ele retirou a França do comando unificado da aliança para poder organizar sua force de frappe (arsenal nuclear) independente dos americanos. Ironicamente, a vitória do “não” francês pode dificultar o antigo sonho da França, encampado pela Alemanha, de dotar a UE de uma política externa e de defesa comuns, que criaria condições de tornar a Europa um pólo de poder político e militar mundial e um contraponto tanto à supremacia americana quanto à emergência da China como potência global.
A necessidade de os europeus terem uma expressão política e militar própria, equivalente ao seu poderio econômico e autônoma em relação à OTAN, veio à tona com o colapso do bloco soviético, entre 1989 e 1991. Esse colapso rompeu a bipolaridade que desde o fim da Segunda Guerra dividia a Europa em esferas de influência americana e soviética e que deu origem tanto à CE quanto à OTAN. O encerramento da Guerra Fria trouxe a reunificação da Alemanha, em 1990, que reavivou os temores da França em relação à hegemonia germânica e acabou abrindo caminho para o aprofundamento da integração européia, expressa pelo Tratado de Maastricht, de 1991.
O método que produziu Maastricht tinha sido testado e aprovado no momento do lançamento do projeto de integração européia. A formação da Comunidade Européia do Carvão e do Aço (Ceca), de 1951, e o Tratado de Roma, de 1957, encaixaram a Alemanha Ocidental no leito da Europa, amarrando o seu destino ao da França. De modo similar, Maastricht buscava conjurar a ameaça de uma “Europa alemã”, acelerando-se a construção de uma “Alemanha européia”.
Maastricht definiu duas metas fundamentais: a criação de uma moeda única, o Euro, que entrou em vigor em 1999, e a definição de uma política externa e de defesa comuns. De Gaulle tremeria na cova se ouvisse falar desse tipo de fusão de soberanias nos domínios sagrados da moeda e da política exterior. Mas a noção de uma estrutura militar autônoma frente à OTAN inscreve-se na tradição gaullista. A França bem que tentou inscrever no tratado uma estrutura militar européia  mas, sob pressão da Grã-Bretanha e da Holanda, aceitou uma fórmula que subordina a defesa européia à Aliança Atlântica.
A incapacidade européia de elaborar uma política externa comum revelou-se trágica na eclosão da guerra civil na antiga Iugoslávia, a partir de 1991. Primeiro, na Bósnia, os europeus revelaram-se incapazes de estabelecer uma posição conjunta para deter a “limpeza étnica” perpetrada pelos sérvios e a carnificina que provocou a morte de 250 mil pessoas no quintal da Europa. Depois de quatro anos de impasse, por iniciativa de Washington, a OTAN interveio militarmente na Bósnia, pondo fim à conflagração. A diplomacia americana também cuidou dos arranjos para a divisão de poder entre os grupos étnicos na Bósnia.
A sensação de que a Europa era um “gigante econômico” e um “anão militar e político” se repetiria em 1999 na crise do Kosovo, a província sérvia de maioria albanesa, cuja resolução também foi levada a cabo pela intervenção da Aliança Atlântica, sob o comando de Washington.
Finalmente, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, foi o tiro de misericórdia na pretensão de uma política externa comum à UE. A forte oposição da França e da Alemanha à decisão unilateral de atacar Saddam Hussein contrastou com as adesões à coalizão americana da Grã-Bretanha, da Itália, da Espanha e de países do antigo bloco soviético recém-integrados à UE. Donald Rumsfeld, o secretário da Defesa de Bush, castigou franceses e alemães ao inventar uma “nova Europa” (composta pelos países da coalizão), em contraposição à “velha Europa” liderada por Paris e Berlim.
Mais tarde, após os atentados de Madri, em março de 2004, quando a Espanha retirou-se da coalizão e alinhou-se à “velha Europa”, Chirac saboreou uma doce vingança.
O projeto de uma Europa-Potência foi claramente simbolizado no dia 19 de janeiro, na grandiosa cerimônia de lançamento do super-jumbo A380, um avião com capacidade para 555 passageiros, fabricado pelo consórcio europeu Airbus com o objetivo de suplantar a americana Boeing. Os mais importantes líderes europeus presenciaram o vôo inaugural do monstro aéreo e enalteceram a capacitação tecnológica da Europa. O tratado constitucional, que abria caminho para a afirmação de uma política externa e de defesa comuns, era o lastro desse projeto geopolítico.
As principais razões que levaram o eleitorado da França e, dias depois, da Holanda a rejeitar o tratado constitucional foram menos geopolíticas do que domésticas: o temor difuso de perder direitos consagrados pelo welfare state, o medo do desemprego, bem como a rejeição à imigração e à entrada da Turquia na União Européia – temores que soldaram a extrema esquerda à extrema direita. Isso evidencia, mais uma vez, que as motivações nacionais ainda definem os interesses dos europeus – aliás, dos franceses, holandeses, belgas, alemães, britânicos.
O sonoro “não” de franceses e holandeses evidenciou o abismo que separa o grande projeto geopolítico de unidade, conduzido pelas elites dirigentes, dos sentimentos da maior parte dos cidadãos.

ENTRE A EUROPA E O “MAR ABERTO”
Às vésperas  do Dia-D, o 6 de junho de 1944, quando tropas anglo-americanas  desembarcariam nas praias da Normandia e iniciariam a operação de libertação da França ocupada pela Alemanha nazista, o líder francês Charles De Gaulle e o primeiro-ministro britânico Winston Churchill travaram instrutivo diálogo. O primeiro tomou a iniciativa de agradecer ao segundo pelo sacrifício que os soldados britânicos preparavam-se para fazer em nome da liberdade francesa.
A resposta de Churchill evidenciou que nada havia mudado na visão de mundo estratégica da Grã-Bretanha: “Se um dia formos  obrigados a escolher entre a Europa e o mar aberto, será o mar aberto que escolheremos”.
A opção de Churchill foi confirmada pelos sucessivos governos de Londres. No pós-guerra, quando França e Alemanha reverteram a antiga rivalidade e engajaram-se no projeto de integração européia, a Grã-Bretanha recusou-se a participar. Na ordem de prioridades da “pérfida Albion”, o império ocupava o primeiro lugar, seguido pela aliança estratégica com os Estados Unidos.
Com o tempo, o império dissolveu-se e Washington pressionou pelo ingresso britânico na Comunidade Européia, que se tornava um importante pilar da estratégia de “contenção” da União Soviética. A “pérfida Albion” ingressou, finalmente, em 1973, depois de uma década de negociações fracassadas e impasses que refletiam a rejeição de De Gaulle à “Europa atlântica”, “anglo-saxônica”, que estaria embutida na candidatura britânica.
A Grã-Bretanha entrou, mas estabeleceu-se na periferia do projeto europeu. A Comunidade e, depois, a UE foram construídas pelas iniciativas do núcleo franco-alemão, que empunhou a bandeira de uma “união cada vez mais estreita” por uma Europa com identidade política e militar própria.
Londres assinou o Tratado de Maastricht, mas não se engajou no lançamento do euro. Criticou as tentativas francesas, na década de 90, de criar um exército europeu. Em 2003, quando George W. Bush decidiu invadir o Iraque, o primeiro-ministro Tony Blair perfilou-se atrás dos Estados Unidos. A divisão da Europa foi sintetizada nas expressões um tanto jocosas do secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld: a “Nova Europa”, liderada pela Grã-Bretanha, seria formada pelos participantes da coalizão no Iraque; a “Velha Europa”, alinhada com a França e a Alemanha, seria constituída pelos países que rejeitaram a “guerra americana”.
A linha de fronteira merece exame. Entre os países do antigo bloco soviético no leste europeu, a maior parte optou pela “Nova Europa”. É que esses Estados valorizam, mais que a parceria com franceses ou alemães, a segurança geopolítica proporcionada pela OTAN. Entre os tradicionais integrantes da União Européia, apenas Holanda, Itália, Dinamarca e Espanha seguiram o caminho britânico. Mesmo assim, a Espanha retirou-se da coalizão e voltou ao leito da “Velha Europa” após os atentados de Madri e as eleições gerais, nas quais afundou o governo conservador de José María Aznar, em março de 2004.
A “pérfida Albion” defendeu a ampliação da UE para o leste europeu, pois o processo enfraquece a liderança franco  alemã.
A França, especialmente, lamentou a ampliação. Mas a elite dirigente francesa apostava todas as fichas no tratado constitucional, que reabriria o caminho para a construção de uma Europa-Potência capaz de contrabalançar o poder dos Estados Unidos e as ambições crescentes da China. A morte do tratado, decretada pelos próprios eleitores franceses, representa um golpe terrível nessa estratégia.
Os atentados da jihad global contra Londres, no 7 de julho, não surpreenderam ninguém. A pergunta não era “se”, mas “quando” a capital britânica seria vítima da rede do terror. Os fanáticos jihadistas são assassinos, mas não “loucos”: agem de acordo com uma estratégia definida. A escolha de Londres inscreve-se na lógica de castigar os países engajados na ocupação do Iraque. A “Nova Europa” é o alvo prioritário, embora nenhum lugar esteja a salvo de terroristas que declararam uma “guerra santa” global.
Os governos nem sempre refletem a vontade dos povos, mesmo nas democracias. Os franceses votaram contra seus dirigentes, ao rejeitarem o tratado constitucional. Os britânicos encheram as ruas de Londres, em 2003, para protestar contra a guerra no Iraque.
Blair, previsivelmente, reagiu aos atentados de 7 de julho reafirmando o alinhamento da Grã-Bretanha aos Estados Unidos. Mas essa posição representa um desafio permanente à opinião pública.
Até quando poderá sustentá-la?
Boletim Mundo n° 4 Ano 13

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