Caso a Europa não adote medidas modernizadoras e fique presa a “modelos do passado”, perderá espaço para a China e a Índia, disse Blair, em crítica direta ao presidente francês Jacques Chirac e ao primeiro-ministro alemão Gerhard Schröder, vistos como incapazes de derrotar e enterrar o modelo de bem-estar social franco germânico (em oposição ao neoliberalismo anglo-americano).
Não se trata, disse Blair, de opor um ao outro, mas de promover a combinação dos dois modelos (mercado com justiça social). O problema é que até agora ninguém descobriu como fazer essa mágica. O próprio tom do discurso do primeiro-ministro foi um sintoma da crise que abala a UE, acentuada após a recente rejeição da Constituição Européia, por franceses e holandeses. O impacto do “não” agravou a sensação de impotência dos líderes europeus, que acabavam de concluir uma fracassada rodada de negociações destinadas a aprovar um orçamento para o período 2007 – 2013. Como conseqüência de graves divergências quanto aos rumos econômicos e sociais que a aliança deverá assumir nos próximos anos, eles não chegaram a um acordo.
A questão do bem-estar social é um dos grandes “nós”. Boa parte dos franceses e holandeses que votaram “não” nas consultas nacionais sobre a Constituição Européia, realizadas, respectivamente, em 29 de junho e 1 de julho, pensavam na defesa de direitos sociais e trabalhistas, conquistados ao longo da segunda metade do século 20. Tais direitos, já bastante restringidos após as medidas de “reengenharia econômico-financeira” adotadas com o objetivo de introduzir o Euro, seriam ainda mais afetados, caso a constituição fosse aprovada, aproximando-se do modelo em vigor nos Estados Unidos e Inglaterra (cortes radicais nas verbas destinadas aos sistemas previdenciário, de saúde e educação pública, fortalecimento da “previdência complementar” privada, flexibilização das leis que regulamentam as relações entre o capital e o trabalho etc.).
O “apito da panela de pressão” contra as reformas neoliberais soou na França, no final de 1995, quando uma greve geral de 25 dias barrou as reformas pretendidas pelo governo e oficializou a semana de 35 horas.
Desde então, eclodiram várias greves e movimentos em praticamente todos os países europeus, com intensidades e durações variadas. Mas eles se tornaram mais significativos após a criação da UE, quando foram intensificados os processos econômicos e políticos no âmbito da aliança.
Assim, pela primeira vez em vinte anos, em 16 de abril de 2002, 13 milhões de trabalhadores italianos - isto é, 90% do total – fizeram uma greve geral em defesa do artigo 18 do Estatuto dos Trabalhadores, que impede a demissão sem justa causa, cuja abolição era defendida pelo primeiro- ministro Berlusconi. Em agosto, mais de um milhão de funcionários públicos britânicos paralisaram suas atividades, num das maiores manifestações do tipo após a derrota da histórica greve dos mineiros (1983 – 84), imposta por Margaret Thatcher. Na Alemanha, os sindicatos impediram medidas propostas por Schroëder, que, além de atacar as aposentadorias, atingiam o salário-desemprego e flexibilizavam as condições para demissões.
Em 2003, novamente a França foi completamente paralisada por uma greve geral e grandes manifestações (em 13 de abril). Em outubro, foi a vez de os trabalhadores italianos realizarem outra greve geral com adesão de praticamente 100%.
A resistência é incessante e está na base das crises enfrentadas por sucessivos governos nacionais. A solução proposta por Blair, por ele denominada “terceira via”, até agora não se realizou. Talvez ela exija a nomeação de Harry Potter para a presidência da UE.
Boletim Mundo n° 5 Ano 13
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