Com o final da escravidão no Brasil, em 1888, os ex-escravos não foram imediatamente integrados à sociedade. Alguns continuaram trabalhando nos seus antigos cativeiros em troca de moradia e comida, outros foram tentar a vida à margem das cidades, nas poucas oportunidades que sobravam.
Um dos primeiros pontos de contato entre esses dois âmbitos da vida social se deu nas festas de rua, principalmente no carnaval. Entre várias manifestações de música popular, o samba foi se constituindo como um elemento de identidade, primeiramente entre negros e mestiços, atrelado à dança e praticado geralmente nos quintais das casas, de forma clandestina.No início do século XX, o samba vai assumindo lentamente um novo estatuto.
A necessidade de constituição de uma cultura de massas por meio das emissoras de rádio fez com que esse ritmo marcadamente nacional virasse uma de suas principais atrações. Com a revolução de 1930, que põe fim à hegemonia da burguesia do café, e com o processo de aceleração do desenvolvimento industrial, um novo estrato social, a classe trabalhadora, começa a ter um maior papel sócio-político. O samba, no contexto da Era Vargas (1930-1954) vira um forte elemento na criação de uma identidade nacional.
Um tema, o trabalho, chama a atenção em toda essa história. O trabalho foi visto durante toda a colônia, até a abolição, como algo relacionado ao escravo, portanto degradante para o homem livre. Enquanto o trabalho era elevado ao grau máximo da dignificação humana nos países centrais do capitalismo, aqui roubava a humanidade do trabalhador, pois um escravo era objeto de posse de seu senhor, objeto de que o senhor podia dispor da maneira que bem entendesse. Trabalhar, nesse contexto, era se identificar com o que não tem um estatuto propriamente humano.
Com o fim da escravidão, o processo de adaptação da jovem nação brasileira à forma de trabalho praticada nos centros capitalistas foi lento. Muitos dos primeiros sambas retratam o trabalho negativamente, como algo que roubará a vida de quem cair nas suas malhas, como por exemplo O que será de mim, samba de 1931: Se eu precisar algum dia / de ir pro batente / não sei o que será / Pois vivo na malandragem / e vida melhor não há. Na última estrofe, o samba nega a ideologia européia do trabalho que dignifica o homem:O trabalho não é bom / ninguém pode duvidar / trabalhar só obrigado / por gosto ninguém vai lá .
A figura do malandro que vive de pequenos golpes se opõe à do trabalhador que acorda cedo, trabalha e nunca sai do “miserê” como em “Lenço no pescoço”, de Wílson Batista: Sei que eles falam / deste meu proceder.
Eu vejo quem trabalha / andar no misere / eu sou vadio / porque tive inclinação.
Em Pedreiro Valdemar, do mesmo autor, o trabalho regular e cotidiano é tratado como
uma armadilha: Você conhece o Pedreiro Valdemar?
não conhece,mas eu vou lhe apresentar / De madrugada toma o trem na circular / faz tanta casa e não tem casa pra morar.
Com o Estado Novo, em 1937, momento em que Getúlio Vargas fecha o Congresso Nacional e passa a governar com poderes ditatoriais, o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) passa a exercer um controle maior sobre a cultura em geral e o samba em particular. Os sambas que apresentam uma visão parecida com as mencionadas acima são censurados e o governo começa a encomendar músicas que falem bem das questões nacionais.
O próprio Wilson Batista, talvez numa demonstração de prudência - muitos artistas foram presos e perseguidos – compôs com Ataulfo Alves, em 1940, “O bonde São Januário”:Quem trabalha é que tem razão / Eu digo e não tenho medo de errar / O bonde São Januário / leva mais um operário / Sou eu que vou trabalhar / Antigamente eu não tinha juízo / mas resolvi garantir meu futuro / sou feliz, vivo muito bem / a boemia não dá camisa a ninguém.
O Estado Novo forçou uma transformação de cima para baixo na forma de se encarar o trabalho. Diante da necessidade de uma rápida modernização visando a um alinhamento com as grandes potências capitalistas, sem se preocupar porém com os abismos cada vez mais fundos entre um Brasil pobre e arcaico e um Brasil que se industrializava, o governo Vargas tentava integrar esses diferentes aspectos do país pela via ideológica, usando os modernos veículos de comunicação. Nesse sentido, o rádio e os sambas que enalteciam o país forjaram, ainda que de maneira artificial, uma certa identidade da nação, que ainda hoje ecoa na música popular brasileira.
História e Cultura n° 4 Ano 1
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