sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

JOÃO PAULO II COMBATEU O ESPECTRO DE UM CISMA NA IGREJA

Pontificado do papa polonês deixa herança ambígua, que combina doutrinas morais conservadoras com a defesa coerente dos direitos humanos.
João Batista Natali

Para muitos, o pontificado de João Paulo II foi marcado por posturas políticas e teológicas do mais destilado conservadorismo. É apenas parte da verdade.
Há, antes de mais nada, esse fenômeno raro na história do Catolicismo que foi a escolha de um papa originário da Polônia, no conclave concluído em 16 de outubro de 1978. Bem mais que na Itália ou na Espanha, em que o catolicismo é historicamente politizado e agressivo, a Igreja polonesa funcionou desde o século XVIII, para o bem ou para o mal, como uma marca determinante da identidade nacional. Era por meio da Igreja que os poloneses forjavam seu patriotismo quando regiões do país estavam entregues à soberania do Império Russo ou do Império Austro-Húngaro. Em 1945, com a derrota alemã e o avanço do Exército Vermelho sobre a Europa Oriental, os poloneses passaram praticamente incólumes pelo processo de ateização que o Estado comunista desencadeara em países como a Hungria, a Eslovênia ou a Tchecoslováquia. As igrejas polonesas permaneciam cheias de fiéis. O catolicismo se tornara uma linguagem pela qual setores da sociedade resistiam à opressão stalinista.

NA POLÔNIA, O CATOLICISMO APRESENTOU-SE COMO FORÇA NACIONAL
Mas, bem antes, o Catolicismo desempenhou outras funções nacionais. A Polônia cristã se sentia “ameaçada” por uma numerosa comunidade judaica. Foi com base na existência dessa minoria interna que o catolicismo alimentou um longo ciclo de repressões anti-semitas. O extermínio físico de judeus durante a Segunda Guerra Mundial foi bem maior na Polônia que na Alemanha. A resistência antifascista foi também, em parte, católica. Mas não representava o pensamento dominante naquele período.
Foi nessa Polônia que, em 1920, nasceu Karol Wojtyla, padre (1946), bispo (1958) e cardeal (1967) que no final dos anos 70 participou da coalizão social que estimulou o sindicato Solidariedade, nascido na indústria de construção naval de Gdansk, e que seria um dos núcleos do poder após o colapso do regime pró-soviético.
Ao ser entronizado como sucessor de João Paulo I, Wojtyla encontrou uma Igreja dividida e ameaçada de cisão. Tratava-se do produto de tudo o que ocorrera dentro dela após o pontificado de Pio XII, que morreu em 1958. Depois dele viera João XXIII, que convocou os dois concílios Vaticano e promoveu uma modernização litúrgica – as missas, por exemplo, passaram a ser rezadas nos idiomas nacionais, e não mais em latim – e também política, com uma sensibilidade maior para com a pobreza, com a dissociação das oligarquias regionais. Uma Igreja politizada mais para a esquerda, que passava a concorrer com a doutrina marxista entre as forças que pregavam profundas transformações sociais.
Paulo VI, sucessor de João XXIII, encontrou a Igreja conflagrada. Mesmo sendo um conservador, não conseguiu driblar o crescimento numérico de um clero engajado e que se sentia compromissado com os oprimidos. Os extertores da Guerra Fria aconselhavam a não deixar o monopólio das preocupações sociais a marxistas e agnósticos.
João Paulo II se tornou papa com uma primeira missão primordial: reunificar o Catolicismo. E só poderia fazê-lo com base em valores tradicionais e dogmáticos, como a vida e a família.
A interpretação conservadora desses valores implica se opor aos meios anticoncepcionais, sugere a castidade como instrumento de impedir a expansão da epidemia da Aids, se posiciona de modo agressivo contra o aborto, condena o homossexualismo e a união conjugal entre gays ou entre lésbicas. Em outras palavras, atropela tendências que se fortaleceram a partir dos anos 60, sobretudo  no Ocidente, e que eram marcadas por formas inéditas de tolerância pelas minorias. João Paulo II deixou de promover a cardeal bispos notoriamente progressistas, como o brasileiro Helder Câmara, de Olinda e Recife. Do seu ponto de vista, era um meio de impedir um novo racha dentro do Cristianismo.

EM NOME DA DOUTRINA CONSERVADORA
Esse é o conteúdo predominante das 14 encíclicas que o papa redigiu durante seu pontificado, em especial “Veritatis Splendor” (1993), sobre os fundamentos da moral católica, e “Evantelium Vitae” (1995), sobre a inviolabilidade da vida humana. Mas João Paulo II também legislou sobre questões sociais, como em “Laborem Exercens” (1981), sobre os problemas dos trabalhadores, ou “Centesimus Annus” (1991), que comemorou o centenário da “Rerum Novarum”, de Leão XIII, a primeira encíclica do Catolicismo com explícitas preocupações com a pobreza que o capitalismo gerou.
Foram 102 viagens internacionais, com 129 países visitados. Foram 2.409 homilias lidas durante essas viagens.
Foram 703 chefes de Estado e 226 chefes de governo recebidos em audiência. Foram 1.318 beatificações e 476 canonizações. É nessas oportunidades que o papa transmite seu recado à Igreja – palavra que, para o Vaticano, não designa a hierarquia eclesiástica, a máquina burocrática do Catolicismo, mas o conjunto dos fiéis batizados. Nas canonizações, o papa privilegiou uma médica italiana que morreu de parto para não abortar. E relegou às calandras o religioso Oscar Romero, barbaramente assassinado em 1980 por milícias da extrema-direita salvadorenha.
Vamos, no entanto, temperar nossas visões. João Paulo II defendeu as liberdades públicas ao visitar a ditadura chilena de Augusto Pinochet. Se  opôs ao embargo econômico ao visitar a Cuba de Fidel Castro e o Iraque de Saddam Hussein. Não deixou de visitar países em que cristãos ou não-cristãos estavam encarcerados pelos chamados “crimes de opinião”. Foi uma constante em seu pontificado. O papa jamais traiu o apego aos direitos humanos, por mais que os tenha apregoado com uma ênfase conservadora.
Seu legado é coerente, por mais que descontente os saudosistas brasileiros da teologia da libertação.

Boletim Mundo n° 3 Ano 13

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