sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

TERROR ISLÂMICO EMERGIU DAS RUÍNAS DO PAN-ARABISMO

No vácuo político, gerado pelo fracasso do projeto da unificação nacional dos árabes, configurou-se o fundamentalismo islâmico contemporâneo. A nova “jihad” busca a restauração da comunidade islâmica mundial.

O mundo muçulmano estende-se desde o Senegal, no ocidente africano, até as Filipinas, nos limites do Oceano Pacífico, e desde o Cazaquistão, na Ásia central, até a Tanzânia e a Indonésia, nos dois lados do Oceano Índico. Fora dos limites do mundo muçulmano, há significativas minorias islâmicas na Índia e na Europa. Na Europa, além das populações balcânicas convertidas há séculos, o Islã cresce pela imigração proveniente da África e da Ásia meridional. O Islã compreende, no total, mais de um bilhão de fiéis.
Mundo muçulmano e mundo árabe são conjuntos geopolíticos e culturais parcialmente superpostos, porém distintos. O mundo árabe, ou seja, o conjunto formado pelos países de língua árabe, compreende a maior parte do Oriente Médio e toda a África do Norte. Isso significa que o mundo árabe é um subconjunto do mundo muçulmano.
As noções de mundo árabe e mundo muçulmano funcionam como focos de doutrinas políticas conflitantes: o pan-arabismo e o fundamentalismo islâmico.
O pan-arabismo foi proclamado pelo líder egípcio Gamal Abdel Nasser, que derrubou a monarquia e instalou um regime nacionalista no Cairo, em 1952. A Carta Nacional, divulgada pelo regime nasserista em 1962, dizia que “a revolução é o meio pelo qual a nação árabe pode libertar-se de seus grilhões” e convocava os povos árabes “para a restauração da ordem natural de uma única nação”. A unificação política da “nação árabe” num único Estado era a meta do pan-arabismo. Essa meta nada tinha a ver com o Islã ou a religião.
A força do pan-arabismo provinha da consciência de que os povos árabes entraram no século XX pelas mãos das potências européias, e sob os grilhões dos imperialismos britânico e francês, que no fim da Primeira Guerra Mundial (1914-18) dividiram entre si as províncias árabes do derrotado Império Turco-Otomano. A unificação da “nação árabe” corrigiria esse desvio da História, promovendo o renascimento de uma mítica idade de ouro dos povos árabes. Renascimento, baath em língua árabe, batizou o partido internacional pan-arabista que nasceu em conflito com os regimes árabes tradicionais, sustentados pelas potências do Ocidente.
O partido Baath alcançou o poder na Síria e no Iraque, entre o final da década de 50 e o início da década de 60. O pan-arabismo atingia o seu zênite e crepitavam os projetos de unificação, mas o movimento já começava a cindir-se, corroído pelas rivalidades geopolíticas entre o Cairo, Damasco e Bagdá. Foi nessa conjuntura que Nasser jogou a carta da guerra contra Israel, agitando uma bandeira de profundo apelo popular nas ruas árabes. A luta contra o inimigo comum deveria servir para recompor a unidade perdida e restaurar a abalada liderança política do Egito.
Mas o feitiço queimou o feiticeiro. Na Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel impôs uma derrota humilhante à coalizão árabe, ocupando territórios egípcios, sírios e palestinos . A morte de Nasser (1970), a aproximação entre seu sucessor, Anuar Sadat, e os Estados Unidos (1974), e a paz em separado do Egito com Israel (1979) suprimiram a liderança do Cairo. As amargas disputas entre o regime sírio de Hafez Assad e o regime iraquiano de Saddam Hussein diluíram o apelo do pan-arabismo.
O fundamentalismo islâmico contemporâneo emergiu no Egito, sob a forma da Irmandade Muçulmana, uma corrente política ferozmente reprimida pelo regime de Nasser. Seu principal pensador, Sayyd Qutb, escreveu que “a liderança do homem ocidental no mundo humano está chegando ao fim”, pois “a revolução científica concluiu seu papel, como concluíram os nacionalismos e as comunidades territorialmente limitadas”, e proclamou: “chegou a vez do Islã”. Qutb foi executado no Cairo em 1966. Seus seguidores encontraram asilo na Arábia Saudita.
Na doutrina dos fundamentalistas, a unidade dos árabes nada significa. A comunidade a ser restaurada não é uma nação, mas uma irmandade mundial de fé. A monarquia saudita, assentada sobre a aliança da dinastia reinante com uma seita islâmica fanática e puritana, recebeu os exilados de braços abertos. O fundamentalismo islâmico servia de contraponto ideológico ao pan-arabismo, que ameaçava os monarcas em todo o mundo árabe.
O Egito de Nasser alinhava-se com a União Soviética. A Arábia Saudita, núcleo do “Oriente Médio petrolífero”, com os Estados Unidos. O fundamentalismo islâmico foi interpretado por Washington como uma barreira contra o pan-arabismo e, mais tarde, entre 1979 e 1989, como um aliado tático na resistência à invasão soviética do Afeganistão.
O “exército dos fiéis” de Osama Bin Laden, recrutado nos países árabes e financiado pelos príncipes sauditas, transformou o Afeganistão no palco da primeira jihad (“guerra santa”) contemporânea. Os jihadistas romperam com Washington em 1990, quando os Estados Unidos instalaram bases e tropas na Arábia Saudita para deflagrar a primeira Guerra do Golfo. Naquele momento, começava o percurso que conduziria aos atentados de 11 de setembro de 2001.
As organizações da jihad global de Osama Bin Laden não se confundem com as correntes políticas fundamentalistas que atuam em países árabes, como o Hamas palestino ou o Hezbollah libanês. Essas correntes estão engajadas em lutas nacionais, que giram em torno do conflito árabe-israelense. Mas o princípio que as guia não é o do nacionalismo. É o da subordinação da política à religião.

Boletim Mundo n° 3 Ano 13

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