No final da década de 1970, o escritor e cientista Isaac Asimov, um dos grandes mestres da ficção científica americana, publicou um livro de ensaios com um título intrigante: “Escolha a catástrofe”. Na verdade, o título era irônico, pois ninguém gostaria de escolher entre as diversas possibilidades de destruição da vida no planeta Terra, descritas no livro. Do choque com um meteorito à guerra nuclear, da explosão de uma super nova a uma epidemia causada por microorganismos alienígenas, os últimos dias da humanidade eram avaliados segundo o grau de possibilidade, alcance da destruição e, o mais importante (para nós), probabilidade de a catástrofe ocorrer em um futuro não tão distante.
O livro pretendia ser um manual de divulgação científica, mas Asimov não deixa de comentar o quanto todos esses cenários, até mesmo os mais improváveis, já haviam sido retratados pelas mentes imaginativas dos escritores de ficção científica. De fato, a primeira obra do gênero, escrita em 1805 por Jean-Baptiste de Grainville, trazia o sugestivo título “O último homem”. De lá para cá, as catástrofes imaginadas foram descritas em inúmeras formas, na maioria das vezes mostrando ao leitor que sempre há uma esperança de salvação.O tema atraiu tanto interesse porque, desde o início, a ficção científica explorou a relação complicada entre o homem e a natureza, mediada pelas forças poderosas, mas nem sempre sob controle, da ciência e da tecnologia. A figura do “cientista maluco”, que pretende realizar um grande avanço científico e acaba por criar problemas e monstruosidades, tem seu precursor no Doutor Frankenstein de Mary Shelley (1818), e continua com o Doutor Ox de Jules Verne (1874), o Doutor Jekyll de Robert Louis Stevenson (1888) e o Doutor Moreau de H. G. Wells (1896).
Mas os cientistas, aos poucos, tornaram-se também os heróis da história, alertando seus incrédulos e despreocupados contemporâneos sobre os diversos perigos que rondam a exploração dos recursos naturais do planeta. Nasceu assim a “ficção científica ecológica”, que além de entreter tem a missão de conscientizar o leitor para a necessidade de preservação do meio-ambiente, sob o risco de o planeta enfrentar catástrofes bem reais, e nada improváveis.
Já se disse que a ficção científica está distante da ciência, tanto quanto está distante da ficção. O paradoxo explica por que, em plena discussão sobre a recusa America na em assinar o Protocolo de Kyoto, livros e filmes têm buscado retratar as conseqüências futuras do aquecimento global, causado pela emissão descontrolada de gases poluentes na atmosfera. Para além dos efeitos especiais e páginas repletas de horror, resta sempre a esperança de que algo seja feito para evitar a catástrofe, ou para diminuir seus efeitos devastadores.
O filme “O dia depois de amanhã”, dirigido por Roland Emmerich (2004), é um bom exemplo de “ficção científica ecológica”. Um climatologista, cientista que estuda a evolução das mudanças climáticas no planeta, é surpreendido por uma enorme fissura que divide parte da calota polar ártica, na qual ele e sua equipe pesquisavam o clima através de amostras do gelo acumulado em milhares de anos. Impressionado com o alcance do evento, ele tenta convencer os líderes mundiais de que uma grande catástrofe está se configurando, sugerindo medidas para diminuir a emissão de gases na atmosfera. O fictício vice presidente americano, presente no congresso, desdenha a fala do cientista, alertando para as conseqüências econômicas de qualquer decisão nesse sentido.
Até aqui, nada do que foi mostrado está muito longe do que acompanhamos nas páginas dos jornais atuais.
Mas o filme condensa, em alguns dias, os prognósticos mais sombrios projetados pelos cientistas de verdade em relação ao aquecimento global. O gelo derretido esfria a temperatura dos mares, invertendo o fluxo das correntes marítimas do oceano e causando uma enorme tempestade, que pouco a pouco arrasa boa parte do hemisfério norte. Em poucos minutos a temperatura cai para 60 graus negativos, matando milhões de pessoas.
O roteirista não se contém, e adiciona um toque de ironia. Diante da destruição inevitável, milhares de norte- americanos buscam escapar do frio no ensolarado país vizinho, o México, que fecha suas fronteiras! Acostumado ao frio, o heróico climatologista empreende uma difícil viagem, em condições extremas, para salvar seu brilhante filho, que ficou (literalmente) ilhado na Biblioteca Pública de Nova York.
O filme termina com o habitual “final quase feliz” de tantas obras do gênero, já antecipado por qualquer espectador dos filmes de Hollywood (por isso este artigo não está estragando a festa). Embora milhões tenham morrido, a família do herói se salva por pouco, e um novo dia amanhece para toda a humanidade, agora unida pelos mais altos ideais. De fato, o próprio vice-presidente americano, obrigado a assumir o cargo, faz um discurso reconhecendo os erros do passado e conclamando a todos (os sobreviventes) para a preservação do meio ambiente.
Presos na biblioteca, alguns jovens sobrevivem queimando livros, em um ato de desespero. Se os políticos e industriais os tivessem lido antes, sugere o roteirista, talvez a catástrofe pudesse ter sido evitada. Esse é o lado didático da ficção científica ecológica: a sugestão de que ainda há tempo para, com a luta política e a conscientização, evitar as catástrofes do futuro.
Pelo menos aquelas das quais somos os culpados.
História e Cultura n° 2 Ano 1
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