No dia 8 de março, menos de um mês após o assassinato do ex-primeiro ministro libanês Rafic Hariri (em 14 de fevereiro), as ruas de Beirute foram tomadas por uma impressionante multidão de pelo menos 500 mil pessoas.
Elas expressavam o seu apoio ao governo sírio, responsabilizado pela morte de Hariri (uma acusação negada por Damasco), e pela manutenção das tropas sírias no sul do Líbano (cerca de 16 mil soldados).O mais impressionante é que uma única força política convocou e organizou a manifestação: o Hezbollah (do árabe, Partido de Deus), organização armada composta majoritariamente por xiitas, apoiada pelo Irã e pela Síria, e acusada de terrorista pelos Estados Unidos.
A força política evidenciada pelo Hezbollah causou grande impacto no cenário internacional. Longe de ser um pequeno agrupamento de fanáticos, como costuma ser apresentada pela mídia internacional, a organização tem representação política no parlamento libanês (ocupa nove das 128 cadeiras), administra uma rede de hospitais e casas de saúde destinadas a oferecer assistência aos mais pobres, mantém uma emissora de televisão (a Al Manar, cujas transmissões internacionais foram recentemente interditadas pela França) e, claro, é organizada militarmente.
Com essa estrutura e influência, não será exagerado afirmar que o Hezbollah adquire as dimensões de um “estado dentro do Estado”. Sua atuação foi decisiva para forçar a retirada de Israel do sul do Líbano, no ano 2000, evento que granjeou grande simpatia do mundo árabe para a organização.
BUSH EXIGE E SÍRIA SE RETIRA
Uma semana após a demonstração de força do Hezbollah, as correntes de oposição ao atual governo libanês, que se alinha com a Síria, reuniram cerca de 800 mil pessoas em Beirute, para pedir a retirada imediata dos soldados sírios. Pressionado pelos Estados Unidos e confrontado pela óbvia divisão da sociedade libanesa, o presidente sírio Bachar Assad ordenou o início da retirada de suas tropas, em processo a ser completado em alguns meses.Bush exige que a retirada total termine em maio, para quando foram convocadas novas eleições gerais. A retirada da Síria estava vagamente prevista pelo Acordo Nacional de Reconciliação, assinado em Taif (Arábia Saudita), em outubro de 1989, que pôs fim à sangrenta guerra civil libanesa, iniciada em 1975, responsável por 150 mil mortes e pela destruição total do país.
O Acordo de Taif, articulado principalmente por Rafic Hariri, reduziu os poderes executivos do presidente (cristão) e criou um gabinete, liderado pelo primeiro-ministro (muçulmano) e integrado de forma igualitária por muçulmanos e cristãos. A fórmula conseguiu contemplar a miríade de interesses contraditórios, organizados de forma complexa em torno das facções religiosas que formam o tecido social libanês (os cristãos maronitas e os sunitas, por exemplo, são identificados aos setores mais ricos, tendo líderes associados ao capital internacional, ao passo que os xiitas compõem os setores mais pobres). O próprio Hariri, multibilionário ligado à família real saudita, era de religião sunita.
Mas o fim de três décadas de intervenção militar síria no Líbano e a eventual formação de um novo governo libanês, caso realmente ocorram as eleições em maio, não anulam a presença do Hezbollah no sul do Líbano. Admirado por uma boa parte da população libanesa como uma força de resistência ao exército israelense, o Partido de Deus tem agora sua importância aumentada: com a saída dos soldados sírios, a sensação de vulnerabilidade a um ataque de Israel é muito maior. Desprotegido, o vale de Bekaa torna-se um “corredor” por onde tanques de Ariel Sharon poderiam atingir rapidamente a fronteira síria.
Como contrapartida, a possibilidade de um acordo de paz entre sírios e israelenses é remota, enquanto Israel não devolver à Síria os territórios compreendidos pelas colinas de Golã, ilegalmente ocupados após a Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967. Como conseqüência do impasse, Damasco sequer reconhece o direito à existência de Israel. A perspectiva, portanto, é de que os nervos continuem à flor da pele no sul do Líbano.
O PROJETO DA “GRANDE SÍRIA”
Além disso, mantém-se a relação de permanente tensão entre Damasco e Beirute, cuja origem é histórica e remete a um período da Antigüidade, quando a Síria abrangia os atuais Líbano, Israel e Jordânia, além de partes do Egito, Turquia e Iraque. A antiga “Grande Síria” foi desintegrada por sucessivas guerras, ao longo de uma história milenar.A Síria moderna teve suas fronteiras traçadas pelo acordo secreto Sykes–Picot, celebrado em 1916 entre a Grã-Bretanha e a França, sobre os escombros do Império Turco-Otomano, no quadro da Primeira Guerra Mundial. Nos termos do acordo, a Síria e o Líbano foram entregues à França; a Grã-Bretanha ficou com o Iraque, a Transjordânia (atual Jordânia) e a Palestina.
Síria e Líbano conquistaram a soberania apenas em 1946, por decisão da ONU.
A restauração da “Grande Síria” é um projeto geopolítico acalentado pelo partido pan-arabista Baath, chefiado na Síria pelo atual presidente Bachar Assad e, antes, por seu falecido pai, o ex-presidente Hafez Assad . Aos olhos do regime sírio, o Líbano é apenas uma província, sem qualquer direito ao estatuto de nação soberana.
Assim, a retirada de tropas é encarada, na lógica de Damasco, apenas como mais um capítulo de uma história muito longa, uma providência tática no quadro de um jogo que ainda terá muitos desdobramentos, incluindo, eventualmente, novos banhos de sangue.
Boletim Mundo n° 3 Ano 13
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