A utilização de células-tronco é uma terapia celular para tratar doenças e lesões através da substituição de tecidos doentes por células saudáveis. Por exemplo, o transplante de medula óssea para tratar pacientes com leucemia é um método de terapia celular já conhecido e comprovadamente eficiente. A medula óssea do doador contém células-tronco sangüíneas que vão fabricar novas células sangüíneas sadias.
A terapia com células-tronco poderá, no futuro, tratar muitas doenças degenerativas, hoje incuráveis, causadas pela morte prematura ou mal funcionamento de tecidos, células ou órgãos. Como exemplo, podemos citar as doenças neuromusculares, diabetes, doenças renais, cardíacas ou hepáticas. Para isso, estão sendo feitas inúmeras pesquisas no mundo todo para descobrir como fazer as células-tronco se diferenciarem no tecido que está doente.As células-tronco embrionárias constituem uma das grandes esperanças da medicina. Isso porque, ao contrário das células adultas, elas mantêm a capacidade de se converter em qualquer tipo de tecido, de nervos a ossos.
A nova Lei brasileira de Biossegurança, aprovada pela Câmara dos Deputados em março, depois de um longo debate, autoriza as pesquisas médicas com células-tronco de embriões humanos que constituam sobra de tratamentos para fertilidade. Pode-se imaginar o que isso representa para milhões e milhões de brasileiros, no presente e no futuro.
A aprovação da lei deu-se em meio a um intenso debate, principalmente com representantes de determinadas correntes religiosas, para quem o uso de células de embriões humanos representaria um “ataque à vida”, já que esses embriões não poderiam se tornar seres humanos.
Isso está errado.
Quando falamos em embriões, há quem pense que nos referimos a fetos, com perninhas e bracinhos. Mas estamos nos referindo a montinhos de células, que teriam um baixíssimo potencial de vida. Ainda assim, a Lei de Biossegurança autoriza pesquisas com embriões que sobraram de tratamentos de fertilidade. Quer dizer, eles seriam descartados ou congelados. Não se transformariam em seres humanos, como alguns querem fazer crer.
A polêmica entre “ataque” e “defesa” da vida é, então, totalmente falsa. Para a Ciência, a vida é um ciclo. Um embrião é formado, se desenvolve e, um dia, vai produzir células que darão origem a um novo ser. Assim, se um embrião for congelado, não tendo qualidade para formar uma vida, o ciclo acabou. Mas se deste embrião forem extraídas células-tronco que podem representar a cura de alguém que estaria desenganado, então o ciclo da vida será mantido. Essa concepção, claramente de defesa da vida, levou inúmeros grupos de todas as religiões – no Brasil e no mundo – a se posicionarem em favor da liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias.
Mas a tese do “ataque à vida” não foi a única concepção errônea difundida em meio ao debate sobre a Lei de Biossegurança.
Houve quem associasse diretamente as células-tronco com a clonagem terapêutica, isto é, a transferência de núcleos de uma célula para um óvulo sem núcleo.
A clonagem terapêutica nada mais é do que um aprimoramento das técnicas hoje existentes para culturas de tecidos, que são realizadas há décadas. A grande vantagem é que, ao transferir o núcleo de uma célula de uma pessoa para um óvulo sem núcleo, esse novo óvulo – ao dividir-se – gera, em laboratório, células potencialmente capazes de produzir qualquer tecido. A clonagem terapêutica teria a vantagem de evitar rejeição, se o doador fosse a própria pessoa. Seria o caso, por exemplo, de reconstituir a medula em alguém que se tornou paraplégico após um acidente, ou substituir o tecido cardíaco em uma pessoa que sofreu um infarto. Ainda assim, a clonagem terapêutica foi proibida pela Lei de Biossegurança.
E quem fazia a associação automática entre terapia com células-tronco e clonagem terapêutica quase sempre lançava o alarme sobre o perigo do descontrole das pesquisas.
Poderíamos presenciar o surgimento de clones humanos ou de Frankensteins a serviço sabe-se lá de que interesses. Outro engano. Nenhuma pesquisa científica desenvolvida por entidades sérias, no Brasil e no mundo, deixa de ser fiscalizada por comitês de Bioética. Esses comitês incluem representantes de entidades médicas, religiosas, do poder público e da sociedade civil, justamente para impedir qualquer manipulação da ciência.
Finalmente, um alerta: aproveitando a onda e o desespero de muita gente, há quem esteja “vendendo” as pesquisas com células-tronco embrionárias como uma solução mágica e imediata. Nem um nem outro. Trata-se de mais um passo para o tratamento de inúmeras doenças: a caminhada continua. Mas foi, sem dúvida, um grande passo.
Boletim Mundo n° 3 Ano 13
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