Em julho deste ano, um fato surpreendente (alguns diriam “mágico) ocorreu no mercado editorial brasileiro.
Na lista dos livros mais vendidos, uma obra infanto juvenil, em inglês, ocupava o terceiro lugar: Harry Potter and the Half-Blood Prince, sexto volume da série escrita por J. K. Rowling, vendeu 4 mil exemplares apenas na noite de lançamento, com um preço em torno de 100 reais. Um feitiço digno da metamorfose de papel em ouro.Além de dizer muito sobre o perfil dos consumidores de livros no Brasil, os números dão o que pensar, também em escala mundial. Nas primeiras vinte e quatro horas, o livro vendeu, no mundo, mais de 10 milhões de exemplares, elevando para 270 milhões o número total de venda da série. Quarenta e oito horas depois, sites de vários países já publicavam versões piratas da obra, traduzidas por equipes de colaboradores voluntários, fãs do pequeno bruxo. Nesse meio tempo, a autora deixou de ser sustentada pelo salário desemprego e, como em um conto de fadas da nova economia, se tornou uma das mulheres mais ricas do mundo, com fortuna avaliada em alguns bilhões (isso mesmo!) de libras.
Para além do imenso poder da propaganda e do efeito multiplicador da enorme exposição na mídia, o que poderia explicar o fenômeno Harry Potter? Quem leu algum volume ou assistiu a seus filmes percebe que muito do interesse deriva de uma mescla bem sucedida de dois gêneros bastante cultivados pela literatura inglesa: o romance gótico, com seus fantasmas e bruxos, e a narrativa biográfica ou ficcional sobre a experiência nos bancos escolares, marcada por um aluno herói que enfrenta as alegrias e pesadelos dessa instituição.
Os fantasmas bretões dos filmes de Harry Potter são muito mais antigos e sutis do que podem parecer à primeira vista. No romance gótico do século 18, por exemplo, a incorporação do sobrenatural é uma solução literária para uma tensão social e histórica: a convivência entre seus heróis e vilões seria um índice do relacionamento ambíguo -pendulando do medo ao interesse e vice-versa - entre a burguesia e a aristocracia. O próprio adjetivo “gótico” já carrega essa contradição: tem uma conotação positiva, referente às origens do povo inglês (gótico tem a ver com os godos, com as tribos nórdicas européias), e outra negativa (gótico é o bárbaro, o feudal e o irracional). Portanto, o sobrenatural na Inglaterra é como um velho fantasma, ao mesmo tempo familiar e estranho, que pode dizer algo do modo como as pessoas se relacionam no mundo real.
Por outro lado, nada mais familiar e estranho do que a experiência da escola, um cenário bastante frutífero para a experiência literária. Microcosmo da sociedade, com seus traumas, rituais, conflitos por poder e prestígio, choques entre grupos e níveis hierárquicos, o tema da escola contém um dos elementos fundamentais para o sucesso na literatura infanto-juvenil: a possibilidade de uma rápida e forte identificação entre o leitor e os personagens. Em vez da visão idealizada ou da fábula edificante, Rowling apresenta a escola de forma realista, mesmo em seu cenário fantástico.
Nas aventuras de Harry Potter, as vassouras (que têm marca, preço e até fazem propaganda, como qualquer carro de luxo) voam, as pessoas atravessam paredes, podem se transformar em animais etc. O inverossímil e o inexplicável aparecem como sendo reais, sem que isso resulte em perplexidade (o que ocorre somente para os não pertencentes ao mundo da magia, os trouxas, na feliz tradução brasileira).
Também a forma dos filmes de Harry Potter obedece às exigências básicas da representação hollywoodiana da realidade: a montagem a serviço do ilusionismo, o mecanismo de identificação entre herói e público, a interpretação realista dos atores, os cenários construídos para parecerem reais (mesmo quando irreais, eles devem “parecer verdadeiros”), o drama ascendente em três atos com dois pontos de virada principais, as histórias baseadas nos originais repletos de convenções de fácil leitura e comprovadamente aceitos junto ao público, a funcionalidade comunicativa de cada elemento do roteiro.
Contudo, se pensarmos no conteúdo, o sucesso de Harry Potter talvez indique a necessidade de se buscar um lugar adequado para o “encantamento do mundo”, para além da mesquinha onipresença da competição no mercado e do “fetichismo” da mercadoria, que aparece como mágica nas prateleiras das lojas e supermercados, desvinculada de seu processo de produção. Por isso, faz todo sentido que um público gigantesco busque um re-encantamento da vida noslivros e filmes do jovem bruxo. De fato, o mundo nunca foi tão maravilhoso como no atual estágio do capitalismo: o inexplicável é aceito sem perplexidade; o sobrenatural, confundido como o natural; e o falso, tornado verossímil.
O simpático Harry Potter vai ter que agitar bastante sua varinha para dissolver esse feitiço que se abate sobre os trouxas.
História e Cultura n° 5 Ano 1
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